quarta-feira, 30 de outubro de 2024
"Viva os maluco"
Nem todos eram como Grandão. Aliás, eram grandes as variações dos tipos. Alguns eram como o Homem da Cueca, que andava por ali também. Todos conheciam a história do Homem da Cueca. Enjeitado às portas da paróquia local, cresceu num abrigo para menores numa comunidade próxima a uma escola de samba. Tinha um parente, que todos pensavam tio, que às vezes o visitava, até que um dia o homem não voltou mais, nem nada se soube dele. Primeiro o Homem da Cueca se chamava Ronderson, mas lá pela adolescência deu pra perambular pela cidade apenas usando uma regata que lhe cobria apenas o tronco estranhamente desproporcional à bunda magra e às longas e finas pernas que o seguiam na vertical, e que ficavam à mostra, resultando no apelido pelo qual ficara conhecido. Uma doença rara e mal curada (diziam) ainda na infância, deformara seu rosto, o que o transformava numa alegoria viva, especialmente se se somasse a isso o inalterável sorriso de quem jamais experimentou, de maneira consciente, o escárnio social do qual era objeto. O Homem da Cueca era distraído por qualquer movimento diante dos olhos, e por isso, certa vez, sofrera um atropelamento que o deixara permanentemente manco. Ainda é possível vê-lo vagando por aí, os olhos vazios sobre o sorriso enigmático que não sorri sobre nada em especial.
Mas diferente do Homem da Cueca e de Grandão, criaturas silenciosas em seu passar, havia as que contrastavam pelo ruído. O que era o caso de Medusa. O segredo era um só: nunca, em hipótese alguma, fazer contato visual.
Como de costume, ninguém sabia de onde tinha surgido, mas deu pra circular pelas ruas no entorno da praça do skate há coisa de um ano, ou dois. Degon Barriga, um cachaceiro que vivia num bar por lá - e que só não era muito diferente deles por ter onde morar - logo chamou aquela mulher estranha e de cabelos sempre desalinhados de Medusa. E o apelido pegou rápido, até porque a pobre nem nome tinha, ou ninguém sabia, ou queria perguntar. Passar por ela e olhá-la nos olhos era considerar que um avanço era uma possibilidade. Uma vez atacou a filha do pastor Eudério, que se aproximou dela pra rezar pela sua alma, destruindo sua bíblia em mil pedaços e puxando seu cabelo. A garota não precisou gritar por socorro por muito tempo: os homens que estavam no bar e viram o ataque foram correndo apartar Medusa da menina que, assustada, presenciou, com pena - apesar de um ferimento que Medusa lhe causara à unha na cabeça - a surra que lhe deram os homens quando a cercaram. Assim, Medusa era geralmente vista de longe, e os pivetes mais ousados que lhe provocavam chamando-a pelo apelido ser serem vistos por ela, o faziam por trás de muros, árvores, carros, pilastras. Procurando a origem das vozes, ao virar-se de um lado para o outro, era como se Medusa estivesse lutando contra uma horda de fantasmas germinados na própria mente.
No que dependesse das pessoas curiosas e ordinárias daquele lugar, Medusa tinha até marido. Não era Grandão, nem era o Homem da Cueca, mas o último tipo que compunha aquela memorável tropa: Binha Caranguejo.
Fabiano era seu nome, e isso era sabido porque, ao contrário dos demais, a família de Binha Caranguejo era conhecida por lá. Tinha 36 anos, e era o irmão mais novo de Roberto, o Betobatuca, que tinha um grupo de pagode e a fama de ser um cara violento, especialmente com as mulheres. Todo mundo sabia que Binha tinha sido, há muitos anos, vítima da violência fraterna, e que fora provavelmente por causa dela que tinha caído nas ruas. Quando adolescente, Fabiano começou a fumar maconha, aqui e ali, escondido, até ir perdendo a vergonha. Ciente disso, Roberto, após uma briga doméstica bem feia com o irmão por outro motivo, fez da maconha o estopim pra uma atitude extrema, e um dia, enquanto Fabiano dormia, foi surpreendido com um banho de óleo fervendo em sua cama. Nada aconteceu com Roberto, que ainda era menor de idade. Alguns anos depois, começou a tocar em grupos de pagode locais, tocava bem, ganhou certa fama, e a história acabou sendo esquecida. Já Fabiano ficou desfigurado após o ataque e, sem suporte familiar, acabou de vez nas ruas, desenvolvendo esquizofrenia e virando, então, Binha Caranguejo. Alvo de escárnio constante, tanto quanto Medusa, para Binha havia até uma música, que quando cantada, o enfurecia: "Eu vou tacar uma pedra/ e vou chamar o Cacau/ meu nome é Binha Caranguejo/ E eu não sou normal". Carlos Bigflipo, o Cacau dos versos cruéis, era a única pessoa que intercedia por Binha, um skatista que dele se apiedava e defendia quando as gozações começavam. Por ele, a seu modo, Binha manifestava afeição. Outra encarnação, no entanto, encabulava Binha, justamente a que o colocava como par romântico de Medusa. Sorrindo sem jeito e sem os dois dentes frontais, a impressão era de que ele identificava alguma espécie de elogio ali.
Binha morava em um barraco no fim da rua 8, atrás da igreja, que um dia, virou notícia do jornal do bairro por ter amanhecido incinerado com ele dentro. Todos os olhos se voltaram para Betobatuca, reacendendo o antigo desentendimento entre ele e o irmão, sendo logo desestimulados pelo fato do músico estar em turnê em outro estado com seu grupo de pagode. Betobatuca, aliás, só viria a saber do ocorrido com o irmão uma semana depois, e segundo comentários, não manifestou reação alguma. Apesar de chamado para depor, novamente nada lhe aconteceria, voltando a viver sua vida normalmente, e até aparecer em um programa de televisão. O fogo que consumiu o barraco gravou no muro uma sombra escura em indefinido formato de coisa ruim, e o crime contra aquela pobre criatura sucumbiria na memória popular não fosse uma pichação, feita com tinta branca, onde se lia "VIVA OS MALUCO", que apareceu por lá algum tempo depois.
Conspiração subterrânea
Nuno acorda com os feixes invasivos do sol disputando sua pele debaixo da marquise. É mais um dia, ele pensa, e seu estômago começa a trabalhar nessa intenção. Tá calor, ele sente o próprio cheiro. Precisa ir, precisa andar, hoje tem umas pendências pra resolver e na verdade não sabe como. Tudo o que ele pensa é de que maneira pode arrumar o que comer naquele primeiro momento. É mais um dia, Nuno odeia pedir e odeia roubar, mas realmente não tem ideia de como comer alguma coisa possível sem partir de uma das duas opções. É enxotado com os olhos de duas padarias nas quais tenta abordagem, e mais tarde, com recusas formalmente verbais. O primeiro, um branco com cara de otário falando inglês. A segunda, uma patricinha dessas de cabelo loiro e pele queimada, com muitas tatuagens, de óculos escuro, falando no celular. 'Esse celular salvaria pelo menos um mês de comida e parada', ele pensou. No momento em que ela deixou a padaria, rodou na Cinelândia que nem viu.
Quando saiu no Daily Mirror que uma espécie de anfíbio havia sido descoberta por uma equipe de pesquisadores ingleses baseada no Pará, Gary já sabia, de ouvir por alto, que teria que estar lá. Não só porque dois dos pesquisadores eram seus amigos, mas porque seria a oportunidade perfeita para, finalmente, visitar o Brasil. Se a coisa toda já tinha ido pro Daily Mirror, já tava rodando o mundo e cedo ou tarde toda a área estaria infestada de mais pesquisadores - o que, por si só, representaria um risco à própria espécie recém-descoberta. O anonimato é a sorte curta das espécies ainda não-catalogadas. Só os peixes abissais dentro da escuridão eterna e os microorganismos nos cumes dos montes gelados têm alguma possibilidade de sobrevivência. Contudo, o caso daquela espécie era diferente, dividindo opiniões entre os pesquisadores. Uma coisa era certa: não se tratava de uma espécie antiga, mas muito recente, estranhamente recente, de modo que parte deles a qualificaram como a primeira espécie do Antropoceno. Um apêndice longo e rugoso nas costas do pequeno anfíbio, assim como o aumento de suas patas, seria uma degeneração na constituição da espécie, e mesmo seu sistema respiratório não era completamente semelhante ao dos anfíbios regulares, não sendo uma evolução, mas o que corroborava, de fato, o surgimento de uma nova espécie. Tudo indicava que a nova espécie era fruto direto da mudança do ecossistema local devido à ação do homem, especialmente durante as prospecções mineratórias nos anos 80. Aquilo iria suscitar uma infinidade de discussões em todas as áreas. Um reboliço científico que Gary precisava ver de perto.
Os padrões da calçada orientavam os passos leves e bem-coordenados de Giovana, que, por algum momento mais demorado de atenção, poderia ser vista dançando discretamente sobre eles. O balé entrara na sua vida aos cinco anos e lhe deixara memória, postura e joanetes. Era boa o suficiente para vislumbrar uma carreira como professora. Mas preferia a crueza de sua dança, e até os eventuais erros de suas passadas, a instruir alguém. Uma música nos seus fones de ouvido dizia, noutra língua, que tinha muitos problemas na sua cabeça, enquanto conferia no celular o agendamento da terapia, também bagunçado pelo novo horário do balé. Precisava comprar ração pro gato, porque o gato comia melhor que ela. Precisava terminar de escrever dois artigos e precisava terminar um namoro. Precisava de muitas coisas enquanto andava pela cidade enganando a própria pressa, com os olhos fixos nos padrões da calçada e suas pedras portuguesas.
O conselho dos pesquisadores iria se reunir no Rio de Janeiro ao final da primeira parte das pesquisas para discutir a coleta dos resultados parciais. Era essa a informação que Gary havia recebido por e-mail de Timothy, que já estava no Pará. Por hora iria observar o desenrolar dos acontecimentos de casa, mas não gostaria de chegar lá quando toda a junta de cientistas já tivesse reclamado o local pra si, mas não gostaria de ter que adiantar tanto sua ida. Gostava de pensar que a falta de adaptação dos seus corpos estrangeiros naquela terra seria difícil, o que os expulsaria antes, por enfado, e achava engraçado, até. Um monte de cientistas juntos tem sempre muita razão. Gary era cientista também, e sabia disso. Mas preferia o riso, apesar da ansiedade. Também tinha suas questões. O que seria quando chegasse por lá, e desse com aquele campo montado de pesquisadores de todos os lugares? Pensava na espécie nova como um novo elo, not a missing one, but a found.
Ondas brancas e ensebadas na fronha do travesseiro, cabelos em todas as direções. O peito palpitando forte num trote reemulando o sonho, era Giovana despertando do pesadelo que tivera com uma tropa de cavalos varando violentamente um campo aberto, enquanto ela dançava, só, sobre uma pequena plataforma de madeira. Trouxe a cabeça a noventa graus do corpo, num impulso rápido, esparramando as pernas na outra ponta do sofá em que cochilava. Virou devagar o pescoço de um lado, do outro não conseguiu, torcicolo. Revirou os olhos de incômodo, levantou; no espelho do banheiro, discretas olheiras sobre sua pele negra.
