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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Alô, Clarice? ou 55 teses

1. Dá mais trabalho andar erguida.

2. A cozinha da minha casa é uma área militar de controle alimentar regida por cinco espelhos.

3. Me dá vontade de fumar aquele quando ouço as sirenes.

4. Ontem esqueci que estava de dieta e comi pequenos punhados de chocolate na ponta de uma faca.

5. Meço a experiência dos pombos pelo tanto de cacarecos que carregam agrilhoados às suas patinhas imundas.

6. Esquizofrenia ou espíritos indiscretos?

7. A hora não existe.

8. É difícil organizar a matéria diante do excesso de sintetizadores nos shows das bandas mais modernas.

9.Também acho de bom tom considerar alguma caduquice do cânone.

10. Tudo o que eu boto na boca tem um gosto infantil.

11. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as queimo.

12. Lavei até o prato no qual você não comeu.

13. É excelente à saúde da vista uma laranjeira bem carregada no quintal às quatro horas.

14. A extorsão acontece quando o poder dá cria.

15. A cabeça e o corpo padecem juntos.

16. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as como.

17. O corpo tem muitas portas, mas mais numerosas são as chaves do lado de fora.

18. Tenho medo de ter razão demais e meus dentes passarem a revirar a terra.

19. Não se pisa no mar de sapatos, é falta de educação.

20. Não se pede licença às metáforas, é falta de educação.

21. Às vezes as pessoas mentem por prudência.

22. Não se pisa em ovos a menos que se seja Bataille.

23. Um dia tranquei a porta do meu quarto e fiquei batendo nela do lado de fora.

24. As chaves mesmo estão todas do lado de fora.

25. Domingo ela não vai, mas talvez vá segunda.

26. Andar erguida implica decivilizar placas inteiras de anos de timidez.

27. As avós não são as melhores pessoas do mundo, mas bem que tentam.

28. Fico alguns sorrisos mais rica quando chega carta tua.

29. No exercício da preguiça vai uma boa dose de prática.

30. As melhores poesias vão desvendar o metabolismo dos átomos.

31. O mofo no banheiro é uma gestação infinita.

32. A prudência é um sintoma de civilidade bem implantada.

33. A palavra é simples. Quem lhe complica é a tradução.

34. Mas para isso se usam saltos no tango, é mais que uma convenção, é realmente uma correção ortopédica.

35. Por hoje não escrevo mais nada. Nada.

36. Tudo permanentemente está. Nada também.

37. Os amantes compõem a espécie mais bélica do mundo.

38. Dia desses troquei todas as minhas chuvas pelas roupas secas no varal.

39. Todas as coisas geniais que eu pensei há dois minutos sem querer sumiram. A genialidade é isso: dura dois segundos, e passa.

40. Tudo que eu leio me emprenha um pouco.

41. É correto afirmar que também o tempo é sem pé nem cabeça.

42. Até para pedir silêncio é preciso da palavra.

43. Um dia todas as palavras fugiram de mim e passei quatro dias no CTI procurando-as desesperadamente calma.

44. Minha boca assa quando falo demais como deveriam todas.

45. Toda comissão parlamentar de inquérito é uma epopéia de mal gosto.

46. A palavra "olheiro" é muito interessante.

47. Ela está tomando banho do outro lado da calçada. Ou está tentando. Quando passa um homem ela tenta, sem sucesso, fingir que faz outra coisa. Ela não tem direito ao mistério. Nem direito ao vizinho que lhe espreita a nudez de longe, do outro lado do apartamento. Sem direito às coisas que se podem fazer no banheiro. Sua intimidade é desossada a cada deslize lento do sabonete que emplastra sua pele de bolhas secas e acinzentadas.

48. Desconfio da natureza escura de toda matéria que requer que eu lhe experimente pelo toque.

49. O cinto no entorno de um homem nu é disfuncional a menos que afivele-lhe o pescoço.

50. Já ouvi barulhos que fizeram espumas enormes.

51. Das maiores humildades que conheço consta aquela na qual a pessoa voluntariamente abandona o desejo de domínio da palavra. É geralmente assim que se lhe conquista.

52. Ainda encontro de onde vem esse cheiro.

53. O esqueleto carbonizado de um sofá é uma demonstração violenta de destruição.

54. A palavra é uma arma de criação em massa e de destruição também.

55. A palavra é simples. Quem lhe complica é a cabeça.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Que mundo maravilhoso! / Carta ao pai

Vejo árvores verdes, rosas vermelhas também

Uma tempestade desliza pelo céu como quem adentra uma igreja, sufocando a luz com as mãos. Ele insiste comigo, você está preparada para a grande viagem?, mas meu braço é teso do outro lado: já não estamos em curso, meu pai? No seu rosto, um sorriso em falso. Ele toma a minha mão livre -- na outra, está a metade de uma maçã. Vamos ter que vender o carro.

Eu as vejo florescer, pra mim e pra você

Há suor onde seus músculos dobram; não é difícil encontrá-lo suado, sempre na confecção incansável e quase viciosa de pequenas banquetas de madeira que, nos últimos anos, dedicava-se a talhar. Como, há algumas décadas atrás, também o fazia seu pai. Rodopiamos em franca descoordenação pelo chão branco, dança esquisita e sincera, tentando acompanhar a música que tenta nos ajeitar. Ele tem os pés imundos.

E eu penso comigo

Como assim vender o carro? Mas ainda não estamos pagando? Isso é fácil, só preciso ver quanto falta, fazer uns cálculos. O silêncio não é possível; não com aquela voz negra misturando sua graveza com a gravidez das nuvens. Nas nossas cabeças é que chove. Tá difícil, sabe? Não tenho mais de onde tirar. Não sei o que dizer, e prefiro me privar de dizer o óbvio. Tem outras coisas que estou pensando -- num movimento brusco, ele enverga minha coluna. Ah, é? E o que seriam? Uma trovoada seca substitui sua voz.

