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segunda-feira, 29 de maio de 2023

Quando Jorge Errou - imperdoavelmente

Tenho um amigo que costuma dizer que se parece com um marreco. Em sua perspectiva, um marreco é capaz de fazer muitas coisas, mas nenhuma delas faz direito. Foi assim que há alguns anos ele começou sua entrevista no Programa do Jô, auto-apontando sua suposta falta de talento, quem sabe utilizando isso como um escudo à prova de ataques sobre seus dotes artísticos - meu amigo é escritor, DJ, músico e cineasta. De fato: é para poucos expandir o talento em múltiplas direções, e principalmente manter sua qualidade nesse superdigitalizado mundo pós-industrial. Para poucos, sim, mas esses poucos estão por aí, entre a fama e o anonimato - quando a humanidade dá sorte, alguns deles alcançam a fama. E um desses poucos é Seu Jorge.

Seu Jorge é um dos personagens brasileiros mais consistentes em sua versatilidade artística. Digo isso sem medo. Bem sucedido como ator, intérprete, compositor, cantor, produtor e sabe-se lá o que mais, Jorge Mário é um brasileiro cuja trajetória artística foi marcada por alguns altos e baixos, e mesmo sua conhecida história faz dele um exemplo de superação. Os prêmios que coleciona, tanto na música quanto no cinema, não foram concessões voluntárias de uma indústria apenada por sua história, mas pelo mérito de seu esmerado trabalho artístico reconhecido globo afora. 

Como qualquer pessoa no mundo, o artista tem suas complexidades, sobretudo políticas. Em 2007, Seu Jorge fez coro no vergonhoso movimento Cansei, que reunia o que de pior havia na vampira elite brasileira, entre socialites, celebridades situacionistas e figuras públicas no mínimo questionáveis. Falo de gente como Regina Duarte, Hebe Camargo. Para quem possa vir a ter a memória embaçada, o Cansei é a versão coxinha do que viria a se tornar o bolsonarismo anos depois. Algum tempo depois disso, Seu Jorge volta a se posicionar, desta vez ufanando-se de morar em Los Angeles para justificar seu desprezo por um país que nada lhe deu. Considerando seu histórico, não é tão difícil fazer um pequeno exercício de alteridade e se identificar com a revolta que pode tê-lo motivado à certa arrogância ao tentar se defender de certas acusações com relação ao seu posicionamento político: questionado (e disputado) por uma esquerda ocasionalmente dogmática, Seu Jorge parece esforçado em manter-se longe dela (desde sempre), indo na contramão do que geralmente se espera de um artista negro brasileiro que chega ao estrelato; coisa que, no passado, experimentou também Wilson Simonal. Longe de absolvê-lo, ao menos é possível encaixar certas peças neste tabuleiro que me levam minimamente a compreendê-lo. Em certa medida, estes são episódios apenas lamentáveis diante do Grande Erro de Seu Jorge.

E o Grande Erro de Seu Jorge acontece no ano de 2015, quando ele lança uma das maiores tragédias da música popular brasileira: a música FELICIDADE.

Movido pelo justíssimo sucesso de Músicas Pra Churrasco Volume 1, lançado em 2011, Seu Jorge lança a segunda versão homônima, quatro anos depois. E é nesse álbum que esta música está. 

Há muitas razões pelas quais uma música cai (ou não) no gosto popular. Melodia, letra, embalo, algum tipo de piada interna, algo que motive a criação de memes: as duas últimas têm funcionado como um método fácil de popularização. "Felicidade" atingiu sucesso no ano de seu lançamento e até hoje é bem difundida no rádio, e aparentemente passaria incólume pelo público se eu não tivesse nascido.

Não há nada mais enfadonho na cultura brasileira inteira que a letra desta música pela mesma razão que todo comercial de margarina é cafona, porque inverossímil. "Felicidade" é, portanto, como se um comercial de margarina tivesse sido musicado; um marketing feito na medida para vender um produto que - sabe-se - é ruim para o consumo, dada a sua redonda artificialidade. Na letra, Seu Jorge elenca situações que traduziriam o que é a felicidade (o que por si só já é um dos assuntos mais complexos que há), mas a maneira como faz isto é tão pobre e crivada de imagens previsíveis que revela um despudor significativo sobre o próprio assunto que escolheu abordar. Felicidade, sem entrar em camadas filosóficas mais profundas, é tópico sério, sensível e altamente subjetivo, mesmo que não deixe de ser leve. Até mesmo gente aparentemente menos ajuizada conseguiu se sair melhor que Seu Jorge em sua definição - afinal, felicidade pode ser, sim, um fim de tarde olhando o mar, como os cariocas aprenderam em 2005 na voz de Danilo Cutrim com os demais meninos do Forfun, que inclusive pareciam mais relaxados sobre ela, não procurando defini-la à exaustão com pares de frases tão preguiçosas. Talvez more aí a diferença: a Felicidade de Seu Jorge é compartimentada, pronta para o consumo. Em último, instagramável. E não existe, no mundo moderno, nada mais cafona que o próprio conceito de instagramabilidade. 