Com esse calor do caralho vai cair mó torozão, Nuno se vira para Ney, um amigo, e diz com a voz preocupada. Tu já sabe pra onde vai se arranjar, Ney? Ney dizia que havia um abrigo perto da Praça Tiradentes pra quando chovesse assim, da forma que se estava ameaçando chover. Nuno ficou pensando na chuva antes dela cair, em como o céu sempre parecia tão escuro em plena luz do dia momentos antes de um temporal, em como sempre pensava na chuva como alguma coisa que aliviava o céu engasgado. Ficava pensando se existia algum deus de verdade se escondendo atrás das nuvens, até das mais escuras. Tu acredita em deus, Ney? Ney acredita em deus ao limite de duvidar da sanidade do amigo pela pergunta em si. Já Nuno não tem tanta certeza. Quando era criança havia uma avó que fazia bolo quentinho, quando dava, pra comer com sessão da tarde. Aquilo era deus. Nuno sabia de pouca coisa, mas entendia muitas, e das poucas coisas que sabia era que, às vezes, entender era mais importante. Se não tivesse aprendido isso, a essa altura já seria um homem morto, porque a rua cobra dos desatentos que aprendam cem vezes mais rápido que as pessoas que têm um teto. Todo esse arranjo doido de pensamentos se desfez ao toque grosso e frio do primeiro pingo de chuva, que anunciava que teriam de procurar logo um lugar pra ficar.
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
É velho - e é isso o que fez meu!
Que se esclareça que estimação não é apenas aquela palavra que usamos quando nos referimos aos animais domésticos. Tenho, por exemplo, um short jeans da minha mais antiga e completa estimação, cujo preço não faço ideia (esqueci ao longo desses mais de 15 anos de convivência), mas cujo valor foi se agregando justamente com o passar do tempo. Não é um short em nada especial: como dito, é apenas um short jeans curto; nem é de nenhuma grande grife, mas de uma loja de departamentos de qualidade duvidosa. Já passou por pelo menos um ajuste na cintura, e graças à minha estimação por ele e à minha capacidade de equilibrar o peso, continua a me vestir até o presente dia. Ao longo de nossa trajetória, o shortinho encontrou detratores: um ex-namorado ciumento já ameaçou nossa relação (e esta pode ser uma pista sobre seu status de ex, posto que o short, este sim, continua em minha vida); e também minha mãe, que não acha seu comprimento apropriado (o que é ótimo, afinal, assim ela não pode usá-lo). E a quantos lugares fui, quantas pessoas conheci, quantas fotos já tirei com esse short específico. Sim, houve até um outro, que em anos mais recentes ameaçou seu posto, mas em uma certa situação foi avariado de maneira aparentemente irreversível. O que conheço é a permanência do shortinho jeans sobre as circunstâncias, o que por si só já lhe insufla certo ânimo fantástico, um ar aventureiro.
Me voltei para o tal short porque andei pensando no conforto que só as peças que já conhecem tão bem o formato do nosso corpo nos dão. Moro no Rio de Janeiro, e por aqui, mesmo o mais ameno dos invernos costuma fazer o carioca bater o queixo pela falta de costume, e o que pode haver de melhor, nessa ocasião, que aquele velho moletom no armário para ser nosso campeão nessa guerra térmica? Só uma peça que já conhece os segredos das nossas dobras, pele e caimento nos defende adequadamente não só nessa, mas também em situações que requerem coragem para encarar o não navegado mar cheio de criaturas extraordinárias de um primeiro encontro, por exemplo. Ousadia e destemor são necessários se nos propomos a desbravar um caminho diferente, mas sem segurança e um mínimo de conforto e provisão, é certo que não se vai muito longe.
Essa sequer é uma percepção isolada, ou mesmo inovadora. Há alguns bons séculos, o maior dos frugais já dizia que reis e rainhas que usavam uma roupa apenas uma vez, apesar de confeccionadas pelos mais talentosos costureiros, não poderiam experimentar o conforto de uma peça que realmente aderia, por uso, às linhas do corpo. Que as nossas roupas do dia-a-dia se assimilam a nós, assim recebendo a marca de quem as usa, até que decidamos, um belo dia, pô-las de lado. O pensador em questão ainda recomendava cuidado com as empreitadas que exigiam roupas novas ao invés de um novo Eu para os ditos eventos. Imagina que revolucionário se fôssemos para um encontro com um possível interesse afetivo não com uma roupa nova, mas com uma cabeça nova? Esse é o conselho, válido até hoje, de ninguém menos que o velho Thoreau, que valorizava mais o simbólico de um retalho em uma roupa velha à falta de personalidade em uma roupa nova. Quantos vestidos você já deixou de usar por pequenos furinhos aqui ou ali; quantas peças de roupa você já aposentou porque a vitrine de hoje insiste em dizer que elas ficaram velhas? Se pensarmos nisso, entra um detalhe importante.
A frugalidade thoreauriana ainda, e principalmente hoje, tem muito a nos ensinar sobre consumo, acabando por se revelar uma resposta involuntariamente anticapitalista. O que pode ser mais ameaçador ao mercado consumidor, de qualquer segmento, que um cliente satisfeito? Aquele que, por entender que tem o que precisa, não é atingido pela sedução barata do supérfluo? Assim colocada, apesar de parecer um tanto lógica e algo simplista, é evidente que esta não é a solução mais simples de pôr em prática, justamente por demandar uma educação realmente filosófica em relação à atitude humana, sua postura e seu status em sociedade. Não é à toa que, enquanto discurso, o upcycling tem enorme popularidade na comunidade da moda, e ainda mais surpreendentemente nos círculos de brechós por parecer uma alternativa moderna e descolada, mas quando se trata de vivê-lo filosoficamente, tem-se aí um esvaziamento total justamente porque sua implicação direta é o estacionamento da esteira capital que movimenta estes mercados. O hoje maior fast fashion online do mundo, a Shein, juntamente com a Temu, tem seu consumo baseado, sobretudo, no tédio - o que, por si só, nos devolve à uma perspectiva que deveria olhar mais filosoficamente para este tipo de consumo. Tem quem evite olhar para o político nas coisas, mas imagine só se a gente considerasse, aqui, a memorabilia soviética, não é?
Infelizmente - ou não, também - mais razão tem o Marcelo Jeneci, quando diz que a gente é feito pra acabar, e que isso nunca vai ter fim. Se isso é verdade sobre o humano e sua formidável capacidade de criar, que dirá do nosso vestuário. Meu short jeans, por exemplo, tem um franco rasgo na nádega esquerda, e um que está se formando na direita, ambos por uso. Me deixa um pouco triste que sua vida útil esteja possivelmente chegando ao fim, mas você é capaz de se lembrar da sensação justa de conclusão de uma peça de roupa que você precisa jogar fora por ter cumprido totalmente seu tempo de função? Ou mais comum tem sido observar, penduradas em seus cabides, roupas sensacionais nunca usadas envelhecendo sem uso? Quanto a mim, escolho a finitude dessa peça - na ilimitada janela de peripécias que já me deu.
domingo, 17 de setembro de 2023
O coiote e o carcará no meio do Sertão
O bom de se ter um blog como se ainda se estivesse em 2002 é que aqui dá pra ser cringe sem culpa. E por isso me sinto autorizada a falar das minhas cringices.
Coisa interessante é observar o que o tempo faz com a gente. Às vezes nem tanto com o nosso corpo, mas definitivamente o que faz com as nossas percepções de mundo.
Desde a adolescência eu desenvolvi uma relação muito estreita com língua inglesa, de modo que cedo entendi que trabalharia com ela. Não deu outra e me tornei professora. Mas preciso ir um grau além nisso.
Não conheço nenhum professor que não tenha uma relação de vida com aquilo que ensine, até porque não tê-la faria da sua profissão uma prática vazia. Quando a gente fala de um professor de línguas, então, acredito que todos pensem, em alguma medida, sobre cultura e território. Pois bem.
Apesar de apaixonada pela língua inglesa, sempre cultivei um profundo sentimento anti-imperialista porque: sim, né? É tosco ver caboclos querendo ser ingleses; mas é um embevecimento, sim, vê-los empoderando-se não apenas ao aprender a língua do império, mas instrumentalizando-a para criar respostas à altura que combatam sua influência. Só que não sejamos ingênuos: nem a consciência dessa apropriação nos blinda dessa influência completamente.
Eu, por exemplo, aprendi a gostar muito de inglês vendo filme, e filme americano, claro. E eu não sei quantos filmes americanos eu vi nessa vida que não trouxessem imagens do que acho que existe de mais bonito nos Estados Unidos: suas belezas naturais. Convenhamos: nesses termos, esse é um país riquíssimo. Mas (e com dificuldade de afirmar isso) talvez nada me atraia mais que a arquitetura milenar dos desertos americanos. Tiveram responsabilidade os beatniks? Tiveram. Teve responsabilidade o cinema? Teve. Teve responsabilidade a própria história de disputa desse território? Teve. Enfim, um caldeirão de referências moldou o meu olhar em relação a esses desertos, que tenho até hoje muita vontade de conhecer, com uma motivação bem próxima do que seria uma contemplação espiritual sobre eles.
Mas, ei. Falei ali em "caldeirão", né? Não foi à toa.
Ontem estava ouvindo uma música que gosto muito e já ouvi várias vezes, mas que, por razões que já descrevo, me bateu diferente. Seu nome é Caldeirão dos Mitos, e não consigo pensar em ninguém melhor que Elba Ramalho pra interpretá-la, mas a composição ficou ao encargo de Braulio Tavares - que até o momento da produção desse texto, eu não tinha conhecimento algum a respeito e foi ótimo dar uma pesquisada pra saber quem é (recomendo que vocês façam o mesmo). Mas voltando, a Caldeirão dos Mitos de Elba e Braulio ontem me bateu diferente. E esse impacto só pôde acontecer depois de muita caminhada pelas veredas infinitas da vida que só existem pra provar pra gente que não existe caminho perdido.
Estou lendo A Guerra do Fim do Mundo, do peruano Mário Vargas Llosa. Comprei esse livro por acaso, em um sebo, porque não tinha, até então, lido nada dele e essa era uma pendência pessoal. Poderia ser qualquer outro livro, mas calhou de ser esse, e não poderia ter me atraído mais o seu assunto: a ainda pouco compreendida, principalmente no Sudeste, Guerra de Canudos.
Só que a Canudos de Vargas Llosa conta com vários personagens ficcionais, o que (eu acho) deixa a História de Canudos ainda maior em suas contradições - como acontece em todas as revoluções.
E é nesse cenário que eu começo a pensar em coisas. Coisas que a canção de Braulio Tavares saúda na voz acesa da Elba.
