terça-feira, 24 de abril de 2012
Os olhos secretos de Patrícia Aira - Shopping
Eu acho engraçado shopping. Sempre achei. Acho que é um terreno fértil pra realizar algumas dúzias de análises sociológicas, ideológicas, culturais, artísticas, etc e tal. Mas a verdade, o que eu acho mesmo, é que todo shopping é um grande zoológico. Uma feira onde quem grita mais leva o cliente. Um crash de gente - em sua maioria desnorteada até os ossos - pra lá e pra cá, feito ratos de laboratório, estranhos. Passa uma loira. Passam duas loiras. Passa uma criança deficiente. Passa uma família feliz, a mãe cheia de sacolas. Passa um obeso só. Passam três adolescentes muito magras.
As lojas estão sempre cheias. Aliás, esse fluxo incessante de transeuntes é o que edifica as paredes do shopping. Os vendedores e os seus sorrisos automáticos. As araras mostrando a pele nua do seu ombro, olhando pra você. Mas algumas lojas parecem labirintos. Outras parecem areia-movediça de filme de Indiana Jones. As pessoas estão sempre conversando, palpitando, convencendo, vendendo. As pessoas não param.
Praça de alimentação. Acredito que se produza, num único dia, numa única praça de alimentação de shopping, o suficiente para alimentar uma comunidade inteira. Mas o destino de toda essa comida são os estômagos já satisfeitos e podres ou os imensos depósitos de lixo mais próximos. Ainda assim, a barbárie do desperdício não só tem fim como é estimulada nas campanhas coloridas milionárias das maiores redes de fast-food do mundo, restaurantes médios, entre outros da mesma ordem. E a ordem é: EAT! Um menino cobre seu sanduíche com uma imensa camada de molho. Um pai ensina à filha como comer mais devagar. Numa mesa de amigos, aposta-se quem consegue comer mais. Um funcionário limpa a eterna sujeira que gruda no chão todos os dias. Ninguém o vê, ninguém o agradece - afinal, ele é pago para isso.
Todo shopping é, afinal, um cartoon enorme. Uma decupagem gigantesca de coisas aleatórias, coisas de várias naturezas, úteis, dispensáveis. O capitalismo vivo, materializado, supradimensionado, a grande maravilha moderna, máquina de fazer gente feliz. Eficiente redoma psicológica.
Mas é ao sair dele que experimento uma sensação estranha de incômodo, melancolia e liberdade.
quarta-feira, 14 de março de 2012
A penúltima panorâmica
Se você um dia
se sentar sob a grama rala
das encostas que estrategicamente se abrigam
das águas mansas da cidade de Niterói
e girar em torno do próprio eixo
você vai ver
um forte
uma ponte
uns prédios
umas montanhas
uma obra da engenharia
que liga essas montanhas
e outras montanhas
devidamente emoldurados por
barcos pequenos
um céu cheio da chuva que ainda não caiu
e as águas prateadas
mansas e prateadas
sob o morno sol de março
da cidade de Niterói.
se sentar sob a grama rala
das encostas que estrategicamente se abrigam
das águas mansas da cidade de Niterói
e girar em torno do próprio eixo
você vai ver
um forte
uma ponte
uns prédios
umas montanhas
uma obra da engenharia
que liga essas montanhas
e outras montanhas
devidamente emoldurados por
barcos pequenos
um céu cheio da chuva que ainda não caiu
e as águas prateadas
mansas e prateadas
sob o morno sol de março
da cidade de Niterói.
A Dali tree
Primeiro era uma entidade indiana de muitos braços, com cabeça de elefante, que bailava sobre uma perna longilínea enquanto a outra estava suspensa pelo equilíbrio teso de quem passou muitos anos fazendo pliés perfeitos.
Depois era um imperioso espírito da floresta, com um rosto austero, encarando uma intruso que pretendia exterminá-lo. Tinha cabelos revoltos, para intencionalmente assustar seus agressores, mas seu interior abrigaria passarinhos.
Finalmente, era uma árvore qualquer, que havia nascido por acaso, a fazer sombra nos dias quentes para que sob sua copa se sentassem pessoas para uma leitura qualquer, num canto qualquer da universidade.
Depois era um imperioso espírito da floresta, com um rosto austero, encarando uma intruso que pretendia exterminá-lo. Tinha cabelos revoltos, para intencionalmente assustar seus agressores, mas seu interior abrigaria passarinhos.