Mas me resta, ainda, uma última teoria. E isso tem potencial de mudar completamente tudo o que foi colocado até aqui.

É possível que "Felicidade" seja uma das músicas mais inteligentes do país se lida como uma peça irônica sobre o que pode vir a ser a tal difusa e inconceituável felicidade. Só gente muito grande faz esse tipo de movimento. Luiz Melodia aprontou uma dessas em Mico de Circo, de 78, quando cantou "Eu Sou o Samba". À uma segunda vista, o que antes parecia ser a entoação de um coro de saudação dá lugar à jocosidade esperta e madura que Melodia sempre depositava nas suas músicas como senhas (ainda que esta, em específico, não fosse sua). Na voz do menino que desceu o São Carlos, a interpretação desta música surge em tom debochoso, de alguém que conseguiu entrar na festa dos brancos, mas sabe muito bem de onde veio. Coisa semelhante (e convenhamos, menos discreta) também fez Gonzaguinha em 73, com "Comportamento Geral", em uma letra que discorre sobre a passividade bovina do trabalhador brasileiro frente ao achatamento de sua própria vida pelas engrenagens do sistema capitalista. Se Seu Jorge tiver tomado este caminho ao compor a música que dá assunto a este texto, ele passa de fastidioso a gênio num estalar de dedos. Mas infelizmente tenho motivos para desconfiar que não seja o caso.



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

[CRÍTICA] Os Últimos na Terra (Z for Zachariah) - o que de humanidade permanece

Trabalhamos com possíveis spoilers! Estou presumindo que você viu o filme!



Em seu quarto longa, Os Últimos na Terra (Z for Zachariah), o diretor Craig Zobel trabalha com as variadas tensões que envolvem a humanidade que resta (realmente, no sentido residual) em três sobreviventes que se encontram após um desastre nuclear que, ao que tudo indica, trouxe consigo o fim da espécie humana.

A premissa da fita é simples. A indolente Ann (Margot Robbie) é uma jovem de 16 anos que se vê sozinha (no mundo) após seu pai e irmão saírem em busca de sobreviventes algum tempo depois da grande hecatombe. Morando num pequeno condado, segue com sua vida de maneira aparentemente resignada, até que um estranho perturba a água parada de seu cotidiano: trata-se do engenheiro John Loomis (Chiwetel Ejiofor), que, sem saber, surpreende Ann numa estrada para, momentos depois, ser surpreendido por ela ao banhar-se numa cachoeira radioativa. O primeiro contato entre os dois promove uma boa ilustração sobre como o evento nuclear alterou radicalmente a dinâmica no reconhecimento do outro, servindo, pois bem, de prólogo para o desenrolar da narrativa, indicando que tudo é suspeito, até que se prove o contrário. Vencida a desconfiança, Ann recebe Loomis em sua casa, e, num primeiro momento, naturalmente os dois trocam seus registros sobre a tragédia, dos respectivos pontos em que suas vidas estavam. Transcorrido algum tempo, durante uma sondagem pelos campos que circundam sua propriedade, Ann cruza com outro sobrevivente, Caleb, (Chris Pine) também levando-o para casa e oferecendo-lhe abrigo até que decida que destino seguirá. 

Para além do cuidado do roteiro de Nissar Modi em não deixar muito claro em que momento se deu o desastre, a nebulosidade também recai sobre a psique dos personagens, em contraposição com a luminosidade por vezes ostensiva dos planos abertos do filme. Pouco se sabe sobre eles, e a informação a que temos acesso é contada na ausência: de certa maneira, cabe ao espectador um trabalho paleontológico. O mais flagrante destes exemplos se dá quando Ann encontra John Loomis bêbado, num velho posto de conveniência. O diálogo (bem, o monólogo) é uma pista sobre a importância de se aprender a refinar uma leitura sobre um Outro com tantos buracos na configuração pós-antropocênica que propõe Zobel.

