domingo, 16 de setembro de 2018

Perto do real

Debaixo
das muitas águas que cobrem o umbigo do mundo
há anos se confundiu a cidade perdida dos atlantes
com a arquitetura enigmática que deixou
o rastro de uma imensa criatura
imenso seu rabo de fogo
espalhando luz e morte e vida naquele dia

Aqui havia um cravo
um temível cravo feito de poeira e trânsito
cozido em gordura e sangue
que espremi até o último golfo com a pinça das unhas
até que restasse apenas a
impressão vermelha da força dos dedos
tão hábeis e impiedosos

extinto o cravo, por certo extinto
não leva consigo sua casa

Quando é frio
na cicatriz da dor eu sinto
só alguma coisa
não incomoda não faz rir e nem machuca
qualquer matéria escura
que recusa a palavra
só alguma coisa onde houve
uma colônia de pérolas
operárias formigas brancas
roendo meus órgãos
eles se lembram
sem boca emitem
isso que percebo como
espasmo de nada no vácuo
cicatriz da dor
eu sinto

O acesso à nuvem é íngreme
cada passo cadafalso

uma constelação pálida no seu sorriso
o último mês de três, eu não sabia
o que você soube no primeiro dia
mesmo ali, no afobamento
a posse falsa
uma borboleta noturna
desmaiada na grandeza da tua mão

perdi um dente e um brinco de ouro
no espaço de um beijo
já faz alguns anos mas
nus os buracos
uma evidência
querendo ou não
me lembro.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Soltas

Que desmoralização ser sonâmbulo em público. É como tomar banho no meio da rua.

Tudo me afeta. É uma prisão terrível, terrível.

O único equilíbrio empírico é aquele que se prova nas aulas de química.

Respeito tanto o outono carioca que quando ele finalmente chega eu visto tudo que tem no armário duma vez só pra ele ver que fiz-lhe os ritos.

A palavra infinito tem 8 letras porque nada é por acaso.

A palavra é o único assunto do qual se pode falar por uma vida inteira sem incorrer no risco do monotemático.

Só hoje de manhã cheguei à constatação assustadora que o mesmo assombro que me causa o cosmo me causa também a palavra.

O problema é que ele não tinha aprendido a valorizar o alívio.

Falar até falo, mas por trás da palavra estou muda.

O critério é uma porta giratória.

A loucura não é mais que a perda gradual ou imediata da linguagem humana.

Talvez se chame fórceps o nome do procedimento operado pelos escritores que destranca o jorro incontinente nos leitores que não se desconfiava por lá.

Fico desabrigada sem uma caneta azul.

A paráfrase é a invenção do que não existe.

A palavra é instrumento tão instável que a qualquer momento pode se transformar em anti-instrumento e se lhe servir toda em contrário.

O fogo é a mais bonita das criaturas.

As coisas invariavelmente acontecem muito mais rápido do que qualquer um pode entender, porque naturalmente ninguém é deus.

Não me lembro onde ouvi que a edição está muito próxima do cacoete.

Os filhos brincam de apnéia na piscina enquanto a mãe corre o risco do afogamento.

Depois dessa prometi a mim mesma que serei capaz de deixar nessa terra metanos melhores que você.

As pedras submersas são de outra família de pedras. Demora até que se entenda seu metabolismo. Diferentes das pedras criadas em terra seca, ganham guelras discretíssimas e olhos membranados por uma camada fantasma de água, de onde observam, espectadoras máximas, a vida que corre tão devagar no mundo. A água imortal lhes enovela ensinando a paciência; à pressão infinita dos anos inteiros mergulhadas na imóvel vida molhada respondem redondamente.

O clitóris é o sino no topo de um templo.

Não é porque sou mulher que eu escrevo com as entranhas. Eu escrevo com as entranhas porque sou uma mulher feita só de entranhas.

Se a opção for uma, deixa de ser opção. Opção é bando bandoleiro de vampiros da vontade.

Poder extremo dado a umas criaturinhas tão pequenas olhar para o céu e inferir o passado violento dos astros.

Perder um concurso de poesias é o fracasso mais digno que existe.

Uma das minhas militâncias mais aguerridas é pelo direito de não ter resposta o tempo todo.

É de madrugada que os canais da cidade se lembram da genealogia antiga de suas águas anteriores. Chiam tanto para fazer ouvir o choro próprio de água criança que se desgarrou demais quanto para atestar que ali ainda é água de rio debaixo do entulho grosso da civilização.

Nem adianta tentar levar só a minha boceta. Eu vou com meu sexo.

Maternidade é o nome do paraíso do qual todo mundo dispensa padecer.

O que será que passou pela cabeça dos dinossauros naquele dia?

Me dá preguiça e fome o coração hermético.

Já sabe que a felicidade é um estado, e não uma condição, Marina; a felicidade que você sente é uma nostalgização do presente.

Contemplei as ilhas. Dos arquipélagos às ilhotinhas. Por menor que seja uma ilha demorou pares e mais pares de séculos pra nascer e por isso já nascem velhas com o preço da maturidade do individual em riste: romper a casca das águas.

