sábado, 1 de junho de 2019

Amor-de-aqui

Estou pensando em escrever um poema de amor profundo
como tantos outros
vou desembrulhando palavras
cavuco o avesso
monto o verso

Tateio com as aranhas do pensamento tuas hesitações de charles manson
ali mansinhas
no canto negro do olho
no ponto cego do recorte desse frame pleno
na sala de estar
teu sorriso de monalisa a dois
pesados quilômetros no mesmo sofá

Perscruto - só uma palavra
tão feia para um ato tão ignóbil -
Perscruto com ignóbeis pinças uma forma
a forma
de te fazer gritar
de te expurgar a raiva
mais me interessa a dor visível nessas horas
que vem com água e dispensa
a formalidade cordial das despedidas

(você sabe que sempre gostei das violências)

problemas astrológicos
o tempo, sempre Ele
10 anos ou 6 meses e esta tarde
é cedo ainda
na vida gentil dos intervalos
gratidão, diz a Internet
em verdade o grande mantra
que deveria forrar o chão da experiência
nessa tarde com metálico gosto
de ponto cirúrgico
na qual o tempo se organiza
com a mesma exatidão que nascem as estrelas

Eu ainda penso em escrever um poema de amor sincero
E despido de vaidade
e tudo o que encontro no caminho
são os escombros de expectativas mal plantadas
Regadas com a água doce do desejo
O desejo fino de inaugurar um mundo
O desejo legítimo de inaugurar um mundo
Vão saber os deuses
E estetas da métrica
Não é esse o amor?

Não é esse o amor que me aturdiu
Que abriu no céu de novembro a luz
bela e agressiva das tempestades?
Não é esse o amor que enfeita esperas
que não conhece oponente à altura?

Eu pensei em escrever um poema de amor-de-aqui
aqui é o lugar que conheço
aqui pode ser profundo e sincero
e talvez o tenha encontrado como encontrei
tudo aquilo que não procurei
são evoluídas as coisas que surgem sem propósito
com a mesma exatidão que nascem as estrelas.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

I was there in the world

Eu também fui uma dessas mulheres que saiu de casa sozinha no dia 29 de setembro. Com um cartaz, sem adesivos, tomei um metrô que, já pelas adjacências, florescia todo em violetas, em rosas brancas. Meço a temperatura nos olhares, nos sorrisos; é amena, me faz sentir em casa. Há, ainda algo tímida, uma confiança compartilhada, silenciosa e tácita se espalhando na estação de Vicente de Carvalho. Vejo mães, filhas, avós. Conversam umas com as outras, fazem selfies, se abanam do calor que está chegando. Uma delas me dá um adesivo com uma mensagem.
Há que afiar os ouvidos para notar quando a vida ganha um corpo maior que o nosso e nos sussurra, bem baixinho, sua torrente de força. Sua verdade. Tomo o metrô, e meu olhar encontra o de uma mulher, que como eu, saiu sozinha de casa no dia 29 de setembro. Não precisamos, mas sorrimos uma para a outra, e tecemos o velho e necessário fio de prosa que nos mantém humanos. Ela me conta um pouco de sua vida. Também é da educação. Também acredita que pode mudar alguma coisa. Tem os olhos tão brilhantes, a boca pintada e um sorriso que vai se abrindo devagar. Próxima estação, Inhaúma. O vagão vai inchando de um enxame de caras e cabelos coloridos. Ela diz que não se sentiu segura ao sair de casa com uma camiseta que identificasse seu propósito naquele dia principalmente porque estava grávida. "Grávida?", pergunto. Sim, havia descoberto há 3 dias. Próxima estação, Maria da Graça. Uma pequena semente, ainda invisível a olho nu, crescendo dentro dela no meio de uma também crescente multidão em curiosa espécie de metagravidez, marias de tantas graças por ali. De repente seu marido, motorista autônomo, a encontraria mais tarde. Penso no meu pequeno sobrinho, e como certos pensamentos precisam virar palavra, falo um pouco dele. De alguma maneira, ele também está no tênis que calcei nos pés, no cartaz que escrevi, na minha decisão de sair de casa em 29 de setembro. Algo muito profundo está acontecendo, algo que a compreensão falha ao tentar entender.
Estácio, estação de transferência. Na capilaridade da estação em si, uma reunião de pessoas dos mais diversos matizes, idades, estradas. Uma turba dessas é um organismo só, a uma só voz, se orquestrando num ajuntamento que faz com que sua força supere até mesmo seu grande número. Saímos, eu na frente, que sei o segredo escondido dos olhos do resto, aquele pequeno feto em formação. Sem sexo, só o registro de uma existência em botão.
Próxima estação, Cinelândia.
Nada na minha vida até aqui foi como pôr meus pés na Cinelândia em 29 de setembro, ainda dentro da estação. Por algumas vezes na vida pude, sim, sentir uma forte energia, orientada por outras razões, fosse carnaval, jogo do meu time, uma procissão em direção à praia em dia de alto verão. Mas nada como esse dia. Uma horda de pessoas, corações em uníssono: Ele Não. A vibração me atinge da cabeça aos pés e me eletrifica, derrubando dos meus olhos fracos lágrimas sem resistência. Eu abraço minha companheira de percurso, e o clichê é a mais pura verdade: um mais um é sempre mais que dois. Nós vamos juntas. Nós subimos juntas essas escadas, de mãos dadas. Uma senhora pede licença. Penso em minha avó. Como pesam essas cores de esperança, uma esperança que, não havia me dado conta, vinha sendo abafada pela maré de más notícias. Com que intensidade me tomam. Vivi até aqui pra viver esse momento. A mulher é a árvore da vida, portanto a árvore da história. Talvez isso por si já fosse bonito o suficiente, mas nessa corrente humana experimentei uma coisa que mudou pra sempre minha relação com as outras mulheres. Cada uma, um espelho. E os espelhos, quando recebem luz, luz devolvem. Pequena, pude ser imensa, vestida do orgulho que só a consciência sobre o meu gênero pode me dar. Nunca antes amei tanto ser mulher. O Sagrado Feminino, meus caros, é real, e respira, e pulsa. Não se pode matar, não se pode controlar.
O resto desse dia estará fartamente documentado em fotos e vídeos propagados como fogo em mato seco nos jornais, revistas, portais de toda espécie e orientação ideológica. Essa é a grande história. Quanto a mim, posso dizer da pequena, que nem por isso é menor.