Que mundo maravilhoso!

Pelo menos ela chega amanhã, né? Ah, com certeza! Tô doida pra ver a barriguinha dela. Será que é menino ou menina? Eu sonhei que é menina.

Vejo céus azuis e nuvens brancas

Um dos meus chinelos se arrebenta por completo com o peso de uma das passadas, fazendo com que eu me livre de ambos, chutando-os em qualquer direção. No chute, perco o equilíbrio sobre a maçã que cai, newtoniana. Pai, nós somos péssimos dançarinos. Ele não responde. Continuamos dançando, fazemos troça, agradecemos à invisível platéia pela atenção dispensada, também envergo sua coluna. Trocamos de lugar várias vezes. É engraçado como ele me chama de mãe. O céu se tinge de um repentino e instável mormaço dourado.

O dia claro abençoado, a noite escura sagrada

Imprimimos discretas linhas de nossos volteios no chão. Aqui jaz a marca mística da dança: se o chão se convertesse numa grande cartolina, o braço forte encontraria no garrancho uma rima interessante. Acho que assim vai ser melhor pra sua mãe, também; ele salienta, se justificando. Cada um vai poder viver da maneira que achar melhor, sem ter mais que se magoar, sem precisar se deslocar pra encontrar quem quiser. Em suma, vou sair do caminho dela. E com isso, sai do meu também? Minha filha, você já tem quase 30 anos. Não precisa mais se preocupar com isso.

E eu penso comigo

Envolvo seu pescoço com meus pulsos e diminuímos o ritmo da galhofa: a música parece nos encontrar. Fecho os olhos e olho para baixo, meus pés pequeninos sobre os dele, a unha do dedão do pé esquerdo sempre encravada e feia demandando cuidados; meus joelhos não dobram, ele é a dança, ele é a música. Me falta o dente da frente que há 30 minutos ele arrancou amarrando-o a uma linha em conexão à porta da sala. Eu já parei de chorar, mas ainda está doendo.

Que mundo maravilhoso!

Pai, não é justo você fazer isso. Eu entendo suas razões, mas isso não é justo, não é. Ué, minha filha, e que outra solução você vê? Você entende que não tem mais cheque especial? Que ou é isso ou podemos perder a casa? Eu falei com algumas pessoas. Não queria isso, na verdade é meu último tiro, mas talvez eu volte a trabalhar em ambulatório. Pai, escuta o que eu te digo. Eu posso não ter dinheiro agora, mas não vou ficar desempregada pra sempre. Quando eu voltar a ter dinheiro você não vai precisar sacrificar tanta coisa assim. Mas o que eu faço enquanto isso, filha? Olha, não é querer falar não, mas tá demorando, né? Você já vai pra quase dois anos desempregada. Eu não entendo muita coisa, mas com as coisas que você sabe, já poderia ter dado um jeitinho. Não pense que isso é uma cobrança, bom, não deixa de ser, também, mas não quero que você se sinta mal por isso. Eu só não posso ficar contando com você, não diante da nossa atual situação. Preciso agir agora. Eu sei que um dia você vai ganhar seu dinheirinho, e ele vai ser só pra você, filha. Eu não quero ele.

As cores do arco-íris, tão bonitas no céu

A questão não é essa, pai. É essa, mas também não é. Você sabe que esse é meu último ano na faculdade, que infelizmente tudo depende dos próximos seis meses; e esse é meu compromisso máximo. Eu não vejo a hora de trabalhar feito uma doida, mas eu tô presa nisso. Por enquanto. Desculpa, pai, mas eu não estudei tanto pra ficar atrás de um balcão e prejudicar a conclusão da graduação por conta disso. O retorno vai vir. Pelos nossos esforços, juntos. Eu sei que você também sabe disso, não sabe? E não tem essa de "meu dinheirinho é só pra mim", é claro que eu vou chegar junto e vou tapar todos os buracos que eu puder, assim que puder. Não sou ingrata. É claro que eu vou cuidar de você e da minha mãe, nenhum de vocês precisa ter a menor dúvida quanto a isso.

Também estão nos rostos das pessoas que passam

Você acha que você é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha? Olha, seu avô começou trabalhando atrás de um. Trabalhou atrás de um balcão por quase oito anos, até ele conseguir mudar de condição. Sua avó era merendeira. E não era só eu e uma irmã em casa não; era eu e mais dez. Já se imaginou morando com mais dez irmãos? Vendo dois deles morrer porque faltava tudo? Eu comecei a ajudar em casa com dez anos, filha. Dez anos. Eu ia e voltava pra lá e pra cá entregando as quentinhas que sua vó fazia. Muito me orgulha que você não tenha precisado passar por isso, muito me orgulha que com essa idade você tava na escola, bem alimentada, fazendo dever, viajando quando podia. Muito me orgulha que você vai se formar por uma grande universidade. Mas você acha que é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha?

Vejo amigos se cumprimentando, dizendo "como você vai"

Sacudimos as mãos no ar, trocando o ritmo por um sapateado displicente. Meu pai dá um salto, e de sapateado vamos ao foxtrote; mas nos demoramos pouco, voltamos à valsa tosca e performática de antes, ele me suspende pela cintura, e meus braços florescem no ar abrindo e fechando quase no mesmo instante, ele me devolve ao chão lentamente como se me pusesse pra dormir. Tomo seus braços num movimento drástico, um, dois, três rodopios, e antes que ele fuja da minha órbita é resgatado pela minha mão no limite da extensão, ele ri do que penso ser nossa falta de cadência, tem razão, filha, nós somos péssimos dançarinos.

Na verdade eles estão dizendo "eu te amo"

O peso da chuva finalmente rompe a membrana das nuvens; as gotas cadentes vão procurar o asfalto com as bocas bem abertas; o asfalto ferve a água morna e nos devolve o calor vaporoso que angustia o corpo, ressentido pelo desconforto da resposta: espécie anômala de frio vespertino no deserto. Entre mim e meu pai se interpoem delicados cavalos microscópicos que nos atiçam o suor. A água, déspota da fome, tem como único objetivo alimentar-se de mais água. Quer se parecer mais e mais consigo.