Um dos livros que mudou minha vida foi Grande Sertão: Veredas. Ao contrário do romance de Vargas Llosa, esse é 100% ficcional. Mas à semelhança daquele, compartilha a paisagem e o modo sertanejo em seus personagens. Enquanto leio A Guerra do Fim do Mundo, aliás, frequentemente imagino Riobaldo dando em Canudos por acaso, sentando-se quieto num canto, ouvindo a palavra do Conselheiro, tendo uma cumbuca d'água servida por Maria Quadrado e partindo em seguida pelo inexpugnável Sertão. E o Sertão, como diria o mineiro, é o mundo. Só que o mundo, principalmente o mundo sertanejo, é fundado no mistério.
Por isso que abri esse texto notando o quanto é curioso ver o que o efeito do tempo sobre as nossas percepções de mundo.
Há uns 10 anos eu não imaginaria que seria capaz de relacionar os sertões americanos - não é o que são? - com os sertões brasileiros. E ao pensar nessa comparação, cuidadosamente considerando tudo o que me atrai nos sertões de lá, me dou conta que o nosso em nada deve em potencial histórico e por isso mesmo fantástico - ou como melhor diria Braulio Tavares, "insólito". Lá eles têm os rituais indígenas com peyote, e aqui não temos a ayahuasca? Lá eles têm os canyons, e aqui não temos os sambaquis? Lá eles têm os cowboys, e aqui nós não temos os jagunços? Se lá moram os últimos tricksters americanos, os coiotes, não encontraríamos aqui uma correspondência na implacabilidade do condor do sertão, o carcará? ambos, inclusive, potenciais representantes do Outro Mundo em sua sentinela?
O que se vai buscar no Sertão que tem o descaminho como princípio? O misticismo que emprenha as histórias sobre estes espaços se inclina sobre o próprio inconsciente desejo humano por isolamento, silêncio e se arrisco um palpite mais fundo, transcendência. Em um ensaio poderoso, o crítico literário William Deresiewicz faz um resgate ao fundamento bíblico de que não seria possível ao homem ouvir a voz divina na multidão, recorrendo então, à fugere urbem. Mas nesse contexto, cabe lembrar que foi no deserto que, segundo as escrituras, Jesus teria sido tentado pelo Diabo. Sendo assim, seria o Sertão uma espécie de portal por onde o Invisível entra e verbaliza, ou mesmo o contrário, entrando o homem no terreno do Invisível?
O pacto de silêncio feito por sertanejos e cowboys em relação aos seus territórios parece justamente ser o terreno fértil onde me sinto encorajada a plantar minhas conjecturas. E se antes eu pensava que a resposta pudesse estar em Nevada ou Utah, hoje acredito ser possível encontrá-la mesmo é na Bahia ou em Caruaru.
terça-feira, 11 de julho de 2023
O vácuo da imagem
como a geração brasileira que adolesceu na primeira década dos anos 2000 pode ter sido a última a não ter imagens de si própria neste intervalo - e de que maneira isso permite sua reinvenção
Existe um intervalo entre o fim do analógico e o início do digital que foi percebido de maneira peculiar por uma classe média que não podia fazer uma viagem por ano para a Disney. Essa classe média, valores inflacionários corrigidos, nominalmente a classe C, que se espremia entre pagar a mensalidade do colégio particular (isso quando, muitas vezes, não inseria seus filhos no ensino público), água, luz, bens de consumo e pôr a comida na mesa era aquela que, diante dessa transição tecnológica, não tinha dinheiro sobressalente para custear os primeiros celulares com uma câmera - e mesmo as câmeras de qualidade só surgiriam no fim da primeira década dos anos 2000, quando acontece a ascensão do IPhone e com ela a implementação definitiva do sistema Android, permanentemente desbancando o império escandinavo-gêrmanico da tríade Sony Ericsson-Nokia-Siemens, até hoje lembradas pela durabilidade de seus aparelhos de então. Neste período, correspondente aos dez primeiros anos da década de 2000, quem não podia Nova Iorque ia de Madureira: era, para esta classe, a era da câmera digital (que já era popular entre as classes A e B nos últimos anos da década de 90). E aqui mora a peculiaridade.
Para a geração brasileira da classe C que entrou na puberdade no início dos anos 2000, era comum um certo bordão num programa de TV que dizia "Agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de TekPix!". Teria sido o Juarez da TekPix, anunciante do produto, o primeiro meme brasileiro? É possível. TV FAMA, o programa em questão, numa era pré-smartphones e pré-internet como conhecemos, gozava da mesma popularidade que outros contemporâneos, encabeçados por Pânico na TV e seguidos por demais programas de auditório distribuídos por canais abertos. Depois das novelas, estes eram os programas mais populares, mas se nas novelas a merchandising é, até hoje, relativamente velada, nesses programas ela era estridente. Ocorre que o anúncio desse tipo de câmera, feito em programas com uma vultuosa audiência, surtia um interessante efeito de vendas. Se a propaganda cria o desejo, e se em cada época existe um bem de consumo supérfluo que captura o zeitgeist (como foi o Discman nos anos 80, seguido pelo Bip nos anos 90), o desejo do trabalhador brasileiro em 2002 era adquirir uma TekPix. A essa altura, as câmeras analógicas mais práticas (aquelas, que o meu pai e o seu tinham, não a Leica do filho do patrão deles) já estavam saindo de circulação.
Estabelecidos os supracitados critérios de classe, quem nasceu no fim dos anos 80 teve, durante a infância, certa intimidade com o analógico. É claro: a relação das pessoas com câmeras varia bastante, mas isso não importa muito durante a infância, pois seus primeiros detentores de direitos de imagem são os pais. Para muitos destes, que tinham crianças em casa nos anos 90, as fotos poderiam ser abundantes. E tome fotos em aniversários, em viagens pro sítio, pra casa de praia (em Iguaba), no trabalho da mamãe, no passeio da escola, do cachorro. Toda família certamente continha ao menos um membro que tinha alguma relação com o ato do registro, o que, desde as pinturas rupestres, é a atividade mais genuinamente humana da qual se tem notícia. Foi o último momento em que reinou absoluta a Kodak, subestimando a ameaça que já surgia com o desenvolvimento das primeiras câmeras digitais, ainda na década de 90. Em seu conforto e garantia monárquicos, não anteviu a própria queda.
Mas de que maneira isso afeta a adolescência do grupo em questão? Voltemos ao início do texto.
A transição dita provoca uma vacuidade de registros que, em 2023, já não é possível, salvos estejam os eremitas digitais. Se aqueles que foram adolescentes nos anos 70 possivelmente tiveram sua infância e adolescência fotografadas em câmeras analógicas (sempre sendo considerado aqui um parêntese socio-econômico), os nascidos em 1988, a exemplo de quem vos escreve, experimentaram uma suspensão temporal de, aproximadamente, 7 anos no mínimo, a 10 anos no máximo, que foi o tempo que durou essa transição. É improvável que estejam preservados, por exemplo, registros feitos, em 2005, por um Motorola V3, em meio a tanto lixo digital. Nesse período, este era considerado um super-celular, e tremendo sonho de consumo para a classe C. Quem não poderia comprar um, apelava para TekPixes ou similares (parceladas em até 12x sem juros).
A isso, some-se a questão da funcionalidade e portabilidade. Em 2023, já não há mais quem diga que "celular é pra falar", por menos íntimo que seja de redes sociais ou mesmo que se abstenha delas por completo. A menos que você fosse um fotógrafo (ou aspirante a um), não seria muito comum carregar uma câmera digital na bolsa - principalmente se você fosse um adolescente. Desse modo, a câmera digital continuava com status de pequeno luxo, sendo reservada às ocasiões pontuais já comentadas anteriormente. Além disso, havia certo trabalho em transferir as fotos de uma câmera digital para um computador, para que pudessem ser visualizadas em uma tela maior, uma vez que revelá-las não seria a ideia - e mesmo falar em "revelação", aqui, sequer faz sentido, pois este é um termo intimamente ligado à mecânica do aparelho analógico. A ideia do digital era sua conexão com um computador pessoal, necessariamente. Retomando o recorte socio-econômico aqui feito, não era toda família da classe C que tinha um em casa há vinte anos atrás. Havia, ainda, o risco de perda: câmeras digitais poderiam ser perdidas. Uma coisa era perder uma câmera analógica que já teria seu filme revelado; a outra era perder uma com todas as fotos dentro. Tudo isto posto, calcule: quão seguras estavam as fotos desta época? Abra o baú das suas fotos físicas. Quantas fotos digitais deste período você tem? Os primeiros celulares com câmera miraram justamente esta lacuna, e como se vê, encontraram aí um nicho tecnológico sem precedentes econômicos.
Mas com o desenvolvimento deste nicho surgem problemas que não poderiam sequer ser calculados.
Não há dúvida que o suicídio sempre tenha sido uma constante na história da humanidade, mas o surgimento das redes sociais cria uma relação entre ele e o cyberbullying, sendo o primeiro caso documentado em 2006, quando do suicídio da jovem americana Megan Meier, aos 13 anos, vítima de uma difamação que tomou proporções trágicas. Deste momento até aqui, há um crescimento exponencial de suicídios que têm alguma origem no cyberbullying. A geração Z é a maior vítima, justamente por ser aquela conhecida como nativa digital. Sua adolescência se dá a partir da primeira década dos anos 2000, pouco mais de dez anos atrás, momento em que a internet já está assentada como conhecemos. Por mais nativos digitais que sejam, falta aos membros dessa geração o desenvolvimento da sensibilidade para lidar com aquilo que, antes, se restringia ao tempo e ao espaço da escola, e que assim sendo, permitia rotas de fuga. Em lugar desse desenvolvimento, o que tem-se é uma supressão violenta, que reveste esses adolescentes de uma casca emocional frágil que, quando se fratura, tem potencial arrasador, quer para o ofendido, quer para os ofensores. O aumento dos ataques em massa em escolas também pode ser observado como um desdobramento desse fenômeno. Se antes você tinha, ao menos, o direito a um mano-a-mano na saída da escola (e não que isso tenha acabado), hoje o tipo de vingança mais comum é a exposição indevida de alguma foto ou vídeo conseguidos ilicitamente e replicados a perder de alcance. O poder da imagem é implacável. E a internet não esquece.
É muito provável que a geração nascida no fim dos 80 seja a última com direito real ao esquecimento do período que costuma ser o mais problemático para todo ser humano. Geralmente é na adolescência que surge a vergonha, a sensação de ser ridículo por alguma coisa, a timidez e tudo o mais que caracteriza esta fase. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, as fotos da adolescência de alguém podem ter o poder de cristalizar todo esse momento, reduzindo o sujeito a uma imagem estereotipada que pode ser simplesmente passageira. Experimente contar quantos artistas mirins seguiram na indústria e estabeleceram carreiras sólidas crescendo diante das câmeras. Entre outros fatores, é mais do que comum a constatação de que muitos sucumbiram à pressão das expectativas criadas sobre eles, voltando para o anonimato no melhor dos casos. Em um ensaio revelador de 2019, a escritora Nausicaa Renner reflete sobre a premissa contida no livro de Kate Eichhorn, O Fim do Esquecimento: Crescendo nas Redes Sociais, de 2015. Neste, a autora defende que a facilidade com a qual crianças hoje geram e administram a própria imagem no mundo virtual pode prejudicar sua capacidade de filtrar as memórias que realmente desejem reter, e que isso viria a impedi-las de reinventarem-se ao longo da vida.