Porque é a vida o mar criou pêlos em sua epidérmica robustez de réptil e lhe emprenhou de milhares de conchas, o mesmo mar que pacientemente lhe roía a forma também a concedia num esmerilhar intenso e especial, sem sossego e sem excessos.

Assim também eram como as pérolas, a ostentação duma inflamação perfeita.

A minha felicidade era tão anômala que necessariamente me constrangia.

A minha felicidade parecia um beija-flor sonâmbulo às cabeçadas no colo das flores.

Nemesis

Nosso assunto começa na boca.

Se teu ofício te encarrega de deliciar o que entra por ela, improcedente não seria dizer que o meu me responsabiliza pelo deleite que o que sai da minha pode provocar. Sim, aqueles que visamos encantar pela boca, devemos impressionar considerando nossas então diferenças quase fundamentais. Tu precisas colecionar essas bocas, em criar e aprisionar matemático dentro delas para assim traduzir nelas o que é o gosto do afeto; elas vão descobrir teu dote na adivinhação molhada das línguas. Tu entras. Meu movimento é inverso, é de expulsão. Preciso aprender, cada dia o primeiro sendo, como concentrar a força, de que maneira pesar cor e tom de cada palavra escolhida, que uma vez fora de mim, não me pertence mais.

Somos terminantemente cientes: o ponto errado (coisa de tempo a mais, ou a menos) avaria o resultado. Mas até falar nisso é complicado: seja tu nos estômagos, ou eu nos ouvidos, só algum aspecto sacerdotístico para nos nomear conquistadores máximos em nossos (a)fazeres. Precisamos languidamente, cada um à sua moda, descortinar o histórico que guarda abaixo de si os sentidos dos que nos requisitam; tateá-los, com ritmo e intimidade, até a submissão, voluntária e declarada. O percurso é exatamente o mesmo, do mais simples ao mais refinado paladar. Magia existe, e acontece assim. Lhe arrenegam os que nunca foram tocados por ela. Alquímicos, nós? Não duvide.

O nobre de nossas tarefas se deve à obrigação compulsória aos nomes que nos antecedem. Ou como honrar consciência e caminho ao dividir o mesmo nome de oficio que Atalla, de Szymborska? É maior que nós o fato: consciência obrigada e debitada de si mesma. Exigências. Tua natureza profundamente discreta desmente tua anarquia verbal. Eu sei, não terás como te defender: ambicionas o celeste das bocas, desde a fruta escolhida com o máximo do olho; o odor dos temperos estalando tuas analíticas narinas adentro. Mesmo com as horas pesadas em tuas costas (largas), a carência completa de noção de quem é míope à tua arte, inspiras o coentro, os cogumelos frescos; tomas de empréstimo o sabor do caldeirão no canto da palma da mão (suave batida da colher-de-pau), deslizas o dedo experiente nas rapas dos tabuleiros, porque sabes o que fazes. Assim, amor, faço com as palavras. É seleção tão difícil quanto, tão próxima quanto. Antes, eu costumava pensar que meu trabalho se parecia mais com o de um estilista, em Balenciaga eu pensava, em Chanel. Afinal, eles também sabiam a importância da precisão de um ponto. Mas pousei meus olhos em ti, e entendi. Como não entender?

Como não entender? Tu dentro; eu, toda fora. Se eu preciso de expansão, se preciso de dois ouvidos (e com isso a exponencialidade por si só já diz do resto), tu atomizas: uma língua bem papilada e está feito. O que fazemos, aí e aqui, é integrar nossa matéria a cada fibra de quem atingimos. As palavras que saem me custam horas debruçada sobre a indecisão, e para todo o visível há muitas sombras de renúncia, momentânea que seja (o descarte é sempre algo momentâneo). Não é também assim quando tu crias? Sabes o que funciona e onde, mas me diga como, sendo quem és, (sendo quem sei que és), como não amar o desconhecido, por que não a ousadia, por que não a assinatura? E assim, depois de tantos passos roubados, aí e aqui, se consolidam duas órbitas colisivas. Porque sim.

A cozinha e a palavra são os duplos perfeitos que nós mesmos somos.

domingo, 22 de julho de 2018

As Beatitudes - 1

A vista turva
de borboletas explosivas
em cada choque
chuva de asas

Debaixo das idades
do meu umbigo
é por onde ando e sempre andei
Meu corpo me sabe antes
bota um viço em minha boca
o viço molha as ideias

Na intermitência do mundo
um céu todo negro
sob a carne grossa do olho

na revoada da vista
estou sentada na pedra
dura
pérola do mar na beira
e fico vendo a lua

ganhando a matéria da cor conforme gira a terra

me toma pelo braço o chão
sem que eu caia
- não,
me toma pela mão, elegante,
e segura meu dorso,
me desce dessa nuvem de pedra

agora, o corpo já todo mina
água pura pelos poros
cristalina
eu descuidei, entrou ela
a serpente cheia de esporas
desmedida e sem medo
de perder sua unidade enquanto
no sul de meu tronco se espalha
e me cavalga toda

cada repuxo de seu rabo
um lanho dentro
das minhas coxas queimadas
por si mesmas queimadas
rastro negro das carnes que se mordem no calor - ai, carnaval!
dois peixes tão iguais em grandura
se destruindo, vermelhos galos premiados
aquário, cemitério
há penas
bolhas

me alcança a cabeça
essa esfinge, que dona
nada me pergunta
manda
e se me manda pensar
eu penso
e se me manda cuspir
eu cuspo
desfolha meu peito atrás do músculo
busca facínora pelo ápice da vida