Ouço bebês chorando, eu os vejo crescer

Tombo a cabeça no peito quente de meu pai e ouço um ruído de raízes serpenteando lá dentro sem agonia. Estudo sem pressa o rigor saudável de seu amor retumbante e incorruptível forjado na tradição dos costumes, na força educativa das perdas humanas e capitais, no compreensível bem-estar físico de seus méritos por seus esforços, na lentidão cálida de infinitas horas rezadas aos santos de sua confiança, e lá, nesse alto que presumo, está a beleza opulenta e incontestável da fé, que por afastá-lo diariamente de uma pérola de cianeto de potássio, tem de mim uma gratidão diagonal muito superior a que ele jamais será capaz de imaginar, na contraintuição de quem nunca aprendeu direito a rezar.

Eles saberão muito mais do que eu jamais soube

Como foi no sonho, ele me pergunta. Sonhei que era uma menina! Estávamos na casa de praia, ela me chamava pra ir ver alguma coisa nos fundos da casa, onde a gente comia pão-com-ovo que minha avó fazia pra gente escondido. Lá ela tirava o neném da barriga, como se desfizesse uma dobradura. E era uma menina. Ah, uma menina linda! Ele sorri, ponderando. Eu queria menino. Imagina só se vier um menino -- seu rosto se avermelha intensamente e os olhos explodem. Eu vou endoidar. Mas se vier uma menina você vai poder fazer as mesmas coisas, já pensou? Ensinar a soltar pipa, jogar futebol, é tudo criança, é tudo curiosidade, é tudo desbunde. Mas ele não concorda, eu sei que não; então prolonga o sorriso que vai se perdendo em alguma outra expressão indefinível. Eu vou amar independente de qualquer coisa, é só isso que eu sei. Eu vou ser avô! Você não sabe o que é isso. Não vai saber tão cedo. Confirmo com um sorriso. A gente tem sorte, pai. A dança vai se convertendo num abraço que termina sem aplausos. E eu penso comigo, que mundo maravilhoso.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sobre afeto e laranjas

A repetição sempre guarda algo de extraordinário nos invisíveis pontos das intersecções. Uma vez que nunca são perfeitas, deixam brechas, de tamanhos variados, para reacontecimentos. Sei disso nas pequenas cruzes que minha avó fazia com seus dedos curtos na toalha de renda sobre a mesa da cozinha. Ela fazia círculos nos cabelos - a repetição em todos os lugares - e cruzes com os dedos quando começava a contar uma história diferente. Talvez fosse o espasmo de uma vida inteira no catolicismo, mas, automático ou não, aquele era sempre um discreto sinal de mudança de narrativa. Minha avó e seus detalhes.

Silogismo barato: se na repetição há sempre algo de extraordinário, e se na velhice são possíveis pontes com a repetição, talvez então a velhice reserve extraordinaridades. Especialmente a velhice da minha avó. Entre recordações carcomidas, fotografias queimadas e anacolutos emocionais, minha avó me oferecia amostras simples de filosofia material aos domingos entre duas e seis da tarde, e falava sobre quase tudo, porque quase tudo era objeto de sua atenção. Ela gostava de ver aviões de seu terraço, por exemplo. Havia até ganhado um binóculo de presente para acompanhar seus vôos, imaginando repetidas vezes o quão estranha era a total subtração do peso daqueles componentes de metal, que consequentemente se desprendiam do chão. Pouco convencida da infalibilidade dessa física - minha filha, você viu na televisão, caiu mais um avião!, não era raro ela começar uma conversa assim - minha avó tinha medo de andar de avião. E não andava.

Cruzes. Agora eu tenho dez anos e estamos na casa de praia. Ela descasca uma laranja. Com a boca cheia, me diz que minha mãe havia me arrumado inteira, banho tomado, vestido, cabelo penteado; mas que por alguma razão eu teimava em me embrenhar nos matagais altos que circundavam a casa à procura de possíveis animais. Você queria ser veterinária, falava isso o tempo todo - cospe os caroços na mão em forma de concha. Sua mãe ficava louca, "é pena não ter uma sucuri aí pra te engolir", ela gritava. Mas a sucuri não apareceu, eu não me tornei veterinária e dezessete anos depois isso ainda a leva às gargalhadas. Ela passa as unhas sobre um dos meus braços, carinhosamente. Pega pra si outra laranja.

Cruzes. Laranja e banana são minhas frutas preferidas. Criada na pobreza, a gente não tinha luxo, meu pai só podia me dar laranja e banana, então laranja e banana são minhas frutas preferidas. E de tanto que ela dizia aquilo eu já não conseguia passar por bananas e laranjas sem pensar nela. Uma vez, lhe propus o desafio de descascar uma laranja inteira deixando a casca numa espiral intacta dos cortes da faca. Aquela era uma de suas grandes habilidades. E o cheiro azedo das laranjas era cheio de memória. Minha avó descascando laranjas pros meus primos em 94. Minha avó descascando laranja pro meu avô em 97. Minha avó descascando laranjas na atemporalidade do descascar em que eu me imaginava subindo ou descendo o infinito caracol cítrico. A memória não é lógica.

Às vezes - muitas vezes - não é sobre o conteúdo das anedotas, mas sobre a maneira como elas são colocadas. A tentativa de emulação que elas trazem, como se pudessem nos devolver quantos anos possíveis no tempo. E no hábito inconsciente da recontação das histórias era inferível que aquele talvez fosse um recurso para evitar o escoamento das lembranças, como um menino que segura, inerte nos braços, seu cachorro que morreu. Minha outra avó havia sido vítima do Alzheimer. Quantas amigas minha avó já teria perdido para a morte não é possível estimar, mas das piores mortes que se tem notícia, a demência é uma delas porque a demência é a perda do afeto. Se encastelar por dentro, e partir as pontes que dão para o mundo. A persistência da minha avó em manter-se recontando as mesmas histórias era tática de sobrevivência. Eu não tenho dúvidas disso.