Renner menciona que, segundo Eichhorn, todos se beneficiam da experimentação na adolescência. Em um dos pontos centrais de seu ensaio, ela chama atenção para o que postulou o psicanalista Erik Erikson. Ele acredita que, durante este período, nós vivemos no que ele intitulou de "moratória psicossocial", um estágio no qual oscilamos entre "a moralidade aprendida pela criança e a ética a ser desenvolvida pelo adulto". A moratória é um período de tentativa e erro em que a sociedade deixa livres os adolescentes, a quem permite correr riscos sem o medo das consequências, na esperança de que, agindo assim, eles irão construir o núcleo de sua personalidade - um senso pessoal do que dá sentido à vida. A internet interrompe a privacidade dessa era, com a tendência de escalar pequenos deslizes a erros monumentais que constarão em uma espécie de ficha permanente. Se delimitarmos a questão por gênero, as coisas podem tomar proporções dantescas. Por exemplo, na minha adolescência tive uma amiga que namorou com um rapaz durante algum tempo. O namoro terminou quando ele gravou e divulgou um vídeo íntimo dos dois na internet. Requintando a falta de caráter, foi capaz de gravar um DVD e vendê-lo no camelódromo no centro da cidade. A menina deixou a escola e, no boom do surgimento das primeiras redes sociais, como Orkut e Facebook, ela nunca fez um perfil pra si, tamanha foi a repercussão do caso. Havia se tornado um fantasma de si mesma. Era o primeiro revenge porn do qual eu tinha notícia. Desabrochando em sua vida sexual, ficara marcada definitivamente. Por quanto tempo não terá carregado esse trauma para outras relações? De que maneira o crime que foi cometido contra ela não tornou-se a imagem mais forte de sua adolescência, até para si própria? Após algum tempo mudou-se, e nunca mais tive notícias dela. Como dito, a internet não esquece.
O vácuo da imagem sentido pelos que podem ser chamados de late millenials, ou simplesmente aqueles nascidos no final da década de 80, permite a eles uma melhor capacidade de seleção da memória, o que faz com que valorizem as experiências boas em detrimento das ruins, de modo que essa agência crie uma personalidade menos suscetível a provocações e ao bullying feitos internet adentro. Quem aprendeu a se defender na vida real e cresceu tendo sua privacidade relativamente preservada tem mais chances de sobreviver nesta espinhosa selva de informação. Assim sendo, será mais fácil lembrar de como o Luizinho ainda tinha cabelo naquele passeio para Petrópolis em 2002 e das risadas naquele dia, ou mesmo recriar, mentalmente, um primeiro beijo que nunca aconteceu enquanto o ônibus voltava da serra. Já nos dizia Waly Salomão: a memória é uma ilha de edição. A magia que amplia a criatividade humana acontece no ato de recontação - uma sorte que, depois da exatidão inflexível do Google Photos, pode estar perdendo o seu encanto.
segunda-feira, 29 de maio de 2023
Quando Jorge Errou - imperdoavelmente
Tenho um amigo que costuma dizer que se parece com um marreco. Em sua perspectiva, um marreco é capaz de fazer muitas coisas, mas nenhuma delas faz direito. Foi assim que há alguns anos ele começou sua entrevista no Programa do Jô, auto-apontando sua suposta falta de talento, quem sabe utilizando isso como um escudo à prova de ataques sobre seus dotes artísticos - meu amigo é escritor, DJ, músico e cineasta. De fato: é para poucos expandir o talento em múltiplas direções, e principalmente manter sua qualidade nesse superdigitalizado mundo pós-industrial. Para poucos, sim, mas esses poucos estão por aí, entre a fama e o anonimato - quando a humanidade dá sorte, alguns deles alcançam a fama. E um desses poucos é Seu Jorge.
Seu Jorge é um dos personagens brasileiros mais consistentes em sua versatilidade artística. Digo isso sem medo. Bem sucedido como ator, intérprete, compositor, cantor, produtor e sabe-se lá o que mais, Jorge Mário é um brasileiro cuja trajetória artística foi marcada por alguns altos e baixos, e mesmo sua conhecida história faz dele um exemplo de superação. Os prêmios que coleciona, tanto na música quanto no cinema, não foram concessões voluntárias de uma indústria apenada por sua história, mas pelo mérito de seu esmerado trabalho artístico reconhecido globo afora.
Como qualquer pessoa no mundo, o artista tem suas complexidades, sobretudo políticas. Em 2007, Seu Jorge fez coro no vergonhoso movimento Cansei, que reunia o que de pior havia na vampira elite brasileira, entre socialites, celebridades situacionistas e figuras públicas no mínimo questionáveis. Falo de gente como Regina Duarte, Hebe Camargo. Para quem possa vir a ter a memória embaçada, o Cansei é a versão coxinha do que viria a se tornar o bolsonarismo anos depois. Algum tempo depois disso, Seu Jorge volta a se posicionar, desta vez ufanando-se de morar em Los Angeles para justificar seu desprezo por um país que nada lhe deu. Considerando seu histórico, não é tão difícil fazer um pequeno exercício de alteridade e se identificar com a revolta que pode tê-lo motivado à certa arrogância ao tentar se defender de certas acusações com relação ao seu posicionamento político: questionado (e disputado) por uma esquerda ocasionalmente dogmática, Seu Jorge parece esforçado em manter-se longe dela (desde sempre), indo na contramão do que geralmente se espera de um artista negro brasileiro que chega ao estrelato; coisa que, no passado, experimentou também Wilson Simonal. Longe de absolvê-lo, ao menos é possível encaixar certas peças neste tabuleiro que me levam minimamente a compreendê-lo. Em certa medida, estes são episódios apenas lamentáveis diante do Grande Erro de Seu Jorge.
E o Grande Erro de Seu Jorge acontece no ano de 2015, quando ele lança uma das maiores tragédias da música popular brasileira: a música FELICIDADE.
Movido pelo justíssimo sucesso de Músicas Pra Churrasco Volume 1, lançado em 2011, Seu Jorge lança a segunda versão homônima, quatro anos depois. E é nesse álbum que esta música está.
Há muitas razões pelas quais uma música cai (ou não) no gosto popular. Melodia, letra, embalo, algum tipo de piada interna, algo que motive a criação de memes: as duas últimas têm funcionado como um método fácil de popularização. "Felicidade" atingiu sucesso no ano de seu lançamento e até hoje é bem difundida no rádio, e aparentemente passaria incólume pelo público se eu não tivesse nascido.
Não há nada mais enfadonho na cultura brasileira inteira que a letra desta música pela mesma razão que todo comercial de margarina é cafona, porque inverossímil. "Felicidade" é, portanto, como se um comercial de margarina tivesse sido musicado; um marketing feito na medida para vender um produto que - sabe-se - é ruim para o consumo, dada a sua redonda artificialidade. Na letra, Seu Jorge elenca situações que traduziriam o que é a felicidade (o que por si só já é um dos assuntos mais complexos que há), mas a maneira como faz isto é tão pobre e crivada de imagens previsíveis que revela um despudor significativo sobre o próprio assunto que escolheu abordar. Felicidade, sem entrar em camadas filosóficas mais profundas, é tópico sério, sensível e altamente subjetivo, mesmo que não deixe de ser leve. Até mesmo gente aparentemente menos ajuizada conseguiu se sair melhor que Seu Jorge em sua definição - afinal, felicidade pode ser, sim, um fim de tarde olhando o mar, como os cariocas aprenderam em 2005 na voz de Danilo Cutrim com os demais meninos do Forfun, que inclusive pareciam mais relaxados sobre ela, não procurando defini-la à exaustão com pares de frases tão preguiçosas. Talvez more aí a diferença: a Felicidade de Seu Jorge é compartimentada, pronta para o consumo. Em último, instagramável. E não existe, no mundo moderno, nada mais cafona que o próprio conceito de instagramabilidade.
Mas me resta, ainda, uma última teoria. E isso tem potencial de mudar completamente tudo o que foi colocado até aqui.
É possível que "Felicidade" seja uma das músicas mais inteligentes do país se lida como uma peça irônica sobre o que pode vir a ser a tal difusa e inconceituável felicidade. Só gente muito grande faz esse tipo de movimento. Luiz Melodia aprontou uma dessas em Mico de Circo, de 78, quando cantou "Eu Sou o Samba". À uma segunda vista, o que antes parecia ser a entoação de um coro de saudação dá lugar à jocosidade esperta e madura que Melodia sempre depositava nas suas músicas como senhas (ainda que esta, em específico, não fosse sua). Na voz do menino que desceu o São Carlos, a interpretação desta música surge em tom debochoso, de alguém que conseguiu entrar na festa dos brancos, mas sabe muito bem de onde veio. Coisa semelhante (e convenhamos, menos discreta) também fez Gonzaguinha em 73, com "Comportamento Geral", em uma letra que discorre sobre a passividade bovina do trabalhador brasileiro frente ao achatamento de sua própria vida pelas engrenagens do sistema capitalista. Se Seu Jorge tiver tomado este caminho ao compor a música que dá assunto a este texto, ele passa de fastidioso a gênio num estalar de dedos. Mas infelizmente tenho motivos para desconfiar que não seja o caso.
Pequenas Notas sobre o Igor
Gosto como o Igor se utiliza de adjetivos inusitados pra descrever unidades de medida, por exemplo. Uma colher de plástico pequena, na boca dele, torna-se "interessante". Na boca dele, aliás, nada parece desperdiçado: tudo tem uma função, um porquê. Gosto de como Igor brinca com possibilidades silábicas criando palavras novas, e não que ele seja o primeiro a fazer isso, mas as palavras dele são dignas de popularização: revesfrengo mariolete, pacolalafágrigo, ximbirra; a graça é o costura-descostura. É um self-service semântico: pegue uma e aplique-lhe um contexto. Atesto: vai servir. (É claro que, segundo o mesmo processo eu já ganhei vários adjetivos, mas sobre isso vocês não precisam saber).
Gosto de ver a sensibilidade do Igor onde é inevitável: seja sua opinião sobre a textura de um caldo, ou quando uma situação envolve as finíssimas camadas das relações interpessoais. Sob o risco de não parecer sincero o bastante, Igor prefere o silêncio. Talvez seja mesmo coisa dessa gente de maio, que observa mais, absorve menos. Para uma deglutição lenta: quatro estômagos.
Gosto de ver o Igor dormindo, pesado feito o esquecimento e leve tal qual a consciência, como quem confia naquela hora em que o corpo se entrega à toda vulnerabilidade que pode. Gosto como Igor confessa quando não tem certeza. Pessoa muito lógica, Igor não se sente constrangido ao revelar o que não sabe, não fica procurando circundar, com argumentos imprecisos, algum assunto que não domine só pra não se sentir excluído ou defasado sobre ele. Nem sempre é indispensável estar por dentro de tudo. Inclusive, gosto como Igor lida com a solidão.