Eu avisei

A isenção imediata da responsabilidade civil dos votantes em Bolsonaro - e o que isto diz diretamente sobre o processo eleitoral
Praia do Leme, sol de primavera quente no rosto. Tenho minha leitura interrompida pelo ruído animado de uma conversa de três mulheres ao meu lado. Duas delas argumentam pacientemente com a terceira sobre eleições. A terceira pretende votar em Bolsonaro, e entre os medos que elenca, primordialmente se sobressai aquele do Brasil se tornar uma Venezuela no caso de uma possível vitória de Fernando Haddad. É quando, provocada, peço licença e entro no assunto. Sou bem recebida, e entre uma cerveja e outra (que elas me oferecem), desvelo um pouco da realidade daquelas mulheres que, como eu, não são moradoras de Copacabana, mas do subúrbio. Três mulheres absolutamente amáveis, expansivas, com históricos de vida relativamente semelhantes. Uma delas perdera um filho de 18 anos numa tentativa de assalto, e durante a conversa esse é um assunto que vem à tona em variados matizes, quer no registro da segurança pública ou na pura e simples saudade. Esta havia votado em Ciro no primeiro turno, e tentava convencer a amiga que Bolsonaro não traria a solução que ela esperava. "É só olhar pra ele, menina. Uma cara ruim, fechada; um tom agressivo até pra falar de coisa boa. Tá doida ela!". Mas a amiga insistia, e entre uma frase automática e outra desconversava, escorregando o tópico para a série na academia, o marido, os netos.
Umas das minhas decisões para tentar virar o jogo que infelizmente não consegui foi de me imiscuir em todo e qualquer debate ou promover o diálogo com pessoas que manifestassem simpatia pelo presidente eleito. Foi uma jornada entre barcas, metrôs, pontos de ônibus, vans, praias. A falta de intimidade com desconhecidos é uma ferramenta útil. Coloca o necessário muro social sobre o qual as pessoas geralmente se tratam com educação e ressalva, coisa que as telas dos smartphones ou o excesso de intimidade entre amigos não permite. Durante esse conturbado processo eleitoral, marcado por uma campanha evidentemente caluniosa, muitas palavras gastaram-se, e em algumas outras pouco se falou. Gastou-se a palavra "fascista". Gastou-se a palavra "nazista". "Racista" também entra nessa conta, e o flagrante desse desgaste é notório (e preocupante) quando eleitores de Bolsonaro conseguem incluir, no mesmo campo semântico que estas, a palavra "taxista". Mas chamo atenção aqui para o maior desgaste que pude observar no período que, dois dias após a eleição, mostra sua esperada face: a nulidade da responsabilidade discursiva, a grande protagonista das eleições no Brasil em 2018. A isenção imediata da responsabilidade civil dos votantes em Bolsonaro.
Isso fica bastante claro na grande festa realizada em alguns lugares no Brasil. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, bairro onde reside o futuro presidente, testemunhou-se uma cena comparável apenas à que seria possível caso o Brasil não tivesse sido eliminado pela Bélgica nas quartas da copa do mundo, em junho. Porque se tratava precisamente disso: jogo e fé. Assim, fica claro o papel da política para quem elegeu Bolsonaro. Estes indivíduos levam a política literalmente como uma partida de futebol, que acompanham devidamente uniformizados. Encerrados os 90 minutos - cabe dizer, de um jogo crivado de faltas graves, muitos cartões vermelhos e amarelos, arbitragem absolutamente questionável - sequer há possibilidade para os acréscimos. Voltam pra normalidade das suas vidas, porque afinal, nunca foi sobre discussão de propostas, combate à corrupção, engajamento real (sobretudo físico) troca de saberes. Numa conversa que tive com um amigo, tentei mostrar a ele que não, futebol, religião e política não podem estar no mesmo domínio porque política é ciência, e deve ser sempre discutida como tal: com fatos, dados, análise de conjuntura histórica, leituras obrigatórias; ponto que reforcei exaustivamente durante os últimos meses em outras conversas. Sem muito sucesso, como visto.