O que era claro era que havia afeto. Quanto mais velha, mais afetuosa minha avó se tornou. As histórias eram as mesmas, mas o afeto havia crescido de alguma forma não-aferível, não-nominável. Esse crescendo abrigava espaço pra pequenas minúcias que não haviam surgido até então. Histórias recentes de um passado ainda mais distante, quando ela tinha dezenove anos e trabalhava na intendência da guerra e a maria-fumaça, expelindo carvão vivo, fazia pequenas queimaduras no seu vestido simples. Ou mesmo seu interesse (sincero) na minha conturbada vida amorosa. Maria passe na sua frente, minha filha.

Certamente era um afeto maior. Até as laranjas ficaram mais doces.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pina


Fazia tanto calor naqueles dias que os prazeres ficavam simples. Ela se contentava em tomar banho e, ainda com o corpo molhado, dançar nua e sozinha no terraço. Gostava de sentir o vento batendo nos seus mamilos, e as gotas d'água percorrendo seu corpo em sentido vertical; gostava de bater os cabelos molhados contra o rosto, os fios virando um chicote gelado e mole cheio de doçura. Gostava de correr e de rodar sobre o próprio eixo - o vento seria para sempre o seu par, ladeando-a de todos os lados - e depois de tão cansada se debruçar no muro e esfregar o sexo nele.

Só era livre quando era louca.

sábado, 27 de junho de 2009

Michael e eu - uma homenagem

Pensei em escrever sobre Michael. Mas o receio de cair em xerox de todos os editoriais que saíram a seu respeito ao redor do mundo me fizeram voltar atrás. Mas ainda queria escrever sobre ele. Então, numa conversa que estava tendo com um amigo, que também prestou uma elegia ao rei em seu blog, ele me disse, sabiamente, que a única forma de escrever sobre Michael era se utilizando da única fonte imiscível que temos ao nosso dispor: nós mesmos. Michael e nós. Eu, você, João, Maria, Alberto e todo mundo. Apesar de ser a mesma estrutura, a argumentação muda a partir do momento que varia de pessoa pra pessoa, porque, elementar, cada experiência é única.
Então é isso. Michael e eu.
Com todo o sucesso dele, eu vim a conhecê-lo, oficialmente, aos meus (aproximadamente) seis, sete anos de idade, com o clipe que entraria pra minha história: Remember the time. Ambientado no Egito antigo, contando com Eddie Murphy e a linda modelo negra Iman - que à época eu dizia repetidas vezes ser a cara de uma das minhas primas -, o clipe tinha o estilo jacksoniano, trazendo uma trama introdutória pararela à aparição de Michael. Eu me lembro perfeitamente da minha relação com aquele clipe. Era em cassete, eu sempre rebobinava. Adorava, desde a mini-trama à coreografia incrível orquestrada pelo maior dançarino do pop de todos os tempos.
Assim, Michael entrou na minha vida. Depois de um tempo, assisti a Thriller. E, como quase toda criança, fiquei chocada com aquilo, ainda mais por ser uma menina muito medrosa. E me apaixonei por Moonwalker. Como eu adorava "Smooth criminal"! Tudo o que se passava de Michael eu me prestava a assistir. Não era o que se possa chamar de uma fã inveterada, mas eu certamente nutria por ele grande admiração.
Eu cresci. E, do nada, voltando pra casa depois de mais um dia, vejo uma notícia que não processo. Michael é encontrado morto. Michael? Michael Jackson? Impossível! Como, se ele estava se programando pra turnê? Como, sendo ele quem é? Mas a morte, o único mal irremediável de Guel Arraes, não espera turnês, caprichos, lamentos, preces. A morte arrebata tudo, todos. E até Michael.
A causa específica da morte de Michael ainda é um mistério. Toda a mídia internacional noticiou como sendo uma parada cardíaca seguida de coma profundo. Será? Minha mãe sustenta, desde que se falou na morte de Michael - e eu estou de pleno acordo - que as circunstâncias que desencadearam a morte do Astro foi uma overdose de anti-depressivos, o que é bem cabível se observarmos o estilo de vida que Michael levava, desde o começo.
Mesmo sendo o artista pop mais bem sucedido de seu tempo, com cifras-recorde em vendas, o menino Michael era, como tantos outros artistas, mais um infeliz. Um homem frustrado por seus complexos, e na desesperada tentativa de ocultá-los, o que mais fez foi expor os mesmos. Michael jamais deixou a infância. Ela ficou guardada nele, e era externalizada em suas atitudes excêntricas. Daí todas as polêmicas envolvendo menores. A conjectura de minha mãe é muito razoável, e Michael talvez estivesse vivendo o zênito de uma depressão irreversível. A injestão desses supostos medicamentos teria sido um suicídio (in)consciente.
Para mim, Michael é o tipo de pessoa que só vem ao mundo milenarmente, dada a sua singularidade. Ele marcou todas as festas-ploc que eu já fui. Eu já fiz o imitável, nunca inigualável moonwalker. Quem não fez? Em algum ponto da vida das pessoas, Michael entrou. Invadiu. Ficou. E agora, que a gente se vê sem ele, sente uma falta de si mesmo que é estranha. Não que Michael fosse indispensável à vida de todos. Mas, de alguma forma, ele costurou sua história à, pelo menos uma parte, da nossa.

Descanse em paz, Michael. Depois de toda uma vida procurando por ela, pode ser que finalmente você a tenha encontrado.