Acima de tudo, gosto de como o Igor não me dá tudo o que eu quero, porque me obriga a repensar meus quereres. Quem tem tudo o que quer, ao tempo e à hora, acaba sendo mimado por desejos pobres, mal construídos. E a verdade é que estamos nos livrando de incômodos e desafios cada vez mais cedo por esse motivo. Por não me dar tudo que quero, Igor me dá o benefício de desejar melhor.
Gosto quando o Igor tenta rimar. É sem sucesso, mas pelo menos é engraçado. Falando nisso, Igor sente muita cosquinha, mas antes que isso seja usado contra ele, ele parte pro ataque. (Hoje acho que isso pode ser análogo aos seus sentimentos também, mas esse é um segredo bem guardado). Gosto de testemunhar o Igor aprendendo algo novo. Desconfiado, é como se ele se recusasse a aceitar algo de primeira, precisando ser convencido daquela verdade. São tantas as particularidades do Igor que é fácil me estender, o que faz com que seja difícil escolher o que mais gosto sobre ele. Mas acho que me decido assim:
Gosto da maneira como o Igor aumenta a minha curiosidade pelo dia seguinte. A curiosidade é o melhor avesso da ansiedade. E estar curiosa pelo dia que vem é o que me deixa em paz com a vida.
sexta-feira, 4 de março de 2022
A tensão nas montanhas
Como uma cidade inteira tornou-se refém da força da natureza e do descaso do poder público - e como minha história breve atrela-se a ela.
Por Ícaro Gonçalves
02/08/2007
BRILHAM DE LONGE - EU VI
Os carros passam rápido por aquele trecho da avenida. É prudente fazê-lo, mas a imprudência ainda move o espírito humano, e sendo assim, há quem se detenha, mesmo rapidamente, e olhe para os lados. O líquido aceso, dali se vê, escorre lento do cume das montanhas, feito a cabeça apedrejada em sangue dum gigante, interrompendo o escuro da avenida mal-iluminada. Essa avenida, aliás, tinha ficado bastante conhecida por ser corredor intenso de passagem pra vários pontos da cidade, sendo cortada tanto por gente rica quanto por gente pobre, representando a interseção acidental entre dois mundos que, pelo menos na maior parte do tempo, pareciam não se tocar. Da pista, a cadeia de vulcões é visível a quilômetros, enquanto os vulcões mais violentos seguem vilipendiados pelo poder público, ganhando os jornais apenas em épocas de atividade muito franca.
É promessa comum de campanha o investimento expressivo na pasta de Geologia e Segurança. Na cidade inteira não há propósito mais urgente. O governador Cesário Felix, velha e conhecida raposa das massas, vive anunciando a abertura de concursos e contratação de todo um novo corpo de geólogos das melhores instituições, nacionais e internacionais, que venham sanar o problema da atividade vulcânica excessiva, sofrendo críticas de todos os espectros políticos que, se de um lado defendiam, à miúda, a importância econômica dos vulcões, por outro argumentam que, como força da natureza, os mesmos não deveriam sofrer controle, e portanto, é responsabilidade do estado fornecer alocamento nas regiões centrais para as pessoas que, por falta de opção, têm que viver aos pés deles. Nesse estica-e-puxa verbal, nada se resolve, afinal, era assim o jeitinho carioca desde a corte portuguesa. Mesmo assim, não havia quem negasse como era bonito ver aqueles raios vermelhos de deus furioso, o tipo de beleza perigosa que atrai pra ferir, pra matar.
CATALOGAÇÃO
A última catalogação geológica feita no estado não abrangia o interior porque se dizia que o índice de atividade sísmica por lá era ínfimo o bastante para não se despender esforços do já débil governo - ou assim as condições se retroalimentavam, com o governo de certo modo contando com a atividade sísmica moderada pra depois da serra das Araras, ao longo do Vale do Paraíba e também na região da Costa Verde, o que era, mais uma vez, puro e simples vilipêndio e ardil governamental. É claro que tinha havido erupções nesses lugares, não era pouca a literatura sobre centenas de pessoas desalojadas, por exemplo, nas encostas de Muriqui; é claro, também, que muitas haviam morrido, como bem documentado naquele filme que prefeito e governador tentaram obscurecer (mas que encontrou seu caminho e foi notícia por um tempo até realmente sucumbir à falta de divulgação). Mas estes são barulhos que acontecem longe da capital o suficiente para que não suscitem interesse público.
Naquele momento, de acordo com a catalogação, os pontos de interesse geológico mais fortes concentravam-se na regiões que abrangiam as Tijucas 1 e 2, Cidade Nova, Costa e Bastos; partes pontuais do subúrbio e baixada fluminense, além de contar com o imenso Rosso, que competia, em tamanho e atividade, com o vulcão de Costa e Bastos, e que por não estar tão distante assim do chique bairro do Itanhangá, movimentava certa rotina de monitoramento no seu entorno.
De acordo com os vulcanólogos em recente entrevista ao canal Tempo e Hora, a falta de monitoramento em regiões mais remotas do estado poderia vir a se tornar ainda mais dispendiosa que o não-monitoramento destas áreas, dado que a falta de observação teria grandes chances de resultar numa resposta muito mais difícil e pouco eficiente em caso de erupção repentina. A avaliação dos profissionais fora unânime. Virgílio Satzio, do departamento de Vulcanologia 1 do campus de Paciência da Universidade Batista, afirmou categoricamente que "o que se espera é que, sentados sobre uma bomba relógio, ela não exploda", e alertou para o episódio do ano passado ocorrido em Samarillo, no interior do México, quando da explosão do vulcão El Kike, que deixou em seu caminho um rastro de mais de cem mil mortos e incalculável prejuízo material e humano para o país.
ERUPÇÕES HISTÓRICAS
Me lembro até hoje do dia que o sismógrafo central disparou o alerta simultâneo dos três vulcões mais ativos da cidade (Tijuca 2, Costa e Bastos e Rosso). Eu estava voltando pra casa, de ônibus, depois de um dia pesado de trabalho, quando os rádios da cidade começaram a veicular a notícia. Chegar em casa foi o caos em todos os pontos da cidade. Soube de muita gente que, com medo, procurou outros lugares pra ficar. Precisou a força nacional chegar, no terceiro dia, pra erguer a barreira de contenção que, por custar aos cofres públicos o que os deputados chamavam de insanidade, era considerada medida extrema e aplicada apenas em último caso, quando borda de segurança e parede de titâneo já não mais seguravam o avanço da lava. As erupções desses vulcões, nesse período, fizeram história, e foram tomadas como marco geológico durante muito tempo. Muita gente, pega de surpresa, sucumbiu aos vulcões, e até hoje as estimativas de mortos são imprecisas. Na época, falou-se em duzentos mil de setecentos. O estrago maior foi provocado pelo Costa e Bastos, apesar de Tijuca 2 ter recebido maior cobertura de mídia dada a sua localização. Até este dia estuda-se a possibilidade destes vulcões terem, em algum nível, algum tipo de comunicação subterrânea, o que explicaria a erupção simultânea. O trauma coletivo foi tão grande que fez com que até mesmo com que os mais arraigados moradores dos sopés das montanhas deixassem tudo pra trás, mesmo a mineração.
A mineração, inclusive, é um problema à parte nesta situação de vida ou morte, de quase tudo ou quase nada na qual as pessoas vivem. É complexo. Falo isso porque sei do que falo. Meu avô veio dos arredores de Tijuca 1, não muito longe do próprio gigante de fogo, e foi por causa do sucesso dele na mineração que hoje posso dizer que durmo num lugar tranquilo. Isso começou mais ou menos no seu tempo. Sem perspectiva de vida na região central, os moradores dos arredores dos principais vulcões haviam construído uma organização comunitária sem base fixa, figurando, cada uma, em cada comunidade que vivia sob o julgo dos vulcões. A organização, RESIDENTE RESISTENTE, tinha por objetivo vigiar os projetos de lei em tramitação que ampliassem os recursos para-eruptivos e monitorar não só a lava e os sinais dos vulcões, mas também ficar de olho vivo nas companhias clandestinas de mineração, que muitas vezes instalavam-se da noite pro dia em pontos estratégicos ao redor das montanhas e só não ganhavam força devido ao esforço conjunto das militâncias para desarticulá-las quanto mais cedo possível. A grande ironia de morar no Rio de Janeiro: as comunidades mais abandonadas têm iniciativas de primeiro mundo em relação ao próprio governo.
MINERAÇÃO
Demorou um tempo, mas desde que fora tornada pública a descoberta de que praticamente todas as encostas vulcânicas continham enormes quantidades de diamantes, as abordagens em relação à Geologia e Segurança mudaram de tom. Geólogos de grande prestígio, como Camilo Braga, Renata Sandoval e Hermínio Lima, já no início dos anos 70, apontavam para a possibilidade de grandes reservas de minério nas regiões de vulcões, tão logo eles começaram a demonstrar índices de atividade de moderada a alta - o que teve início precisamente em 76, quando o grande Rosso entrou em uma formidável erupção que durou 3 meses, à época, sem causar grande prejuízo humano pois seus entornos ainda não eram urbanizados. 15 anos depois, a pesquisadora Renata Sandoval publica um importante compêndio descrevendo o comportamento dos vulcões, e nele confirma e detalha a existência das reservas minerais ricas em diamantes. O documento, à época, causou um alvoroço dado seu potencial, o que levou a discussões sobre medidas de tombamento ambiental dos vulcões para estudo mais aprofundado - coisa que nunca de fato ocorreu. No entanto, a Lei do Carbono, sancionada em 1978, tornava ilegal a comercialização dos diamantes na intenção de refrear o garimpo ilegal e possíveis receitas que fugissem de lastreamento fiscal. Assim sendo, toda mineração era, portanto, ilegal. Decorridos alguns anos, por mais que fosse tentador arriscar incursões nas vizinhanças dos vulcões afim de minerá-los, era perigoso demais conforme a violência das erupções aumentava. Apesar da Lei do Carbono, muita gente morreu tentando escavar os diamantes, frutos brilhantes do fogo pastoso que a boca dos vulcões regurgitava. Mas uma quantidade razoável também conseguiu acumular pequena fortuna sabendo como movimentar-se no mercado negro de diamantes, que, é lógico, tornou-se um rio caudaloso de relações clandestinas.
Apesar de proibidas por lei, era mais do que sabida a existência das companhias clandestinas de mineração. De tão conhecidas, pra encurtamento de conversa, eram chamadas de CCMs - inclusive suas conexões com o próprio governo eram notórias (quem não lembra do escândalo, diga-se, fartamente noticiado na época, envolvendo a filha do deputado Olegário Neto, quando, num acesso de fúria, entrou na câmara em um roupão de veludo e, ao despi-lo, portava duas algibeiras de onde, aos punhados, sacava diamantes, jogando-os na cara do pai? Mais tarde confirmou-se a conexão do deputado com pelo menos três CCMs, que tiveram seus membros presos.) Qualquer pessoa com um mínimo de discernimento não iria demorar muito para associar que o total desinteresse na destinação de incentivos pra projetos que barateassem o custo de planos de segurança e resposta em caso de erupções violentas poderia se explicar pela soma que muitos deputados da câmara levavam por fora em acordos escusos com as CCMs.