O filme não oferece um protagonista, mas a julgar que, na ordem de surgimento dos personagens, a primeira é Ann, e sobretudo porque ela é a única (a última?) mulher entre dois homens, há um orbitamento concentrado em sua figura. Como dito, Ann é uma adolescente (fato não-explicitado no texto do filme, mas em sua sinopse e nas espinhas em seu rosto) cristã, o que a coloca diametralmente oposta a Loomis, um homem da ciência. No entanto, provavelmente por conta do contexto de destruição colocado, os dois assumem uma convivência pacífica e complementar, apesar de povoada de embates sutis e muito bem construídos nesse sentido, que não caem nas armadilhas do lugar-comum. A cena da discussão sobre a capela, além de provocadora, é brilhante no comedimento do pingue-pongue ideológico dos personagens. Essa cena, aliás, é o único momento do filme em que temos um crepúsculo, como se o próprio embate entre fé e razão estivesse experimentando, em si, um definitivo anoitecimento: não há mais a certeza opulenta de antes em nenhum dos lados.

No segundo terço da projeção, Zobel faz um jogo engenhoso, preservando - e ressaltando - resíduos que misturam o comportamento humano e animal, quando entra em cena o terceiro personagem, Caleb. Em uma única, e quase imperceptível fala, é explorado o fantasma do racismo experimentado por Loomis, que mesmo diante do fim da civilização, permanece rochoso enquanto herança histórica, e sensível ao afeto do homem negro ante à possibilidade de ser preterido a um homem branco (por uma mulher, que fique claro, também branca), como se todo o mal da doutrina racista fosse, de fato, o mal que Drummond chama o produto quintessente de um laboratório falido. De novo, resíduo: o que está por baixo, o que fica por último. Ainda, acontece aqui uma tensão de gênero que percorre a disputa testosterônica velada entre Loomis e Caleb, e Ann está no centro dela. Loomis, que chega antes de Caleb, assume uma postura machista em relação à Ann exclusivamente quando sente seu território ameaçado: antes disso, seu personagem havia estabelecido com a moça uma coexistência afetiva que, apesar das investidas de Ann, segundo seu julgamento ainda tinha o que amadurar. Aqui está a imbricação homem X animal: se por um lado é possível apontar o machismo de Loomis, (e o machismo está na humanidade, não na natureza) por outro, diante das condições extremas dadas, ele parece entrar num modo de defesa característico dos leões diante de um possível macho beta.

É sobre Caleb, inclusive, que pairam as maiores interrogações do filme. Ele é o personagem que menos tempo dura em exibição, o que nos fornece menos informação, e que acaba funcionando como o gatilho desestabilizador do trio, até o momento em que o filme se encerra com um final ambíguo. Seu personagem é mesmo calcado na ambiguidade: apesar da escassez de informações sobre Ann e John Loomis, o roteiro lhes reserva alguma confiabilidade (talvez por contar com o instinto de preservação da espécie do espectador, que irresistivelmente cogitará a união amorosa desse par), enquanto a Caleb destina uma luz densamente cinzenta. Em algumas críticas sobre o filme, a propriedade na qual Ann vive é associada a um Éden, quer pelo isolamento, quer pela quietude, quer pela beleza da natureza que estranhamente não parece ter sido afetada pela radiação - e, obviamente, pela presença de uma única mulher, que passa a dividir seu espaço com um homem. Isto posto, poderia a presença de Caleb ser a representação da serpente? É tentador que uma investigação sobre o filme ganhe a via do religioso. Todos os personagens têm nomes bíblicos. Ann, por exemplo, é uma variação de Anna, que na bíblia é uma profetiza que antevê o nascimento de, entre outros personagens, Jesus, Zacarias e... de João. (Qual é mesmo o primeiro nome de Loomis?) Ela ganha uma representação antiga na figura de uma mulher idosa, visionária, íntegra. Para além disso, é um nome que começa com a letra A, numa contraposição radical ao título original do próprio filme, Z for Zachariah (Z de Zacarias, que obviamente seria um fiasco em termos de recepção com uma tradução dessas). Zacarias, personagem também bíblico afinal. Aliás, há uma cena discreta que faz uma referência com o nome original do filme por meio de um paralelo. 

Com uma bela curadoria musical, Heather McIntosh traz em seu órgão o tom preciso do luto, solidão, incerteza, e acima de tudo a sensação de esfacelamento que atravessam os personagens de Os Últimos na Terra, equilibrado com o som fanhoso e familiar de uma velha vitrola que tempera a desesperança com lampejos de uma serenidade menos pessimista. O longa guarda, ainda, uma surpresinha apetitosa para os fãs de Tarkovsky. Se em seu filme o russo adiciona uma cor sobrenatural à inocência, - ou à corrupção dela - Zobel tende a um pragmatismo desencantador em sua referência. Sua mensagem, então, parece mais clara, e porque não dizer, mais direta: o fim de tudo é apenas mais um inevitável dia como qualquer outro.