Para Michael Joseph Jackson - 29 de agosto de 1958 - 25 de junho de 2009.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ao Rio

Rio. Rio.
Eu amo o Rio. Ele me é vital, e pulsa em cada um dos meus vasos sangüíneos. O Rio é mais que lindo, é mais que isso. É alguma palavra outra que ainda não inventaram, dada sua propriedade difícil de ser comportada. E sobre tudo isso, o Rio é.
Eu amo o Rio. O Rio dos estigmas. Rota 1 da prostituição internacional. Da violência ocular das calçadas, das meninas cuca-fresca de Ipanema; o Rio que não parece tão Rio de Duque de Caxias. O Rio, que só é bonito e só é Rio em sua totalidade.
O Rio é o maior caldeirão cultural do Brasil. Sei que soa por demais presunçoso isso de minha parte - visto que eu não conheço todos os Estados do Brasil - mas dada a sua complexidade espacial, me sinto confortável de apontar assim. Você anda pela Presidente Vargas e consegue identificar praticamente todos os retalhos da sociedade brasileira, ali dispersos em sutil sinergia. Chega-se à Lapa e a explosão regional que se descortina às retinas é sem dimensão, tragando todos os estilos, todas as esferas, englobando as pessoas numa tribo onde todo mundo é cada um e cada um são todos, louca e simultaneamente. O Rio é uma tribo de prazeres. Infandos, infindos.
O Rio é um deleite. Gosto de bradar, a plenos pulmões, minha carioquez, com um "x" bem arrastado no final, por favor. É bom olhar pras praias cariocas. Sentir maresia. O Rio é pluralista, desde sua concepção histórica até os dias de hoje. Há tempos que toda sorte de gentes vem desembocar aqui, constituindo o retrato da cidade como um todo, um mosaico de caras, de peles e de bocas sincrônico, embebidos de sua cultura que se costura à história do Rio. E isso é bonito demais, único demais. Se o Brasil é um país legitimadamente miscigienado, o Rio é a cidade que melhor reflete esse fenômeno - apesar de que preciso reconhecer que São Paulo, quanto a isso, não fica muito atrás. Mas é no Rio que isso se dá com maior plenitude, com maior repercussão.
E é esse Rio que eu quero. Um Rio de Janeiro cheio de máculas, de espinhos, de funk e bossa que só existe de verdade em suas esquinas com cheiro de mijo, cópula e carnaval. Minha amada cidade, paisagem-alvo de escritores, artistas, cantores e compositores que a imortalizaram em versos e sonetos apaixonados, afinal, o Rio é uma paixão pra vida inteira. Uma paixão que se imprime na pele, na ginga, na memória. O Rio é de todos que moram nele, e que o levam para onde quer que vão no recôndito do olhar.
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro... saravá!

terça-feira, 31 de março de 2009

Meu guri

Do meu quarto eu já consigo ouvi-lo. Ele vem subindo as escadas, trotando, ofegante, feliz; quebrando deliciosamente minha concentração nos meus intermináveis textos de teoria literária. Vou à cozinha e lá está ele. Desajeitado, a mãozinha de unhas roídas e encardidas apoiada na parede, a outra a remover a meia do pé. Ele olha pra mim, e me dá o melhor presente: seu sorriso sincero, que na ausência dos dois dentes frontais só se torna ainda mais angelical. Então eu o abraço. A camiseta de seu uniforme cheira a refrigerante e suor, mas um suor cheiroso, puro. Ele me envolve, e como num passe de mágica, me transmite toda aquela felicidade que me parece tão distante nas outras horas em que ele não está perto.
E então dispara a contar dos feitos na escola, comendo partes inteiras das palavras, - tão dispensáveis quando sua visibílissima empolgação e vitalidade embriagam o meu olhar - relatando suas descobertas, a pinta da tia, o sobrenome engraçado do amigo, a hora do recreio. De súbito, ele lembra do horário de seu desenho predileto, e corre da cozinha para a sala, se jogando no chão fresco, colando seus olhos atentos à tela como se fosse a programação mais incrível do mundo. Mesmo reprisado, o desenho ainda o faz cantar sua música-tema, vibrar com o sucesso do heroizinho, torcer contra o mau elemento.
Ele pede 'necau'. Há alguns bons anos ele já conhece a pronúncia certa, que é 'nescau', mas reitera esse pequeno tatibitate talvez até por (in)conscientemente saber que ainda mais graça e ternura isso lhe confere. Ele não come açúcares, mas os únicos que tolera são os presentes neste achocolatado, em refrigerantes, em sorvetes (morango, only) e - pasmem - no leite condensado. Alguma meia hora depois, hora do almoço, ele nutre o péssimo hábito de adorar aquelas pequenas e venenosas carnes congeladas - os mini chickens - e só come mediante a presença daquilo em meio ao arroz e feijão. A digestão é obviamente acompanhada de guaraná.
Logo após isso, ele espaçosamente pula na cama do quarto de minha mãe, e pede para que eu ligue o video-game. E o tempo parece se congelar durante o jogo, tão maravilhosa que é a minha tarde com ele. Para ele, eu sou uma heroína, tanto quanto a princesa Zelda. Eu sou muito esperta, ele nunca vai ser igual a mim, eu tenho a letra bonita, eu sei ensinar o dever, ele me ama de quinze em quinze minutos. A sua vozinha rouquenha e pueril inunda meus ouvidos de alegria, faça chuva ou sol. Quando chega a hora de voltar à sua casa, geralmente vai sob protestos - e secretamente, também o faço (quisera eu ser sua mãe). Chora, mas aos poucos vai calando quando eu digo que no dia seguinte, ele estará de volta para fazermos tudo de novo, inclusive chegar ao mestre do jogo, pesky Skullkid. Temos umas bobeiras só nossas. Inventamos uns nomes que só nós sabemos. Suas axilas ele chama de Peter Parkers. Seu pipi eu apelidei de 'biriguelson', o bumbum tranformou-se numa onomatopéia irreproduzível por qualquer outro estranho, entre outras, que citamos no banho por exemplo, e tudo é festa, nós dois desmaiando de rir.
E eu não tenho como agradecê-lo por isso. Nem nunca terei.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os homens, ah, os homens...