FUTURO - UMA CHAMA ACESA?
Nasci em uma família de origem humilde do Rio de Janeiro. E isso quer dizer que boa parte dos meus tem uma experiência de involuntária intimidade com os vulcões, assim como muitas pessoas que conheço. Isso quer dizer que, num grupo de cinco pessoas que eu conheça, pelo menos uma já foi engolida por um vulcão, e as outras quatro acumulam histórias semelhantes. Tenho uma namorada há três anos, e temos certo medo de ter filhos. Sondo a vida em outros países que já tenham obsolescido a relação rudimentar que essa cidade trava com uma força tão natural, tão antiga e, com alguma vontade pública, que pode vir a ser minimamente contornável. Sei que não é um desejo isolado, mas é certamente o sentimento de frustração que me guia ao escrever esta coluna. Muito especula-se sobre o futuro da cidade com o possível surgimento de novos vulcões - mais ou menos no centro da cidade, mais ou menos nos confins das fronteiras. A natureza sempre nos ensina, de um modo ou de outro, sobre nosso próprio tamanho, mas, diferente dos homens, não é ingrata e nos oferece ferramentas pra que tenhamos o mínimo de agência pra mover o curso do que pode ser movido, e quem sabe conte secretamente com o nosso discernimento para que saiamos de seu caminho em caso contrário. Penso nisso enquanto olho, hoje, para fora da janela do quarto, pensando ouvi-los rugir, pensando vê-los brilhar. Penso em meu avô, tentando trazer para os meus próprios olhos o brilho das pedras que ele encontrou, e quase consigo vê-las dentro das mãos sujas da mente. Manuseio este brilho imaginário, prolongamento da chama sempre acesa do cume das montanhas vazadas, que lá estavam bem antes de mim, e que lá estarão também depois, e depois de tudo, das paredes de titâneo, das barreiras de contenção, dos carros, tanques, das medidas e das leis.
Neste momento não sinto medo. Longe daqui, motoristas noturnos encostam seus carros no acostamento daquela avenida, acendem um cigarro, confundem a cor da brasa das pontas dos dedos com a cor do mistério imprevisível que agita as caldeiras subterrâneas e eventualmente sobe ao topo, como um desconhecido que pisca um olho só.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
Insólita captura
O primeiro a sair de casa foi o Carlinho. Sendo sua casa a única casa de fundos de toda a rua, de dentro dela ele não poderia se inteirar do babado. Dona Fátima olhou para o homem do alto do parapeito de sua varanda com desprezo, "velho fofoqueiro desocupado", falou baixinho pra si, como se ela mesma não tivesse corrido do banheiro para a varanda tão logo ouvira o toque único da sirene do carro de bombeiros ao chegar.
E pelos terraços e janelas daquela rua pequena iam se constelando cabecinhas mais e menos discretas, em grande mosaico construído pela curiosidade inevitável diante do carro de bombeiros. Afinal, pulando do vermelho vivo, em letras brancas bem grandes lia-se SALVAMENTO, e se eles foram chamados, motivo havia. A mulher do Carlinho vinha pelo corredor que dava para a rua com uma faca na mão e as mãos molhadas. Perguntava ao marido o que estava havendo. Fosse um incêndio, é claro, a comoção seria maior e mais dramática, mas seria também reação de outra ordem, emoção conhecida. "Um incêndio, socorro!", e todos ficariam receosos, com razão, do fogo se espalhar em direção às suas casas, porque com fogo não se brinca. Mas o chamado ali era quase discreto. E vinha atender necessidade outra.
Os bombeiros estavam em três, e o mais alto deles retirou da parte de trás do carro um instrumento composto por um cabo metálico e uma espécie de grua em sua extremidade. "Ave Maria, é uma cobra!" teorizou a mulher do Carlinho. "Esse breguete é parecido mesmo com aquele negócio de pegar cobra, mas como que uma cobra poderia chegar aqui?" "Só pode ser cobra!" gritou Zé do Baile, de sua laje, dando força à tese da mulher, "mas não pode ser cobra não, minha gente, não tem nem terreno baldio aqui", contestou o velho João, debruçado no parapeito de seu terraço e também tentando entender. "Pode ser um lagarto", suspeitaram as jovens gêmeas Laura e Maura ao mesmo tempo, confirmando que é verdadeiro que os gêmeos partilham, sim, a mesma consciência. Era de Seu Oscar o terraço mais alto da rua, e de lá ele, onça antiga, tudo observava sem contudo interagir.
Então os bombeiros entraram na casa. Era a casa de Fagundes, uma casa pequena e modesta, guardada de todo o mal por um São Jorge estampado num azulejo bem acima da porta de entrada. Fez-se um breve silêncio (provavelmente o o dono da casa instruía, em voz baixa, os bombeiros do que estava havendo) que então deu lugar a uma algazarra contendo uma classe indistinguível de barulhos. A mulher de Carlinhos se aproximava devagar do local, mas, com medo, fez o sinal da cruz e voltou pra dentro de sua casa. As gêmeas engirafavam de sua varanda, silenciosas. Carlinhos conversava paralelamente com Zé do Baile, e alguém - mais tarde suspeitou-se que tenha sido Seu Oscar - lhes mandou calar a boca. E calaram. Aquilo era quase cinema.
De dentro da casa ouvia-se som de luta, mas nem o mais absoluto silêncio dos espectadores facilitaria qualquer depreensão do que se passava. Repetidos estalidos metálicos faziam intuir que o que quer que se estivesse tentando capturar resistia. O som dos impactos percorria as paredes. A criatura voava? Som de conversa entre os homens, mas não se ouve palavra que clarifique. Uma mulher dá um grito. "Acuda sua mãe, Fernando!", é a única coisa que se ouve com certeza. Um silêncio. Os vizinhos se olham. Pessoas que passam na rua se detém, sem entender. Será que pegaram? É quando alguém grita "SEGURA!", e novamente a barulhada irrompe no ar. Os cachorros da casa ao lado, então, desatinam a latir, e feito coral, os outros cachorros das outras casas acompanham. O alvoroço é geral, e, do lado de fora, todos esperam o desfecho. Quem antes se escondia por trás das cortinas já não carece de vergonha, e de reprimível antes, a curiosidade estabelece ampla aceitação.
Os bombeiros saem da casa tropeçando de gargalhar e conversam entre eles. "Vou tirar uma foto pra mandar pro Marcelo", diz o que segura o cabo metálico. Os outros riem, e falam coisas absolutamente inconclusivas. Não se salva uma pista. Carlinho, que permanece na rua, não se encoraja de perguntar aos bombeiros o ocorrido, e mesmo notando os vários olhos intrometidos, eles nada revelam. Parecem até nutrir, de propósito e com gosto, certo mistério sobre aquela operação. Dona Fátima acena para Carlinho com a mão, e quando consegue contato visual, ela faz um gesto com a cabeça em direção aos bombeiros, mas ele não lhe corresponde. Os bombeiros entram no carro e partem. Ela, então, deixa sua varanda contrariada, e pouco a pouco as pessoas vão voltando pra dentro de suas casas. A mulher do Carlinho volta com uma lata de cerveja que abre, dá um gole, olha pro marido com um olhar perdido e resmunga baixinho, "Ué, já acabou?"
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
O filho de meu pai
O dia era claro e comum quando perguntei quem era o rapaz na foto que encontrei caída no chão da cozinha. Era uma foto antiga - o tempo já havia passeado nela de fora pra dentro - pequena e mal recortada. Ele parecia ter por volta de 13 anos, que é a idade, nos meninos, em que buço e queixo são povoados pela sombra rala do constrangimento, coisa que o foco da foto revelava. Um menino magro, mas em desenvolvimento, conforme indicava a musculatura dos ombros que aparentava uma discreta expansão. Ele não sorria.
-- Onde achou essa foto?
Meu pai me pergunta, interrompendo o silêncio entre mim e a foto me levando a um sobressalto, como se eu estivesse fazendo algo que não devesse.
-- Quem é esse menino?
Ele toma a foto das minhas mãos em um movimento suave, e olha para ela, detido por alguns segundos consideráveis.
-- Já te perguntei, onde achou essa foto?
-- Tava no chão da cozinha. Quem é, pai?
-- Esse é Gustavo.
Olho para ele prendendo meu lábio inferior nos dentes. Ele olha pra mim de volta, revelando em seu olhar que meu cenho denuncia que sua frase é mais uma afirmação que uma informação.
-- Gustavo morreu antes de você nascer.
Ele então senta-se à mesa da cozinha. Eu sento, também. Presumo quem seja Gustavo com dificuldade, apesar de nunca ter ouvido falar nele, rastreando na escassez das palavras o seu motivo. Presumindo devagar, tento aliviar o desconforto nas respostas que meu pai até então me fornece, sem saber se devo levar adiante aquela conversa. Sem saber mesmo se quero.
-- Quando você nasceu, era como se ele tivesse aberto os olhos de novo. Vocês têm os mesmos olhos. Ele era um menino forte e curioso como você. De um tudo fazia quando a gente passava as férias na casa de Passos, antes da gente vender. Aprendeu a nadar sozinho e nadava que era um peixe, chamava atenção por isso.
Ouvia com atenção cada palavra como se estivesse abrindo uma caixa antiga. O que era. Talvez porque ele nunca tivesse falado de Gustavo comigo antes. Coisa mais natural teria sido. Estranho, nunca mesmo. E Gustavo seguiria uma existência misteriosa pra mim, não fosse a oportunidade de sua foto no chão. Aos poucos consigo entender o litígio que engasga meu pai: como falar, para mim, de Gustavo? Era possível (e compreensível) que ele se ressentisse de dizer, "Gustavo era seu irmão", se mesmo isto não era uma verdade. Como Gustavo, meu irmão, se não dividimos as mesmas roupas, parte das mesmas histórias, se não dividimos o que mais nos tornaria irmãos: o mesmo tempo? Gustavo, o menino na foto, poderia ser meu irmão, um irmão que eu até então desconhecia, morando em outro país, filho de mãe outra, assunto que sobre o qual à mesa não se fala, mas que inadvertidamente desliza pelo silêncio da noite, entrando por debaixo da porta fechada. Com Gustavo nunca briguei, Gustavo nunca precisei defender. Para mim, Gustavo nada representa, e sobre isso não há culpa, sensação ou sentimento de qualquer espécie. Nem mesmo a estranheza de um estranho ao esbarrar na rua, um ao outro pedir desculpa, seguir o caminho.
-- Gustavo era bom garoto, não sabe? - lentamente coça com as unhas longas a carne flácida do seu pescoço, e faz algum silêncio. Alisa a cabeça rala de cabelos, e então cobre a boca com o punho. -- ele gostava de andar de cavalo em Passos. Era mais arredio que os cavalos. Bom garoto, mas desobediente, como a maioria dos bons garotos.
-- Quanto tempo faz, pai?
-- De nascido você tem o que, 26 anos? Ah, isso tem mais de 30 anos...
