sábado, 24 de setembro de 2016

Longos pretos brancos francos

eu quero ser uma mulher
eu quero ser uma mulher de longos cabelos
pretos
brancos
francos

quando me disserem que já não tenho idade

quando me mostrarem uma foto
da judi dench e me disserem

esse cabelo ficaria bonito em você

quando as crianças me olharem na rua
e não se sentirem netas

eu quero ser uma mulher de longos cabelos brancos pretos francos
e talvez até meio embaraçados

numa cabeça onde eles estejam confortáveis
crescendo, ainda,
na direção que quiserem

quero ficar enérgica com o síndico
e poder deslizar as mãos quentes pelo cabelo
quero fazer uma trança
unindo o tempo nas madeixas
e ir ao casamento do sobrinho
quero desarrumar esse coque comportado antes de fazer amor

e quando na fila do banco me esperar
uma cadeira marcada

ou ao telefone vozes anônimas me oferecerem seguros de vida

e nas sessões de vestuário eu achar meu peito dentro
de um corte sufocante

em algum momento

quando me mostrarem uma foto da judi dench e me disserem

esse cabelo ficaria bonito em você

responderei com o corpo todo

eu quero ser uma mulher de cabelos pretos brancos francos
e até meio embaraçados.

Para Cinda Gonda, Sonia Braga e Maria Bethania

Poema tirado de uma noticia no radio

Debaixo da luz beliscada
da cidade baixa
um carregamento de eletroeletronicos
da companhia Cometa
foi assaltado na rua Mercurio

e conforme o locutor do radio
ia narrando o caso
eu fiquei pensando
nas milhares de luzinhas quentes
faiscando desse encontro, no mínimo,
oportuno

sábado, 17 de setembro de 2016

Quinto Encontro do Grupo dos Veteranos

meu pai escolheu
a melhor gravata
aposentado
no sábado antes das 9
estava acordado

regou as plantas na varanda
deu de comer aos pássaros

nove horas e meu pai
fazendo torradas
perfeitamente quadradas
perfeitamente douradas
e também café e organizando a mesa

meu pai gosta de comerciais

os cremes no banheiro
brancos
todos os cremes do banheiro ou são brancos
ou amarelos
ou levemente azuis
e quando abertos cheiram
a misturas que terminam com nomes
de compostos químicos
de tão grandes,
germânicos

onze horas e meu pai
tábua posta no umbigo
a quentura do ferro testada na ponta
dos dedos
meu pai assovia
a mesma canção de sempre

sem paciência minha mãe se queixa
da água derrubada pelo chão
dando formato às pegadas
meu pai,
os olhos encolhidos de criança
beijam até seus palavrões

paulinho da viola canta na cozinha
uma canção sobre indiferença

meu pai tem cabelos muito cheios e pretos
e bem penteados para trás
uma flor invisível na mão esquerda
bolo de milho na direita
hoje é o quinto encontro da turma do ginásio
meu pai encontrará amigos
alguns bebendo, alguns mentindo
sobre sucesso mulher e filhos
a petrobrás e o lula enquanto
um amigo defenderá a polícia
o outro gritará fora temer
e no fundo do salão verá sua primeira namorada
e a filha que ela teve mexendo no celular
a filha que ela teve não sou eu

taiguara canta na cozinha
uma canção sobre o tempo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Por excesso

Apaixonadamente perdida
eu sou de vagar
A rua é um grande rio de concreto
duro
escuro
que eu gosto de navegar

Perdida
A noite como casa
A lua como reflexo
Todos os espíritos da escuridão
meus amigos

O chão conhece os passos
fotografa o calor dos abraços convertendo
essa luz macia e intensa
por dentro
empurrando-a
na unha dos paralelepipedos

A noite como casa
Certos mamíferos só podem ver no breu
A cor-de-âmbar dos copos de cerveja
Bebedouro de cristão
Bebedouro de ateu

A noite é uma casa de muitos cômodos
E portas trancadas

A lua como reflexo
internas rotações
O satélite na órbita dos olhos
Uma supernova na língua
A cabeça impossível
Desobediente da lógica

Apaixonadamente perdida enquanto
cada estrela é o ponto
de um manto
Por sob a mão nas minhas costas
pesa toda a benção e pranto
do que é maior que o mundo humano

Meu caminho desenha meu destino,
eu não

Tem rosa e vela na esquina,
desatino,
eu vou

Lascas de estrela talvez contem um dia
O que o olho nu perde, não vê,
não pede
É de força e resistência esse chamado
não é pra quem quer

Apaixonadamente perdida
eu sou de vagar
a vida é um rio extenso
que eu gosto de navegar.

Para Luciana,
cigana que hoje é luz.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Aquarius - de espaços, memória e disputas

Ao pensar Aquarius, o mais recente longa de Kleber Mendonça Filho, é oportuno dizer que, antes de qualquer coisa, Kleber é um ficcionista recifense. Isto posto, podemos abrir as cortinas.

Existe uma lenda de que os filmes de Quentin Tarantino, na verdade, seriam o conjunto de um filme só. Talvez a parte menos interessante disso seja o esforço em provar essa possível verdade, mas degustar a hipótese, que por si só, é no mínimo capciosa. É no mínimo tentador dizer que com o cinema de Kleber Mendonça Filho não é diferente. Os muitos signos do diretor se copiam de um filme a outro, e nesta cópia acontece uma extensão, um prolongamento, que faz com que esta atitude nunca se reduza a uma mera reprodução ou reciclagem pura e simples. A gratuidade, aqui, não existe.