Vinícius cantou às mulheres. Toda a sua poesia, sua vida e seu legado estão entremeados pela sua total ode à figura feminina. Ele foi um dos maiores amantes das mulheres, no sentido devocional do termo, e deixou isto exposto para o mundo ver. É muito provável que o gene viniciano tenha morrido nos homens. Não se fazem mais homens românticos, o que é uma pena. Mas não se iluda, leitor, que de romântico Vinícius só tinha o gênero literário. Ele foi, no mais claro português, um galinha inveterado, mas inteligente. Muito inteligente, e passionalíssimo.
Como Vinícius, muitos poetas e artistas viveram intensamente, promovendo verdadeiras elegias ao sexo oposto, se dando, seja em palavras, seja com o próprio corpo. Acho isso de uma coragem e beleza incríveis. Numa sociedade que censura a mínima pisada fora da linha, estes preteriram todo o corpo fora. E chegou a minha vez, também. Abrirei o peito na direção dos canhões morais.
Os homens, ah, os homens. Magros, médios, negros, ruivos, louros. Lindos. Há uma beleza nos homens que somente um olhar feminino é capaz de contemplar com plenitude. Gosto da anatomia masculina. Gosto dos braços, dos pulsos, dos pés, das mãos dos homens. Gosto de seus pêlos. Gosto de um pomo de adão pronunciado, gosto de queixos e narizes. E, principalmente, gosto de homens naturais. Descontraídos, risonhos - ou sérios. E pênis. Aquela forma deliciosamente fálica guarda metade do segredo da vida - a outra está em nós, mulheres. O pênis masculino abre um manancial de gozo e delírio em mim. Eu gosto muito de homem.
Só uma bela figura masculina emana feromônios poderosos a todos os meus sentidos. Homens me despertam. De ternos, de fardas, de batas hippies, não importa, são homens! Os homens são lindos, lindos. Acho que, analisando por esse ângulo, entendo o motivo do homossexualismo masculino. Como resistir a um bom homem? Como passar incólume por aquele homem, sem dar uma discreta suspirada?
É difícil uma mulher, numa sociedade predominantemente machista, falar ao homem assim, principalmente sendo monogâmica, o que é o meu caso. Mas não vejo outra maneira. Aqui, estou inteiramente despida de qualquer princípio moral ou social; estou falando por mim mesma e pondo, quiçá, minha conta em risco. Me responsabilizo pelo que falo. Faço a canção ao belo, não ao promíscuo, e esse é um ponto que precisa ser levado em consideração. Mentalidades preconceituosas não conseguem dissociar isso com precisão. Elza Soares, Fafá de Belém, Zizi Possi, Leila Diniz, entre outras bravas me servem de inspiração. Elas interpretam a real beleza de um homem bonito, gostoso, sem sentir necessariamente aquele descontrole dentro de suas calcinhas. A questão aqui é de apreciação, não da banalização. Não tenho nada contra as mulheres que se relacionam com muitos homens, quem sou eu pra julgá-las? Só acho que entregas assim devem estar, primeiramente, calcadas na admiração pela figura masculina. A banalização que evidencio é a pessoa ter-se com quem quiser por mera carência ou desejo repentino, o que, aí sim, não concordo.
Mas, fora isso... os homens. Ah, os homens...

domingo, 16 de novembro de 2008

A rua do meu passado

A rua do meu passado tem belos e expressivos olhos castanhos, que vão me tragando por uma larga alameda por onde vou me perdendo à medida que vou me encontrando, dentro. Seus galhos são braços fortes, que me consolam, que são invadidos de uma luz lindamente turva em dias nublados. Ah, dias nublados. Em dias nublados, minha rua enegrece a ponto de virar noite em minutos. E nem assim perde a sua beleza. Se veste de mistério, de sobriedade, e de passado. De passado, de passado, de passado.
A rua do meu passado é muito bonita no final da primavera. Densamente encharcada daquele gosto e cheiro de chuva fresca, inundada com as cores vibrantes da transição das estações. Às vezes, consigo ouvir beijos vindos do oco das árvores que nela moram, porque, afinal, ela é a rua do meu passado. A rua me entende. Ela, seus sons, suas luzes, ela me completa. Eu começo o que ela termina, e vice-versa. Essa rua é um pedacinho de mim, que o tempo e a geografia tiveram o cuidado de preservar, tão delicadamente, tão pra mim.
A rua do meu passado me parece espiralada, como um turbilhão infinito de memórias e emoções à flor da pele. Ela tem um sorriso lindo que me entontece, toda vez que o contemplo. Parece que sabe o que quer, mesmo que isso implique em me dissociar de sua história, embora esta nunca possa ser apagada. Essa rua me sucita sentimentos tão fortes que tenho medo de me aventurar pelos seus 600 metros de asfalto e infinitude numa simples caminhada. Nem passo ali, nem que seja pra cortar caminho. Ela traz à minha boca um gosto acre de lembranças doloridas que prefiro adormecer num recôndito profundo no peito. A rua do meu passado está situada em algum lugar da minha cidade, em algum lugar do meu corpo, em algum lugar dos meus homens.
A rua do meu passado está impregnada de silêncio e nostalgia.