-- Por que nunca falou dele pra mim? Paulinha sabe dele?
-- Sua mãe e eu começamos a criar um certo medo de falar sobre ele. De contar as coisas que ele fazia. De que as coisas que ele fazia pudessem seduzir você. Isso pode parecer estúpido ou radical, você pode me julgar, se já não estiver fazendo isso aí na sua cabeça. E não, Paulinha também não sabe dele. Foi uma coisa entre mim e sua mãe que foi simplesmente acontecendo, fomos parando de falar nele. Não queríamos falar nele mais. Quando vocês nasceram, nós definimos que não falaríamos dele mais aqui em casa.
Alguma coisa dentro de mim queria eclodir em uma rebelião, e eu podia sentir o gosto todinho de uma revolta pedindo licença pra amargar minha boca. Mas querer sentir uma revolta é querer uma revolta ilegítima, indigna, sem beleza alguma. Meu pai mantinha no seu tom de voz uma calma cansada, subitamente despertada pelo inconveniente daquela conversa. E ficou olhando pra mim, seus olhos fixos nos meus, sem dizer palavra. Eu olhava-o de volta, no que o tempo estranho daquele silêncio convertia num teatro de espelhos. Por alguns instantes cogitei que ele, depois de tanto tempo, pudesse estar procurando os olhos de Gustavo dentro dos meus. Fosse outra situação, quem sabe eu o encheria de perguntas, mas todo o seu hábito, todo o seu modo me reprimiam violentamente feito mágica, embora não fosse claro se ele estivesse realmente indisposto a falar sobre aquilo.
-- É, meu filho, você tem um pai velho. Pode acontecer de um pai velho ter história.
Eu não conseguia me livrar da egoísta sensação de que meu pai me devia desculpas, e talvez eu estivesse disfarçando isso mal, o que não lhe intimidou. Recolhendo a foto com cuidado, ele se levanta da cadeira e vai até a varanda. Deita-se na rede e observa o sol pintar com sua luz dourada de fim tudo o que existe.
-- Passe um café, meu filho, que daqui a pouquinho vou à padaria comprar um pão quentinho pra gente. Paulinha disse pra sua mãe que mais tarde deve aparecer, também. Acho que tem bolo no forno, veja aí se tem.
Fiquei olhando de longe a noite cair sobre meu pai, que cochilou brevemente e acordou num pequeno susto, calçando os chinelos e saindo de casa. Enquanto o esperava chegar, sentia a mesma noite crescendo por dentro da casa, e por dentro de mim.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
Na Arábia
Isto aprendi nos desertos:
a escassez, a vertigem.
cílios são escudos
luxuosos
contra a imaturidade da vista
(e as imagens são editáveis
no chão do olho seco)
o deserto, meu amigo,
é limpo. e uniforme.
mesmo que à noite
gigantes azuis alvorocem seus lençóis
e ao descuido do sol
tudo mudem de lugar
feras rastejam
sobre fogo
e vidro
sem gritar
a mágica das árvores despercebidas
e as pedras lá postas pelo tempo
antes do Tempo eclodir o tempo
o deserto é paciente
o deserto é testemunha
sem língua
de cavernas escuras que abrem
e se fecham
dentro e fora dos homens
e não conta, portanto,
dos muitos sangues sorvidos por
seus exércitos de areia devoradora
que vão dar matéria e ofício
a arqueólogos suicidas
e deuses anônimos
o deserto e a eternidade
velam-se, gêmeos,
valem-se, áureos,
fecham-se, elísios.
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
Padrão Numero Cinco
o que você faz com
as palavras
é o que a água faz
na madeira
e o que também faz o tempo
nas joias
o que fazem as suas palavras
é, no início
(e digo pedindo licença)
o que a primavera faz com
as cerejeiras
e as cerejas descem do pé
em suas patas,
caranguejeiras,
vieram passear os sonhos
com negras quelíceras
quando envelhecem as suas palavras
disse alguém no oriente
as palavras não são capazes
de expressar
tudo o que uma pessoa sente
não se
ao tocarmos as palavras
as virássemos do avesso
eviscerássemo-las
as escrevêssemos ao contrário
entre anagramas e palimpsestos
ainda há esmeraldas nas suas palavras
no lado oposto do cal
nessa rima banal-absurda
que não encaixa bem ou mal
o que fazem as suas palavras
é o que o nervo cego do olho crê que vê
suas palavras jogando
manto sobre o invisível
(e não, não jogam)
o que você faz com as palavras
também é o que sua língua fez
na pele sensível do que dobra
e o que não escorrega
pra dentro da sua palavra
é tudo aquilo que sobra.
terça-feira, 7 de setembro de 2021
As chaves
Não pôde acreditar quando se viu diante de um evento que, de tão temido, já tinha sido experimentado até num sonho estranho que envolvia portas e cartas. Mais especificamente ela sendo espremida nesse movimento enquanto duas mãos gigantes embaralhavam múltiplas portas como quem está prestes a começar um jogo preparando-o sem pressa. Naquele dia acordou sobressaltada, com um sorriso confuso, mais nas sobrancelhas que nas maçãs do rosto. "Coisa de sonho", pensou, enquanto o resto do dia tratava de diluir aquelas imagens incompreensíveis. Mas havia nódulos dessa suposta diluição, ainda, que foram prontamente acessados quando ela socou as costas da porta do banheiro, ejetando, do poço da garganta, tudo o que poderia:
-- PUTA QUE PARIU, CARALHO!
Não era responsabilidade sua, tantas vezes antes que havia falado com Francisco sobre o problema da porta. "Eu vou consertar", tantas vezes antes Francisco lhe respondera, com a convicção dos preguiçosos. "Eu quero ver o dia que essa merda emperrar com alguém dentro e não tiver ninguém em casa, Chico. Porra!" "Isso é impossível, Andrea, moram 7 pessoas nessa casa. Ainda que aconteça, sempre vai ter alguém pra ajudar". Na promessa da impossibilidade eles seguiram, seguros em sua certeira previsão dos eventos. Mas Taísa e Tarsila decidiram ir pra Acapulco por duas semanas, de quebra convencendo também Vinícius (3 a menos); Francisco estava de frila marcado e hoje, dia 07 de setembro, era aniversário da mãe de Paula, que morava em Vargem Grande. O universo e seu jeitinho de nos informar sobre nossa arrogância: Andrea trancada no banheiro, na terrível companhia de si mesma.
Os palavrões cresciam no eco do banheiro bem à conveniência da palavra. Mas arrefecido o som, um fato enche de agulhas as pálpebras da confinada: ela não trouxera o celular. E naquela hora o celular seria muito mais útil que uma chave, que um grampo, que uma prece. Formigas quentes passeiam em seus olhos, e dessa vez, o silêncio é o sinal da implosão de sua fúria. "Ah!", bate palmas e ri em deboche sobre si mesma. "Ah!".
Mas lembra que está no banheiro, e lembra para que servem os banheiros.
Puxa a calcinha devagar e senta-se na privada, mastigando a língua e deslocando a mandíbula pra lá e pra cá. Respira profundamente, a insatisfação colonizando cada centímetro de seus gestos. Repete o movimento, e começa a acalmar-se, lentamente. Que estranho aquele silêncio branco das 4 horas da tarde de um dia sem sol. Leva a mão à cabeça, lembra lividamente do sonho das portas de cartas. "Tenho certeza que era isso, como não poderia ser?" E percebe em seu ventre navegar uma criatura longa e mole por fora, mas articulada. Sente seu movimento e sua consciência, que a criatura sabe para onde ir e vai tranquila, suave, conversando com Andrea dentro de seus olhos (fechados) sobre como o que é pra sair encontra a saída, leve o tempo que levar. Que sensação antiga de paz. Que sensação de paz antiga. E que vem de novo, em deliciosa sequência, marcando seu rastro de ponta delgada de enguia no expirar prazeroso que soltam as narinas de Andrea: é o fim de seu curso. Andrea desenrola o papel higiênico, e se higieniza, calada.
Nua, se olha no espelho, aproxima seu rosto dele, e no rosto da Andrea de lá vê cravos, pintas, e uma pequena marca herdada de um acidente doméstico. Não se acaricia e vai para o banho. Taísa, Tarsila e Vinícius em Acapulco estão fazendo selfies na praia, e Tarsila até tratou de comprar um bikini que se parecesse com o figurino de Chiquinha na Uruguaiana, que customizou ao chegar em casa. Apesar de muito tranquilo o casal Cassel-Kunakey, é intragável sua assessora de mídia, assim como algumas pessoas da equipe responsável pela propaganda do perfume que Chico havia sido escalado pra fotografar em pleno feriado (o cachê valia a pena, ele sabia). Dona Albertina, depois de muito beber e contar causos, soprava as velas pelo seu sexagésimo oitavo aniversário enquanto Paula disfarçava mal o quanto os mosquitos em profusão lhe deixavam desconfortável.
Em lugar da acelerada bateria de David Lovering de sempre o que Andrea ouve dessa vez é o som da água contra seu corpo, e por ele vão muitas águas: a que nele bate, a que o percorre, a que cansa. A água faz veios por sobre a pele de Andrea, que faz caretas, atriz. "Sou um mutante das profundezas! Tremei, ordinários, tremei! Preparem-se para morrerem, todos vocês, dispensáveis mortais esquálidos pela mão de quem comanda o próprio Kraken!" ri-se, velha e ridícula, o gelado da água companheira testando-lhe o tato, o cheiro invisível de enxofre longínquo saindo dos furinhos do chuveiro, e ela se agarrando toda na cauda desse cheiro e indo com ele por dentro do furinho, por dentro do cano, por dentro das metrópoles tubulares onde nunca foi ninguém, e chegando à estação de tratamento de águas da cidade vê homens conversando uniformizados com pranchetas sem demorar neles os olhos; busca o umbigo da água e o encontra, lá longe, escondido entre as areias, os seixos e as folhas. A água não procura abrir o caminho porque é o caminho, diz a voz em sua cabeça ao ver aquele espirro borbulhante e incontinente saindo de algum ponto onde os órgãos da terra permitem ter sua existência presumida, e nele ela afoga as mãos num nada como quem brinca com o limite entre duas dimensões, até abrir os olhos em seu banheiro, sobressaltada, e fechar a torneira. As gotas mais grossas se desprendem, atrasadas e últimas, da caixa reservatória do chuveiro. Pisa o chão com o cuidado de quem aterrissa em algum lugar, toca devagar o vidro do box até puxar pra si uma toalha na qual enrola o corpo frio, e pensa que não está, naquele momento, muito diferente de um girino que acabou de nascer. Do lado de fora, uma porta range e ela ouve passos pela casa.
-- Andrea?
