terça-feira, 28 de abril de 2020

Estátua

Abro um olho pela
pedra
do anel que esqueci
sobre tua mesinha
entre teu computador e papéis avulsos
insuspeito te espiona

testemunho, assim,
os animais noturnos em teus olhos
acesos
escravos do escrol
a curvatura mansa das tuas costas
inimportunáveis pelos cacos de luz
das duas da tarde

acompanho teu estado
de contemplação pétrea
diante daquele filme
a gordura da cegueira que se acumula
nos teus óculos
a humana limpeza de tuas narinas
viajo pelos rios anêmicos do teu peito
descoberto
e até participo dos teus monólogos
acho que não, Hitler não era nenhum gênio,
o sapato preto fica melhor, etc.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Folie Imposée/ Divertimento Forçado

desce a mão burocrática
em obrigação noturna

mas também pensa
que é sonho
se não sabe
anda por mapas invertidos
recolhendo aspas
pedaços e peças perdidos

se o sonho é outro lugar
que apaga a firmeza do chão

monta ondas estrangeiras
de nuvens verdes e grosseiras
luta mortal contra uma deusa
alquebrada

asfixia a vista - assim morrem as imagens -
um universo opressor de pontos pintados
aqui e ali torcendo
todas as antigas geometrias
explodindo fogos de artifício
no céu da boca aberta

desce a mão noturna

cava a terra das pernas em busca
cega
da água da lama do ouro
dos vermes das folhas e outras coisas
sem olhos

o que traz de lá não conta
retira-se humilde
e não fecha a porta