sábado, 4 de outubro de 2008

Para compreender Deus

Se tenho duas únicas certezas nessa vida, elas são que um dia morrerei e que nunca, aconteça-me o que me acontecer, perderei a fé em Deus. Apesar dele me parecer estranho, às vezes. Apesar de permitir que coisas horríveis aconteçam às pessoas. Mas a fé, nele, ah, isso nunca perderei. Por que? Porque, mesmo parecendo distante e imaterializado, ele sempre arruma um jeito, um jeito só seu, de me responder. Não, nem sempre responde. Mas ele se esforça para que eu o veja.
Confesso que estou muito chateada com Deus hoje. Me pergunto por que, em sua infinita sabedoria, ele permitiu que um amigo meu fosse assassinado. Uma pessoa trabalhadora, que só estava galgando seu espaço nesse mundo. Que sempre trazia um brilho fantástico no olhar. Não éramos os maiores amigos, mas ele fará falta na praça. Lá que o conheci, e onde ele trabalhava. Seu sorriso, seu jeito engraçado e descontraído de fazer amizade. A notícia de sua morte me pareceu piada. "O Luan? Fala sério!" e assim me parece até agora.
É nessa hora que volto meus olhos a Deus, procurando, exigindo resposta. Por que? Por que ele? Um rapaz bom, esforçado, não se misturava com quem não presta. Por que ele? É justo? Se é ou não, isso não compete a mim, afinal, é a vontade de Deus. De Deus. Mas por que?
Fui buscar respostas no céu, que se desabava em uma chuva pesada nesta triste tarde de 04 de outubro. Estava no quarto, me perguntando a retórica "por que", quando a porta abriu. Pensei que fosse o vento, mas quando vi, era minha prima, Fernanda, que vinha chegando com sua risadinha feliz. Agora percebo. Era Deus entrando pela minha porta, mas não me dava por convencida estando com o coração duro de revolta pela morte do meu amigo. Eis que resolvi subir as escadas do meu prédio, que dão para o terraço. A chuva caía, impetuosa, livre. Só me pondo sob ela que pude entender. Seu beijo gelado, encharcando meus poros. O salgado das minhas lágrimas se misturando com o doce da chuva. Era Deus me respondendo. Raios e trovões rasgavam o céu de fora a fora. Deus conversando comigo. Eu quis gritar, mas já tinha a certeza de que ele já estava me ouvindo. E, lá dentro, nos recônditos dos meus tímpanos, eu podia ouví-lo dizer. Tenha fé, Ana Líbia, tenha fé.
Então desci as escadas e voltei, pingando dos pés à cabeça para casa. Tomei um banho e me pus a pensar na grandiosidade de Deus, e no seu mistério mais claro: a fé. A fé invisivel que salva a gente das horas mais amargas da solidão, e que nos traz de volta ao eixo. A fé, que abre os meus olhos e me faz ver o Luan sentado ao lado de Deus. Deus.
Horas mais tarde, eu sairia com meu namorado. Aliás, hoje nós completamos um ano e onze meses de namoro. Mencionei que estava com vontade de escrever, e sobre Deus. Eis que ele me pergunta: "antes de tudo, você precisa saber o endereço de Deus. Você sabe qual é o endereço de Deus?" a resposta veio, categórica. É certo que o endereço de Deus não são assembléias, igrejas. O endereço de Deus é o sorriso espontâneo da Fefezinha. As mãos estendidas e abertas de um estranho para o outro. A chuva boa que vem lavar a rua, a tarde, a alma. Deus mora nestes pequenos detalhes. E só é possível compreendê-lo fechando-se os olhos e abrindo - por completo - o coração.

Descanse em paz, Luan. A gente se vê um dia.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Trancado na garganta

Meu pai está doente e, desde então, nosso contato tem sido muito superficial. Não é por conta da doença, isso jamais. Mas há bem três meses nossa relação estreitou-se tanto que limita-se ao indispensável. Isso não me faz bem. É quase inconfessável, mas não consigo fingir felicidade plena mantendo uma relação decadente com aquele cuja presença foi visceral nestes últimos 20 anos. Tento, mas o olhar dele - aliás, seu não-olhar - é inescapável punhalada no meu coração.
E hoje, tão sem porquê, ele estava na garagem da minha casa e, olhando-o da varanda, me dei conta disso. Por uma tolice. Acontece que meu pai é um homem de 52 anos e, ultimamente, é um tanto raro que homens nessa faixa etária ainda mantenham uma farta e negra cabeleira; o que é seu caso. Meu pai é e sempre foi muito orgulhoso de seus cabelos, e de repente, notei, do ângulo que o fitei, que seu cabelo perdera o viço, a cor e o volume. Notei que sua pele enrugou, empalideceu. Este vislumbre, trágico, trouxe consigo mais que uma vertigem física. Esse foi o mais memorável soco que recebeu o lado rancoroso de mim. Meu pai envelheceu consideravelmente nos últimos 10 meses. Sempre me deu tudo o que estava ao seu alcance, desde o essencial ao supérfluo, e é essa a minha grandicíssima gratidão: minha incrível capacidade de sobrepor todas as nossas picuínhas e problemas por tudo de bom que ele me proporcionou e fez durante toda a minha vida. Meu singular talento em ruminar seus defeitos, engolí-los e trazê-los de volta à boca, com um gosto cada vez pior. Em momento algum eu posso relevar o fato de que sua hepatite leva-o a tomar fortíssima vacina, que o deixa física e psicologicamente abalado, ou a fraqueza existente em mim de olhar pra dentro e reconhecer meus próprios defeitos. O que mais me dói é que, conforme alimentei esse rancor estúpido, o mesmo necrosou minha capacidade de amar meu pai, como coisa que se desaprende. O orgulho parece ter salgado o meu peito.
Centenas de pessoas, milhares até, dariam tudo para estar na minha condição enquanto filha de José Gonçalves, humilde enfermeiro, budista fervoroso, pessoa simpática e bem quista por natureza. E parece que sou a única pessoa que negligencia ou ignora este privilégio, e isto é um puro dissabor. Não dá pra esquecer um pai que, por mais ausente que tenha ficado durante a minha infância - sempre por conta de trabalho - estava lá. Me vendo, de alguma forma, orando por mim à sua maneira. É impossível dissociar assim, de uma hora para outra, todas as lágrimas que ele chorou comigo e por mim; a madrugada de seu aniversário que me levou às pressas para o hospital, quando cantava pra mim quando eu era pequena, o momento epifânico que testemunhou minha menarca. Não se esquece esse tipo de coisa; coração nenhum é capaz de tal frieza.
Eu o amo tanto, só não estou sabendo dizer isso. Seu jeito simples e atrapalhado. Suas mãos grandes. Sua teimosa positividade. Seu olhar seguro.
Eu o amo, tanto.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Sempiterno sonho - carta a Fidel Castro