Decerto: erros foram cometidos dos dois lados. Lula e Bolsonaro se transformaram no que pior podiam para qualquer debate que se pretenda verdadeiramente político: mitos. A criação do mito dentro do espectro político enseja, sem surpresas, uma guerra puramente egóica na qual falta substância, sobra meme e pela qual todos pagamos, aqui e ali com pequenas diferenças. Autocrítica, ao que parece, nunca foi uma palavra tão distante e nunca antes todo um país precisou tão urgentemente ir para o divã de maca. Entretanto, é digno de nota o comportamento do eleitor regular de Bolsonaro no que toca a responsabilidade civil de seu voto: para eles, acabou na urna, e que o mito faça, sem supervisão, o que prometera - afinal, basta a confiança depositada na urna, num número, o número em si uma abstração.
Hoje pela manhã mandei, por whatsapp, uma mensagem para minha amiga da praia que votou no candidato vencedor. Na mensagem, constava uma declaração formal de Maduro, então presidente da Venezuela, felicitando o presidente por sua eleição. Anexei à imagem um comentário, "é possível que isso te interesse", e a resposta foi que eu estava equivocada, afinal, ela era brasileira, e não venezuelana, e que era melhor parar com esse papo chato. Pela internet, vi comentários no mesmo tom, "avisa que a eleição já acabou", "chora mais", "é mimimi de perdedor". É disso que se trata: o mito produz o mimo. O que as pessoas que votaram em Bolsonaro não parecem entender é que a eleição é apenas um momento de um processo democrático contínuo, e que demanda vigilância constante. O debate faz parte disso, naturalmente, mas o que esperar dos eleitores de um líder que limita sua projeção no grande (e no pequeno) ecrã, um líder quase holográfico?
É natural o reflexo do comportamento de um líder como esse em seu eleitorado. Mas transformo numa pergunta a afirmação de um artista contemporâneo: será que meninos mimados podem reger a nação?

domingo, 16 de setembro de 2018

Perto do real

Debaixo
das muitas águas que cobrem o umbigo do mundo
há anos se confundiu a cidade perdida dos atlantes
com a arquitetura enigmática que deixou
o rastro de uma imensa criatura
imenso seu rabo de fogo
espalhando luz e morte e vida naquele dia

Aqui havia um cravo
um temível cravo feito de poeira e trânsito
cozido em gordura e sangue
que espremi até o último golfo com a pinça das unhas
até que restasse apenas a
impressão vermelha da força dos dedos
tão hábeis e impiedosos

extinto o cravo, por certo extinto
não leva consigo sua casa

Quando é frio
na cicatriz da dor eu sinto
só alguma coisa
não incomoda não faz rir e nem machuca
qualquer matéria escura
que recusa a palavra
só alguma coisa onde houve
uma colônia de pérolas
operárias formigas brancas
roendo meus órgãos
eles se lembram
sem boca emitem
isso que percebo como
espasmo de nada no vácuo
cicatriz da dor
eu sinto

O acesso à nuvem é íngreme
cada passo cadafalso

uma constelação pálida no seu sorriso
o último mês de três, eu não sabia
o que você soube no primeiro dia
mesmo ali, no afobamento
a posse falsa
uma borboleta noturna
desmaiada na grandeza da tua mão

perdi um dente e um brinco de ouro
no espaço de um beijo
já faz alguns anos mas
nus os buracos
uma evidência
querendo ou não
me lembro.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Soltas

Que desmoralização ser sonâmbulo em público. É como tomar banho no meio da rua.