Finalmente, era uma árvore qualquer, que havia nascido por acaso, a fazer sombra nos dias quentes para que sob sua copa se sentassem pessoas para uma leitura qualquer, num canto qualquer da universidade.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Em 29 de fevereiro
Casem com o melhor amigo, comprem bicicletas, atirem-se do prédio, corram no meio da pista, beijem na boca de um estranho, declarem amor ou ódio, digam uma coisa que nunca disseram antes, escutem uma música que nunca escutaram antes, fiquem nus na janela e dancem, plantem um filho, colham uma cenoura, falem com um desafeto, pintem as paredes do quarto de roxo, roubem um banco, peçam desculpas, joguem no bicho, xinguem seus chefes, vão à praia de terno, queimem o jornal de ontem, pisem na grama, cortem o cabelo, coloquem um piercing na língua.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A menina mais bonita do mundo
A menina mais bonita do mundo vai passar nessa esquina em cinco minutos. ¹
²
A outra menina mais bonita do mundo está deixando um supermercado apressada e meio desajeitada, com umas sacolas pesadas na mão esquerda enquanto um fio de suor lhe corre a testa. A outra ensina a prima mais nova, outra futura menina mais bonita do mundo, a pular corda. Já uma outra dedica duas horas do seu dia num livro de capa azul por detrás de uns óculos de aros grossos. Em outro canto do mundo, outra menina mais bonita do mundo só tem seus olhos castanhos à mostra. Uma outra menina mais bonita do mundo eu vi outro dia na praia, puxando delicadamente o biquini para fora do bumbum, retirando a areia.
A menina mais bonita do mundo subiu em cima de uma balança e não gostou do que viu. A menina mais bonita do mundo está pondo o lixo para fora de casa enfiada num short jeans surrado que ganhou há mais de cinco anos. Outra menina, também a mais bonita do mundo, está chorando porque vai chegar atrasada na sua primeira entrevista de emprego. Uma outra chegou com muito calor da rua, tirou toda a roupa e está andando nua pela casa. Abriu a geladeira e tomou água no gargalo da garrafa.
A menina mais bonita do mundo passeou com o cachorro hoje cedo, deu-lhe de comer e dormiu depois, enquanto outra menina, ao mesmo tempo, levou um tombo e machucou a perna. Há outra menina mais bonita do mundo dentro do ônibus escutando uma música em um outro idioma, uma que está tomando banho de chuva e imaginando que a água que cai pelo seu corpo sãos os milhares de beijos gelados de seu namorado, e também uma, que mora no final da sua rua e que ontem comprou uma blusa de algodão e experimentou-a quando chegou em casa.
Nenhuma delas saiu numa dessas revistas de meninas mais bonitas do mundo, e todas elas estão respirando enquanto você lê este texto.
1 - O texto surgiu a partir da frase de um amigo, a primeira que aparece.
2 - A menina mais bonita do mundo na foto chama-se Mayara Duarte de Moraes.
²A outra menina mais bonita do mundo está deixando um supermercado apressada e meio desajeitada, com umas sacolas pesadas na mão esquerda enquanto um fio de suor lhe corre a testa. A outra ensina a prima mais nova, outra futura menina mais bonita do mundo, a pular corda. Já uma outra dedica duas horas do seu dia num livro de capa azul por detrás de uns óculos de aros grossos. Em outro canto do mundo, outra menina mais bonita do mundo só tem seus olhos castanhos à mostra. Uma outra menina mais bonita do mundo eu vi outro dia na praia, puxando delicadamente o biquini para fora do bumbum, retirando a areia.
A menina mais bonita do mundo subiu em cima de uma balança e não gostou do que viu. A menina mais bonita do mundo está pondo o lixo para fora de casa enfiada num short jeans surrado que ganhou há mais de cinco anos. Outra menina, também a mais bonita do mundo, está chorando porque vai chegar atrasada na sua primeira entrevista de emprego. Uma outra chegou com muito calor da rua, tirou toda a roupa e está andando nua pela casa. Abriu a geladeira e tomou água no gargalo da garrafa.
A menina mais bonita do mundo passeou com o cachorro hoje cedo, deu-lhe de comer e dormiu depois, enquanto outra menina, ao mesmo tempo, levou um tombo e machucou a perna. Há outra menina mais bonita do mundo dentro do ônibus escutando uma música em um outro idioma, uma que está tomando banho de chuva e imaginando que a água que cai pelo seu corpo sãos os milhares de beijos gelados de seu namorado, e também uma, que mora no final da sua rua e que ontem comprou uma blusa de algodão e experimentou-a quando chegou em casa.
Nenhuma delas saiu numa dessas revistas de meninas mais bonitas do mundo, e todas elas estão respirando enquanto você lê este texto.
1 - O texto surgiu a partir da frase de um amigo, a primeira que aparece.
2 - A menina mais bonita do mundo na foto chama-se Mayara Duarte de Moraes.
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