Como de costume, quando a VEJA atacou Che, escrevi uma carta como se o mesmo pudesse lê-la.
Como sinto os deslavados ataques à figura de Fidel, pus me a escrever uma carta-desabafo, que muito gostaria que chegasse a seus olhos.

xxx

Bate a onda sobre a pedra, na encosta. A onda é eterna, e a cada revolução, parece fortalecer-se, com uma missão: a dissolução desta pedra. A pedra, relutante e teimosa, conhece sua resistência; e sabe que se fragmenta a cada golpe. Que desintegra-se, lentamente, até perder seu aspecto inicial. Um dia, a pedra sabe que há de sucumbir. Mas deixará, nas ondas, a marca de sua passagem.
Muitos homens são como esta pedra. Uns muito resistentes, outros porém, fracos e entreguistas. Dentre estes homens-rocha, te encontro. E vejo que as ondas cansam-te devagar, como tem de ser.
Ontem o mundo acordou com uma outra impressão a teu respeito. Como se as ondas que me refiro já o tivessem levado com elas. Tolo mundo, que não sabe das tuas reservas e das coisas incríveis que estão por vir. Precipitadas as pessoas que desconhecem a tua bravura e deixam se levar por notas frívolas de jornais, ai delas, que muito ainda vão ouvir teu nome. O teu nome, que nunca veio dissociado da tua história e da tua tão hipnótica pátria. O nome fiel aos princípios mais elementares de um homem: o dever, a coragem e a honra.
Mostraste ao mundo uma proposta diferente de gestão. E todo pioneirismo está sujeito ao progresso, ao erro, à glória. E ainda, apesar de toda sorte de intervenções por parte daquela potência, permanceste rijo. Fixo. Imiscível. Tua respiração é, ainda, a mais pungente afronta sobre o orgulho vão daqueles cuja imoralidade e hipocrisia são as palavras de ordem. Os mesmos que não puderam freá-lo nem dobrá-lo por embargos, subornos, atentados.
Me orgulho de ti, como quem sente no teu pulso firme um exemplo para todo um continente, já tá maculado pela fúria dos colonizadores de ontem e de hoje. E me enojo cada vez que me dou conta do séquito de vendidos que não fariam a metade dos teus feitos a tentarem difamá-lo com iniqüidades, a fim de extinguir com um gesto tão banal, toda a tua luta e a de muitos companheiros.
Inauguraste a era das mudanças para a América Latina, e o mais importante é que jamais deixemos, assim como as futuras gerações, que a essência deste fundamento se perca no tempo, dada a sua importância do corredor da história. É de nossa responsabilidade tornar o teu sonho, e o de muitos outros bravos, concreto, vendo florescer a partir do sangue e do sacrifício, as flores que guardam dias mais verdes.
És exatamente como a pedra do início do texto. As ondas nada são além do tempo, e sua implacável ação não de destruição; mas de transformação. Pois todas as coisas positivas no mundo são efêmeras, porém o seu sentido difunde-se para sempre, onde quer quer elas atuem.
Caríssimo, há de chegar a manhã em que celebraremos a vitória que por hora nos é negligenciada. Portanto, nada acabou. Trata-se apenas de um ciclo.
VIVA FIDEL, VIVA CUBA, VIVA A AMÉRICA LATINA.

Ana Líbia, 20 de fevereiro de 2008.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Meu tributo ao homem - 40 anos sem Che

Pensar nele me apequena, me fortalece. olhos e coração apaixonados eram capazes de transpor, sinergicamente, todo e qualquer obstáculo, ainda que fraquejasse. Ainda que não conseguisse (ele também era composto de carne e sangue). No fim das contas, ele era apenas um mortal que uma morte brutal converteu em superceleste.
Não admito que arranhem a imagem do meu herói. Que tentem distorcer, deturpar toda a jornada de vida dele e vender sua imagem, numa completa contramão de tudo o que um dia ele pregou. Sim, ele era um homem, e os homens estão permanentemente sucetíveis a errar, muitas vezes em sua vida. Meu herói é um homem, não um santo; e é por isso que está em tão enaltecido patamar: por conseguir estabelecer o paradoxo exatamente entre a mortalidade e a divindade, aproximando-se dos humanos com a candura dos anjos. Meu herói é a fusão da temerariedade típica dos aventureiros com a feição que acalma as crianças. É entusiasta, é amigo, é irmão.
Num mundo que torce a verdade e consegue, quase sempre com um sucesso assombroso corromper a moral dos homens das mais variadas camadas sociais, o homem-tocha, centro da minha admiração, ergue-se do mar de desesperança com suas asas vermelhas, permanecendo incólume à adversidade, à batalha em continuar sendo puro; como a alva rosa que despedaça-se ao vento para evitar entregar-se lentamente ao inverno que a devorará. Poucos homens seriam capazes de grandiosidade tamanha, de uma ovação desta ordem. Sacrifício e reconhecimento são duas retas pararelas durante toda a vida daqueles que assim se doam, que interceccionam-se exatamente no momento do desencarne altruísta de um homem cuja aura iluminada ganha força, e alastra-se pelo mundo, encontrando seu lugar nos corações daqueles que não sabem, sentem. E, quando esta luz encontra seu lugar, quando sabe que é definitivo, nunca mais se apaga.
Meu tributo a este homem é do tamanho do meu amor por ele e pela sua causa. Um homem que está acima das críticas rasas que línguas bifurcadas e invejosas destilam do alto do mais elevado recalque. O homem que viveu em função do outro, que deu-se inteiro para provar a verdade.
Para Ernesto, cuja luz está em mim.