quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Aquarius - de espaços, memória e disputas

Ao pensar Aquarius, o mais recente longa de Kleber Mendonça Filho, é oportuno dizer que, antes de qualquer coisa, Kleber é um ficcionista recifense. Isto posto, podemos abrir as cortinas.

Existe uma lenda de que os filmes de Quentin Tarantino, na verdade, seriam o conjunto de um filme só. Talvez a parte menos interessante disso seja o esforço em provar essa possível verdade, mas degustar a hipótese, que por si só, é no mínimo capciosa. É no mínimo tentador dizer que com o cinema de Kleber Mendonça Filho não é diferente. Os muitos signos do diretor se copiam de um filme a outro, e nesta cópia acontece uma extensão, um prolongamento, que faz com que esta atitude nunca se reduza a uma mera reprodução ou reciclagem pura e simples. A gratuidade, aqui, não existe.

Em Aquarius, são depositadas, sutilmente, senhas aqui e ali para quem já foi anteriormente apresentado ao seu cinema. Quem tem em Aquarius sua primeira viagem com o diretor, no entanto, não perde a experiência da torrente sensorial que ele maneja, provocando, convidando o telespectador a interagir com o filme da vez.

Como de costume, Mendonça Filho nos introduz Aquarius com uma grossa laca de cor local. Somos apresentados a uma Recife que se colore aos poucos, até literalmente saturar, numa galopada cronológica em três partes. No corpo do filme está Clara, uma jornalista voltada à cultura musical - poderosamente encarnada por Sonia Braga - que se vê diante de um problema quando uma construtora tenta, de todas as maneiras, fazer com que ela venda seu apartamento para que a mesma finalize a compra de todo o prédio afim de ter total controle da propriedade. Acontece que Clara não parece estar muito disposta a vendê-lo, e já nos primeiros quinze minutos de filme somos sensivelmente informados do porquê.

O mote de Aquarius guarda alguma semelhança com o longa do russo Zvyagintsev, Leviatã, de 2014. Apesar de seus desdobramentos diferirem ao longo da narrativa, ainda temos, aqui, uma disputa entre forças desiguais. O enfrentamento se dá em nível de gênero, etário, social; e a tensão constante é concebida afim de gerar desconforto a quem assiste. Consonante a isso, Mendonça Filho carrega na assinatura, adicionando, na linha do conflito, os elementos já tão particulares de sua ficção, pelos quais tem um apreço notório já desde Enjaulado, de 1997. Nestas inserções potentes, o cineasta se mostra um grande semiotizador de objetos, um profundo conhecedor da sociedade recifense (colocada aí como um provável mosaico do Brasil inteiro), e um mestre na arte das lacunas.

Mendonça Filho constrói uma narrativa que tem na memória uma forte referência. Para além disso, a vivacidade dessa memória perpassa o comportamento das personagens. A memória de tia Lúcia é transferida à Clara. A memória de Clara é transferida à filha, ainda que ganhe outros contornos, o que nos leva a uma conclusão óbvia a essa altura: a memória é justamente o que está na base das estruturas daquele apartamento - daí a recusa de Clara em deixá-lo. A memória também funciona como um bom gancho para ilustrar a passagem do tempo, dentro e fora da narrativa - estamos diante de um diretor que gosta de cenas de aniversários.

Se em O Som ao Redor Mendonça Filho explorou ao máximo toda a potencialidade do ruído dentro do filme, em Aquarius, a ligação com o som existe, mas por menções à música em si, à presença da música em si; ora furando a diegese, ora funcionando como pontuadora de momentos calorosos ao longo da película, ora enquanto por via da trilha sonora. Aqui, é a música ao redor e sua propriedade de dizer quando os atores se calam. Como dito, Clara é uma jornalista voltada à cultura musical, e construiu sua carreira sobre isto, portanto, é bastante natural a relevância que Mendonça dá a este ponto, uma relevância quase, mas nunca excessiva.

Aquarius também é um filme marcado pela questão do espaço, sobretudo o trânsito dentro do espaço. É um filme sobre limites - por favor, não só - espaciais e ultrapassagens que são colocados, bem à moda do diretor, num prosaico contexto de vizinhança. Essa situação dá origem a outros tópicos, onde se observa a questão da vigilância, da segurança, do voyeurismo. E Mendonça Filho é um tremendo voyeur, que parece ter prazer em conduzir seu público nessa direção; torná-lo voyeur também. Esse olhar é algo que o diretor estende ao avizinhamento. Ele parece se sentir sempre muito à vontade para trazer para as telas a parte suja que fica por sob o tapete das relações entre vizinhos, mas nesse caso, a protagonista de Aquarius está só. Como se dá isto, então? Basta que se preste atenção aos vizinhos imediatos de Clara, no caso, os agentes da construtora Bonfim. Eles são os vizinhos incômodos.

São esses vizinhos incômodos com os quais Clara é obrigada lidar que desnudam a face escrota dos acumuladores de propriedade privada, vulgo empreiteiras e construtoras, o que agrava o tom político do filme - ALÔ ODEBRECHT! O cinismo e a falta de escrúpulos dos agentes da construtora encontraram num promissor Humberto Carrão seu rosto certo, que é jovem, voraz, de fala macia, homem e branco. Ainda, é justamente a falta de escrúpulos da Bonfim Construtora o que gera o momento catártico de Aquarius, que sem dúvida estabeleceu sua posição como uma das mais belas e significativas cenas do cinema brasileiro. Já está na história.

Kleber Mendonça Filho, mais uma vez, brinda as audiências com um cinema que dialoga profundamente com sua terra e seu tempo, sem cair numa panfletagem óbvia, por saber dançar, e bem, entre temáticas variadas. Com isso, inscreve seu nome como um grande ficcionista e realizador de cinema brasileiro - e recifense.

Sempre recifense.






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