Tudo me afeta. É uma prisão terrível, terrível.

O único equilíbrio empírico é aquele que se prova nas aulas de química.

Respeito tanto o outono carioca que quando ele finalmente chega eu visto tudo que tem no armário duma vez só pra ele ver que fiz-lhe os ritos.

A palavra infinito tem 8 letras porque nada é por acaso.

A palavra é o único assunto do qual se pode falar por uma vida inteira sem incorrer no risco do monotemático.

Só hoje de manhã cheguei à constatação assustadora que o mesmo assombro que me causa o cosmo me causa também a palavra.

O problema é que ele não tinha aprendido a valorizar o alívio.

Falar até falo, mas por trás da palavra estou muda.

O critério é uma porta giratória.

A loucura não é mais que a perda gradual ou imediata da linguagem humana.

Talvez se chame fórceps o nome do procedimento operado pelos escritores que destranca o jorro incontinente nos leitores que não se desconfiava por lá.

Fico desabrigada sem uma caneta azul.

A paráfrase é a invenção do que não existe.

A palavra é instrumento tão instável que a qualquer momento pode se transformar em anti-instrumento e se lhe servir toda em contrário.

O fogo é a mais bonita das criaturas.

As coisas invariavelmente acontecem muito mais rápido do que qualquer um pode entender, porque naturalmente ninguém é deus.

Não me lembro onde ouvi que a edição está muito próxima do cacoete.

Os filhos brincam de apnéia na piscina enquanto a mãe corre o risco do afogamento.

Depois dessa prometi a mim mesma que serei capaz de deixar nessa terra metanos melhores que você.

As pedras submersas são de outra família de pedras. Demora até que se entenda seu metabolismo. Diferentes das pedras criadas em terra seca, ganham guelras discretíssimas e olhos membranados por uma camada fantasma de água, de onde observam, espectadoras máximas, a vida que corre tão devagar no mundo. A água imortal lhes enovela ensinando a paciência; à pressão infinita dos anos inteiros mergulhadas na imóvel vida molhada respondem redondamente.

O clitóris é o sino no topo de um templo.

Não é porque sou mulher que eu escrevo com as entranhas. Eu escrevo com as entranhas porque sou uma mulher feita só de entranhas.

Se a opção for uma, deixa de ser opção. Opção é bando bandoleiro de vampiros da vontade.

Poder extremo dado a umas criaturinhas tão pequenas olhar para o céu e inferir o passado violento dos astros.

Perder um concurso de poesias é o fracasso mais digno que existe.

Uma das minhas militâncias mais aguerridas é pelo direito de não ter resposta o tempo todo.

É de madrugada que os canais da cidade se lembram da genealogia antiga de suas águas anteriores. Chiam tanto para fazer ouvir o choro próprio de água criança que se desgarrou demais quanto para atestar que ali ainda é água de rio debaixo do entulho grosso da civilização.

Nem adianta tentar levar só a minha boceta. Eu vou com meu sexo.

Maternidade é o nome do paraíso do qual todo mundo dispensa padecer.

O que será que passou pela cabeça dos dinossauros naquele dia?

Me dá preguiça e fome o coração hermético.

Já sabe que a felicidade é um estado, e não uma condição, Marina; a felicidade que você sente é uma nostalgização do presente.

Contemplei as ilhas. Dos arquipélagos às ilhotinhas. Por menor que seja uma ilha demorou pares e mais pares de séculos pra nascer e por isso já nascem velhas com o preço da maturidade do individual em riste: romper a casca das águas.

Porque é a vida o mar criou pêlos em sua epidérmica robustez de réptil e lhe emprenhou de milhares de conchas, o mesmo mar que pacientemente lhe roía a forma também a concedia num esmerilhar intenso e especial, sem sossego e sem excessos.

Assim também eram como as pérolas, a ostentação duma inflamação perfeita.

A minha felicidade era tão anômala que necessariamente me constrangia.

A minha felicidade parecia um beija-flor sonâmbulo às cabeçadas no colo das flores.