-- Chico, eu juro que quando eu sair daqui vou te matar!
domingo, 9 de maio de 2021
A elegante nave
Passeia colhendo
O tempo
No escuro do tempo
A elegante nave
Cartilaginosa
Mas também, ainda,
Brinquedo caído de berço
Prima mansa de grandes
Amorais máquinas assassinas
Que hasteiam bandeira bruta
Quando conquistando territórios
Coreografa
as invisíveis ondas
E a ponta delgada de seu corpo
É nome de golpe na Bahia
Quase fantasmagórica criatura
Que flutua, bailarina
Quinosa edificação soviética
Sua forma deitada
Seu modo monacal
Uma ninfa salgada, um
milagre
Que de tão plácida e
perene
talvez nem mesmo morra
mas sonhe que adormeceu.
domingo, 2 de maio de 2021
O teu amor em mim aqui
o teu amor estraga em mim
sem uso
teu amor em mim
coalha e esverdeia
guardado, vertendo flores --
por excelência, as criaturas póstumas
não anima -- nem desanima
mas fica lá, parado e
confuso
massa fetal acocorada de olhos mudos
o teu amor em mim envelhece
e velho, empeixeia
em delicadas escamas de cristal
larva de libélula, a
desinfância de um assassino
teu amor em mim nem sabe
nem conhece
teu amor em mim não tem onde morar
retira-se assim
final e sem fim
gomosas lágrimas no escuro
onde começa o mundo
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
Tango de pés feridos
Capaz de que seja mesmo sobre aprimorar o tango com os pés feridos. Pois é como dizem por aí sabedores apócrifos, dança é luta. Luta é dança. Então é sobre soerguer o peso, suspendê-lo com graça na unha dos pés, esperar a cãimbra vir e esperar a cãimbra passar, e no intervalo desse berimbolo não dito achar possível asfixiar o leão da ansiedade pesando sobre ele as boas e modernas maneiras das pessoas bem resolvidas que dançam quase perfeitamente o tango com os pés feridos. Do olho esquerdo da dor lambem-se as chamuscaduras (haja água pra tudo isso que foi de fogo), com as mãos em secreta concha a rogar que mais rápido aquela se dissolva com a providencial mão da cerveja e de alguns baratos beijos alheios, porque sim, assim sequer se está nos beijos, mas estes distribuem-se, e em troca pega-se tantos quanto se consegue, que a vaidade sempre foi o pecado favorito do diabo.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Retrato de família
Muito calor e gente em casa, e a fiação toda ainda era como antigamente. Tia Jane no banheiro deu um curto grito, simultâneo ao que deu Quiroguinha, que de súbito aterrissou na sala (as pequenas asas desajeitadas) topando o joelho na mesinha que deveria estar no canto. O choro agudo do menino despertou prima Cecela, que dormia na rede cansada e ainda salgada do mar. Vó Stênia passou por nós feito uma assombração, com seu andar coxo e pesado, segurando uma ponta incinerada de jornal. Tia Lúcia fuçava as gavetas e os armários com suas mãos de aranha cega. Lá é que deveriam estar as velas, afinal, vela nunca faltava na nossa casa, que o excesso de fé em Cristo de vó Stênia não deixava.
Tio Padrinho, sem nem se levantar, continuava bebendo sua cerveja, ainda gelada. Regiane detestava a sensação do sal velho e anoitecido em sua pele, dizia que aquilo lhe atacava todas as alergias, e conforme fizeram Marquinhos e André, que não quiseram esperar a luz voltar, foi tomar banho no quintal, içando com eles muitos baldes de água do poço. Inescapavelmente salobra, era ainda a única cura possível para aquele insuportável sol por dentro que, longe dela, continuava queimando até no escuro.
Não demorou muito e vó Stênia encontrou e distribuiu as velas pelos cômodos da casa com cuidado, pelos altos. Quiroguinha era muito sem jeito, e ainda lambia baixinho as lágrimas de cachorro pequeno pelo joelho dolorido. Vô Aloísio observava tudo muito calado no seu canto. A casa era humilde, mas grande.
A brasa do cigarro de tio Padrinho luzia como um primo estranho e esperto perto dos vagalumes que tomavam a varanda em profusão, levando as crianças ao desafio difícil de capturá-los nas conchas das mãos. Águas por águas, na tarde daquele dia, na praia, Tia Pratinha havia sido derrubada por muitos caixotes, mas lá mesmo também havia dado o troco, derrubando, com ajuda mínima, quase uma caixa. Quem quer que a conhecesse por mais tempo já sabia, na inofensiva rispidez de sua voz e no hábito de aproximar-se de mansinho pra batucar a bunda de um balde, que ela se encontrava francamente bêbada. Não era o caso de Regiane. Coitada. Alvo constante de suas piadas, a namorada recente de tio Maurício tinha até medo de cruzar o caminho de tia Pratinha, ciente de que o olhar da velha a perseguiria e explodiria pela boca em alguma gozação. Quando tia Pratinha pegava um pra espezinhar (e geralmente gostava de fazê-lo com os agregados) só o tempo a demovia da ideia. Às vezes, nem isso.
Os meninos menores se batiam todos pelas costas, braços e pernas: a mosquitada nem enfeitava a noite, como os vagalumes, nem lhes dava sossego à carne magra e suja. Tia Jane, com medo de lagartixa e outros bichos que no escuro ficavam certamente muito maiores, saíra do banheiro envolvida na toalha e já se postava à porta de saída da cozinha com um cigarro entre os dedos, assuntando com vó Stênia que, sentada, terminava de sovar uma massa. Vó Stênia tinha disso: não parava nunca, por mais que as pernas não lhe ajudassem.
Martinha, Daniele e Isa investigavam nas telas dos celulares qualquer coisa que lhes afastasse do escuro e do tédio. Surge uma foto de um bebê de poucos meses no celular de Isa, que mostra para as outras. Suspiram as três, em uníssono, pela fofa criatura enrugada. Curiosamente Daniele constata como outro bebê (agora com um ano e meio) havia crescido rápido diante dos seus olhos nos últimos 500 e poucos dias que havia acompanhado sua vida à curiosa distância de uma tela de vidro na qual provavelmente também se escondiam outras coisas. As garotas, então, se detiveram nas fotos do bebê de meses, e Martinha teria se espantado com o volume de fotos de uma criança tão pequena não fosse ela mesma uma grande registradora dos próprios passos.
No quintal apagado da casa as sombras das árvores as engordam, transformando-as em velhos e fofoqueiros monstros domésticos. Quiroguinha, o mais afoito, parece não ter medo de nada, e encoraja as outras crianças a irem com ele brincar no escuro, a catar sapo. Olhando o fuzuê de Quiroguinha, o aparentemente indiferente tio Padrinho chama as crianças pra perto de si e diz que vai contar uma história de quando era menino. Ele então diz que na casa em morou na infância havia um espírito que toda noite de quinta-feira, às três horas da manhã em ponto, abria as torneiras da casa. Sempre que ia fechar a última torneira aberta, tio Padrinho conseguia ver o rabo do espírito deixando a casa. Um dia ele apressou o passo para tentar segurar o rabo do espírito, e uma das janelas se quebrou. Virou-se para tia Lúcia para que ela confirmasse o que ele dizia, ao que ela assentiu. Os olhos das crianças brilhavam no escuro, acesos, acompanhando o vagalume de fogo nos dedos, enquanto tio Padrinho dizia que o espírito (mais tarde descobriu-se) era o fantasma de um inspetor de uma escola que havia sido derrubada muitos anos antes de sua casa ser construída, no mesmo lugar. Na varanda calada de repente irrompe uma gargalhada grave, as crianças gritam ao mesmo tempo. Marquinhos e André surgem do quintal para assustá-las. A luz não vem, e a escuridão já tinha comido as velas pela metade.
Naquela idade em que eram um pouco mais velhas que as crianças mas ainda mantinham algum relutante encantamento e sede de fantasia, Martinha e Isa ouvem de longe e contestam a história de tio Padrinho. Ao seu lado, tia Pratinha tosse, ri e xinga qualquer coisa inaudível. Por que tio Padrinho, engenhoso como sabiam que era, não arrumava um modo de registrar a presença do fantasma? Todo mundo que vivia na casa poderia provar essa história? Por que às três da manhã? Vó Stênia está sentada em uma ponta da varanda, e tudo ouve calada, girando os polegares. Questionam-na, e ela desconversa, séria. De súbito Daniele imagina tio Padrinho menino. Alguém teria fotos dos tios e tias quando eram crianças? A garota queria saber. Vó Stênia dizia que as fotos não eram como agora, que era muito difícil tirar fotos, coisa de bacana. Daniele pergunta se ela tem ao menos uma foto de quando era menina, e ela confirma: uma única foto em preto e branco, séria como agora, com uma roupa pesada para a idade, mas conforme para a época em que fora tirada. E vó Stênia pensa um pouco sobre essa e outras fotos. Realmente tão poucas. Ah.
Naquele dia descobrimos de algum modo que havia uma razão pela qual a infância escura dos nossos pais ao nosso olhar escura permanecia. Talvez mesmo devesse. Quase ninguém notou, mas diante daquilo tudo vô Aloísio balançava lentamente a cabeça, quem sabe, sorrindo, de um lado para o outro.
terça-feira, 29 de setembro de 2020
Tatame
Era segredo até
que eu aprendesse a
cair
por dentro das mãos
desde sempre uma
faca
esteve guardada
uma faca ossuda
ora rígido mastro de navio ora
água solta por entre as pedras
e tanto mais esguia não sendo
de puro aço constituída
assim como trancados
estiveram de mim
por todos esses anos
répteis-símios e
outras bestas desconhecidas
que rastejaram bêbadas ao
ensaiar sair
todo o mundo reinventando
as noções sabidas
e mesmo o cérebro - fina luz da consciência -
veio morar frontal nos dois olhos
enquanto o sinto
inteiro e pleno
na planta viva dos pés
ao que já não reparto mais
o que é corpo o que é bicho
o que é chão.
terça-feira, 28 de abril de 2020
Estátua
pedra
do anel que esqueci
sobre tua mesinha
entre teu computador e papéis avulsos
insuspeito te espiona
testemunho, assim,
os animais noturnos em teus olhos
acesos
escravos do escrol
a curvatura mansa das tuas costas
inimportunáveis pelos cacos de luz
das duas da tarde
acompanho teu estado
de contemplação pétrea
diante daquele filme
a gordura da cegueira que se acumula
nos teus óculos
a humana limpeza de tuas narinas
viajo pelos rios anêmicos do teu peito
descoberto
e até participo dos teus monólogos
acho que não, Hitler não era nenhum gênio,
o sapato preto fica melhor, etc.
terça-feira, 7 de abril de 2020
Folie Imposée/ Divertimento Forçado
em obrigação noturna
mas também pensa
que é sonho
se não sabe
anda por mapas invertidos
recolhendo aspas
pedaços e peças perdidos
se o sonho é outro lugar
que apaga a firmeza do chão
monta ondas estrangeiras
de nuvens verdes e grosseiras
luta mortal contra uma deusa
alquebrada
asfixia a vista - assim morrem as imagens -
um universo opressor de pontos pintados
aqui e ali torcendo
todas as antigas geometrias
explodindo fogos de artifício
no céu da boca aberta
desce a mão noturna
cava a terra das pernas em busca
cega
da água da lama do ouro
dos vermes das folhas e outras coisas
sem olhos
o que traz de lá não conta
retira-se humilde
e não fecha a porta