-agora!
-sim senhora!

no caminho (da volta)
morre muda, me despossui,
abre qualquer porta por onde sai
arrastando o rabo evanescente
retorna ao nada donde veio

no entanto, jamais lhe penso aniquilada
por hora ausente, jamais aniquilada
estando sempre
à pequena distância de um discreto chamado

quando me sento
na minha doida língua
do diabo

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Alô, Clarice? ou 55 teses

1. Dá mais trabalho andar erguida.

2. A cozinha da minha casa é uma área militar de controle alimentar regida por cinco espelhos.

3. Me dá vontade de fumar aquele quando ouço as sirenes.

4. Ontem esqueci que estava de dieta e comi pequenos punhados de chocolate na ponta de uma faca.

5. Meço a experiência dos pombos pelo tanto de cacarecos que carregam agrilhoados às suas patinhas imundas.

6. Esquizofrenia ou espíritos indiscretos?

7. A hora não existe.

8. É difícil organizar a matéria diante do excesso de sintetizadores nos shows das bandas mais modernas.

9.Também acho de bom tom considerar alguma caduquice do cânone.

10. Tudo o que eu boto na boca tem um gosto infantil.

11. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as queimo.

12. Lavei até o prato no qual você não comeu.

13. É excelente à saúde da vista uma laranjeira bem carregada no quintal às quatro horas.

14. A extorsão acontece quando o poder dá cria.

15. A cabeça e o corpo padecem juntos.

16. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as como.

17. O corpo tem muitas portas, mas mais numerosas são as chaves do lado de fora.

18. Tenho medo de ter razão demais e meus dentes passarem a revirar a terra.

19. Não se pisa no mar de sapatos, é falta de educação.

20. Não se pede licença às metáforas, é falta de educação.

21. Às vezes as pessoas mentem por prudência.

22. Não se pisa em ovos a menos que se seja Bataille.

23. Um dia tranquei a porta do meu quarto e fiquei batendo nela do lado de fora.

24. As chaves mesmo estão todas do lado de fora.

25. Domingo ela não vai, mas talvez vá segunda.

26. Andar erguida implica decivilizar placas inteiras de anos de timidez.

27. As avós não são as melhores pessoas do mundo, mas bem que tentam.

28. Fico alguns sorrisos mais rica quando chega carta tua.

29. No exercício da preguiça vai uma boa dose de prática.

30. As melhores poesias vão desvendar o metabolismo dos átomos.

31. O mofo no banheiro é uma gestação infinita.

32. A prudência é um sintoma de civilidade bem implantada.

33. A palavra é simples. Quem lhe complica é a tradução.

34. Mas para isso se usam saltos no tango, é mais que uma convenção, é realmente uma correção ortopédica.

35. Por hoje não escrevo mais nada. Nada.

36. Tudo permanentemente está. Nada também.

37. Os amantes compõem a espécie mais bélica do mundo.

38. Dia desses troquei todas as minhas chuvas pelas roupas secas no varal.

39. Todas as coisas geniais que eu pensei há dois minutos sem querer sumiram. A genialidade é isso: dura dois segundos, e passa.

40. Tudo que eu leio me emprenha um pouco.

41. É correto afirmar que também o tempo é sem pé nem cabeça.

42. Até para pedir silêncio é preciso da palavra.

43. Um dia todas as palavras fugiram de mim e passei quatro dias no CTI procurando-as desesperadamente calma.

44. Minha boca assa quando falo demais como deveriam todas.

45. Toda comissão parlamentar de inquérito é uma epopéia de mal gosto.

46. A palavra "olheiro" é muito interessante.

47. Ela está tomando banho do outro lado da calçada. Ou está tentando. Quando passa um homem ela tenta, sem sucesso, fingir que faz outra coisa. Ela não tem direito ao mistério. Nem direito ao vizinho que lhe espreita a nudez de longe, do outro lado do apartamento. Sem direito às coisas que se podem fazer no banheiro. Sua intimidade é desossada a cada deslize lento do sabonete que emplastra sua pele de bolhas secas e acinzentadas.

48. Desconfio da natureza escura de toda matéria que requer que eu lhe experimente pelo toque.

49. O cinto no entorno de um homem nu é disfuncional a menos que afivele-lhe o pescoço.

50. Já ouvi barulhos que fizeram espumas enormes.

51. Das maiores humildades que conheço consta aquela na qual a pessoa voluntariamente abandona o desejo de domínio da palavra. É geralmente assim que se lhe conquista.

52. Ainda encontro de onde vem esse cheiro.

53. O esqueleto carbonizado de um sofá é uma demonstração violenta de destruição.

54. A palavra é uma arma de criação em massa e de destruição também.

55. A palavra é simples. Quem lhe complica é a cabeça.