quarta-feira, 2 de março de 2011

O presente obsoleto

         Foi lançado, nos últimos dias, o último álbum da banda britânica Radiohead, "The King of Limbs". Particularmente, nada tenho contra o trabalho do dançarino Tom Yorke e companhia, tampouco admiro o som. Mas acontece que, ao saber de tal lançamento, pensei no meu namorado, ardoroso radioheadico, e cogitei comprar o álbum para presenteá-lo. Daí, parei por um instante, e voltei atrás: quem dá CD de presente nos dias de hoje?
         Eu ainda me lembro da época em que CD era presente. Presente muito bom, aliás. Era, inclusive, a época em que os móveis de sala-de-estar eram vendidos com aquelas colunas medonhas que pareciam o esqueleto de alguma criatura paleozóica, destinados a comportar os CD's. Mas, conforme passaram os anos, a década de 2000 engoliu este esférico artefato.
          Tive muitos CD's. E a sessão shame-on-my-past é extensa. Xuxa, É o tchan, Fat Family, Spice Girls, Ricky Martin, todos figuravam, felizes, entre os meus it-pertences. Outros tempos. Tempos em que o Google não me dava bom dia e nem me punha para dormir. Para ouvir as músicas novas das bandas que eu gostava, era preciso ouvir rádio. Quando não, dispor de fita cassete - metros, muitos metros de fita magnética para contar história. Não vou entrar no mérito, mas a internet facilitou bastante a vida das pessoas. Para o bem e para o mal. Me lembro que ouvia uma música incrível na rádio, e, por não ter como procurá-la para ouvir novamente, ficava muito tempo com seu refrãozinho tocando na minha cabeça. Hoje, com uma rápida pesquisa em tags, é possível encontrar o ano de lançamento, intérpretes, história; tudo. Não sei se é só uma impressão isolada, mas as músicas me soam muito mais cansativas. Esse processo acelerou a oxidação da música. Acabou-se aquela gostosa inquietação de esperar. Acabou a espera.
           Mas a estrela - ou seria, hoje, só uma anã-branca? - da postagem é o CD. Aquele elemento espelhado, com um furinho central, que já fez tanta gente sacudir o esqueleto dançar nos 90's, e hoje adorna, suspenso no ar por fios de nylon, a decoração de algumas festas prosaicas. E hoje, assim, sem mais nem porquê, me dei conta da silenciosa extinção do compact disc.
           Coincidente e ironicamente, me lembro da última vez que dei, de presente, um CD a alguém. Tem pouco tempo. Foi para um namorado old school que tive que, à época, ainda tinha em seu quarto um daqueles rádios com leitor para CD's. Tenho minhas dúvidas se ainda fabricam rádios assim. E você, leitor? Será que é capaz de se lembrar qual foi o último CD que deu para alguém, ou mesmo que tenha "se dado"? Na era D.G - leia-se Depois do Google -, isto é impensável.
            E fiz bem ao conter minha boa-intenção em agraciar meu namorado com tal peça. Ao interrogá-lo sobre o lançamento do novo álbum da banda em questão, ele me respondeu, prontamente, que já havia baixado. Lembrei, nesse instante, que foi justamente essa banda a pioneira na extinção da era-CD, disponibilizando o conteúdo de sua obra via download por um valor modesto.
            Fiquei quietinha. E economizei trinta reais.

2 comentários:

Carolina Chamiso disse...

Uauuu... isso me fez lembrar exatamente minha adolescência que (por sinal) foi parecida com a sua. Por acaso tem entre 22 a 25 anos? hehehe... Vc sabe que o último CD que lembro ter comprado foi há 1 ano e era das meninas do "Samba de Rainha". Comprei o CD em um bar no Itaim Bibi e só o fiz porque gostei da banda e sabia que pela internet eu não iria conseguir baixar o álbum. O CD tb não estava caro, acho que 15 ou 20 pilas.
Mas eu acho que o costume de comprar CD se perdeu assim como o de comprar som. Quem mais compra som em uma Era onde a TV tem até internet??... rss

Belo post... abç!

Ritinha disse...

Ainda hoje comprei um cd para oferecer, o meu namorado ama música e uma banda em especial, e há certas bandas que ele gosta de ter o cd!

Abraço