Em Aquarius, são depositadas, sutilmente, senhas aqui e ali para quem já foi anteriormente apresentado ao seu cinema. Quem tem em Aquarius sua primeira viagem com o diretor, no entanto, não perde a experiência da torrente sensorial que ele maneja, provocando, convidando o telespectador a interagir com o filme da vez.

Como de costume, Mendonça Filho nos introduz Aquarius com uma grossa laca de cor local. Somos apresentados a uma Recife que se colore aos poucos, até literalmente saturar, numa galopada cronológica em três partes. No corpo do filme está Clara, uma jornalista voltada à cultura musical - poderosamente encarnada por Sonia Braga - que se vê diante de um problema quando uma construtora tenta, de todas as maneiras, fazer com que ela venda seu apartamento para que a mesma finalize a compra de todo o prédio afim de ter total controle da propriedade. Acontece que Clara não parece estar muito disposta a vendê-lo, e já nos primeiros quinze minutos de filme somos sensivelmente informados do porquê.

O mote de Aquarius guarda alguma semelhança com o longa do russo Zvyagintsev, Leviatã, de 2014. Apesar de seus desdobramentos diferirem ao longo da narrativa, ainda temos, aqui, uma disputa entre forças desiguais. O enfrentamento se dá em nível de gênero, etário, social; e a tensão constante é concebida afim de gerar desconforto a quem assiste. Consonante a isso, Mendonça Filho carrega na assinatura, adicionando, na linha do conflito, os elementos já tão particulares de sua ficção, pelos quais tem um apreço notório já desde Enjaulado, de 1997. Nestas inserções potentes, o cineasta se mostra um grande semiotizador de objetos, um profundo conhecedor da sociedade recifense (colocada aí como um provável mosaico do Brasil inteiro), e um mestre na arte das lacunas.

Mendonça Filho constrói uma narrativa que tem na memória uma forte referência. Para além disso, a vivacidade dessa memória perpassa o comportamento das personagens. A memória de tia Lúcia é transferida à Clara. A memória de Clara é transferida à filha, ainda que ganhe outros contornos, o que nos leva a uma conclusão óbvia a essa altura: a memória é justamente o que está na base das estruturas daquele apartamento - daí a recusa de Clara em deixá-lo. A memória também funciona como um bom gancho para ilustrar a passagem do tempo, dentro e fora da narrativa - estamos diante de um diretor que gosta de cenas de aniversários.

Se em O Som ao Redor Mendonça Filho explorou ao máximo toda a potencialidade do ruído dentro do filme, em Aquarius, a ligação com o som existe, mas por menções à música em si, à presença da música em si; ora furando a diegese, ora funcionando como pontuadora de momentos calorosos ao longo da película, ora enquanto por via da trilha sonora. Aqui, é a música ao redor e sua propriedade de dizer quando os atores se calam. Como dito, Clara é uma jornalista voltada à cultura musical, e construiu sua carreira sobre isto, portanto, é bastante natural a relevância que Mendonça dá a este ponto, uma relevância quase, mas nunca excessiva.

Aquarius também é um filme marcado pela questão do espaço, sobretudo o trânsito dentro do espaço. É um filme sobre limites - por favor, não só - espaciais e ultrapassagens que são colocados, bem à moda do diretor, num prosaico contexto de vizinhança. Essa situação dá origem a outros tópicos, onde se observa a questão da vigilância, da segurança, do voyeurismo. E Mendonça Filho é um tremendo voyeur, que parece ter prazer em conduzir seu público nessa direção; torná-lo voyeur também. Esse olhar é algo que o diretor estende ao avizinhamento. Ele parece se sentir sempre muito à vontade para trazer para as telas a parte suja que fica por sob o tapete das relações entre vizinhos, mas nesse caso, a protagonista de Aquarius está só. Como se dá isto, então? Basta que se preste atenção aos vizinhos imediatos de Clara, no caso, os agentes da construtora Bonfim. Eles são os vizinhos incômodos.

São esses vizinhos incômodos com os quais Clara é obrigada lidar que desnudam a face escrota dos acumuladores de propriedade privada, vulgo empreiteiras e construtoras, o que agrava o tom político do filme - ALÔ ODEBRECHT! O cinismo e a falta de escrúpulos dos agentes da construtora encontraram num promissor Humberto Carrão seu rosto certo, que é jovem, voraz, de fala macia, homem e branco. Ainda, é justamente a falta de escrúpulos da Bonfim Construtora o que gera o momento catártico de Aquarius, que sem dúvida estabeleceu sua posição como uma das mais belas e significativas cenas do cinema brasileiro. Já está na história.

Kleber Mendonça Filho, mais uma vez, brinda as audiências com um cinema que dialoga profundamente com sua terra e seu tempo, sem cair numa panfletagem óbvia, por saber dançar, e bem, entre temáticas variadas. Com isso, inscreve seu nome como um grande ficcionista e realizador de cinema brasileiro - e recifense.

Sempre recifense.