segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Funções

daqui me resolvo com meus projéteis
russa subequatorial
ainda que não seja a lua branca um
alvo
exatamente fácil

mais sorte têm os cachorros
que por qualquer motivo
que por qualquer distúrbio
indefinível aos homens
disparam a latir
em uníssono
depois se segue um silêncio aterrador
é o tempo que o ar leva
para arrefecer as mensagens cifradas nos latidos
levá-las
aos ouvidos da lua

faltei quase todas as aulas de matemática
também as de física
mas ainda me lembro da imagem das funções
é pisando na memória
um pé de cada vez
que daqui me resolvo com meus projéteis

na rússia há baleias brancas
sob a luz que não adentra aqueles mares
inconquistáveis
vivendo imperturbáveis
na placidez bicentenária
uma vida sem títulos
indiferentes à inveja
de arpões insones

na lua há pegadas desajeitadas
feito gozo de adolescente
de doze homens que lá estiveram
homens que não eram russos
e os russos devem ter ficado
bem putos nessa época
porque pensaram
daqui nos resolvemos com nossos projéteis

no leite o segredo
coalha
exponencialmente -
eis a função da cor
me resolver com meus projéteis
em crise - para onde mirar?
é função que sei de cor


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sem título

promoção de queijo no guanabara sol
de outono espirra frio cor lenta
sobre os sobrados descascados
cerveja sol não ilumina e aumenta
a gastrite
a menina grita vai rasgar a bolsa
mas o irmão não pode segurar direito
com seus braços de 6 anos sim
vai rasgar a bolsa
quem não é capaz de conviver com rasgos
que já fiquem claras as lições do mundo aos 6 anos
camaleão esquizofrênico entre o ipê
roxo e os frangipanis e a culpa oculta
é do paisagista
eles dizem
no subúrbio eles gostam assim
colorido e excessivo
e mais nunca é demais
é consenso
tiro de moto tow tow tow e sempre
uma senhorinha se assusta o juramento é selado e ali do lado
garotos espertos riem
massa apertada de pânico arrastão
na c&a do carioca
multidão formiga consome a pressa
segurança interessa
a noite não é de flores mas há motoqueiros em uniforme e patrulha autônoma
levam e trazem botânicas soluções
três horas um sumiço um início
discussão aberta em casas parcialmente fechadas
maria odete tá grávida
não vai dar pra fechar o mês
carlinhos foi promovido a gerente
promoção de alcatra no supermarket aproveita e leva também o peixe
meio sorriso no suor amarelo do copo americano
é sexta-feira na américa do sul.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Trilha branca/ Sonho 01/08/17

dizem da neve
a branca pele
que cobre e esquece
a carne podre das árvores
como aquelas que encontramos
guardando dentro os presentes
de outra estação

havia lá dentro uma
degeneração
um caroço
uma invasão na linha
do tempo
donde jorrava outro tempo
um ser humano com
duas colunas vertebrais rígidas
cheiro sensível ao faro
do cachorro

cólera permanente

dizem da neve
que nela cala o tempo e
acalenta cadáveres

em que trilha nos perdemos?

havia na degeneração
um ser humano com
cheiro de cachorro e
um caroço
donde jorravam colunas vertebrais rígidas
podre a carne do tempo
de cheiro sensível ao ralo

cólera permanente

dizem da neve
grande sinuca de medo
e alvoroço
mar pastoso sobre a água
adormenta e dorme estações

perdida a coleira do cachorro
havia no cheiro uma coluna
de carne rígida
uma invasão degenerativa na
linha dos olhos
cadáver dentro do ser humano
feito sequelas daquele tempo

cólera permanente na trilha onde nos perdemos.


para herberto helder/ lars von trier

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Corda Frates

Essa foto foi tirada no aniversário da Andressa, tu lembra? Aquela menina da nossa rua, quando fez 15 anos. Geral pobre, né, não foi igual aquelas festas de 15 anos, com vestido, essas coisas, mas teve muita cerveja e uma churrascada que durou dois dias, o sábado e o domingo. Olha aqui aquela prima dela, metida a patricinha só porque morava no Pedro Lopes. Nunca gostei dessa garota, e olha que ela sempre aparecia nas férias pra passar uns tempos com a Andressa. Tu lembra? Sempre janeiro, o que acabava caindo perto do aniversário da Andressa. Esse 15 anos foi bonzão, mó calor e a cerveja rolando solta. A gente era mais velho que a Andressa um pouco, devia ter uns 18 anos, mas já bebia há muito tempo. Ih, olha essa aqui. A gente saindo do Maraca depois que o Flamengo foi tri. 2001. A gente ficou tão louco no Bebeto que tu perdeu a linha, pegou a mulher do Madeira e a gente teve que sair voado, hihihi. Nessa foto você tinha 9 anos e tinha quebrado os dois dentes quando caiu na piscina vazia do tio Jorge, lá em Maricá. Eu ainda morro de rir dessa foto porque seu tombo foi engraçado, mas quando eu te vi chorando e sem os dois dentes fiquei preocupado. Se tivesse quebrado um pouco antes, só alguns anos antes, eles cresceriam normalmente e papai não ia ter gastar aquele dinheiro pra ter que resinar teus dentes. Moleque burro.

Você me perguntou do trabalho, né. Lá tá tudo na mesma. Eu continuo fudido mesmo. Mercado é uma coisa que faz dinheiro o ano todo, nunca vi. Eu queria ser dono de mercado. É Páscoa, é Natal, é Corpus Christi, é feriado, é dia santo. Todo santo dia tem gente. É por isso que no grupo do zap os vagabundo ficam mandando foto das festa que seu Arthur dá. Mó mansão, tem uns três andares, piscina, uma mulher mais gostosa que a outra, parece até clipe, sabe. Você chegou a conhecer o seu Arthur. Ele não aparece sempre, mas eu me lembro que um dia tu apareceu lá pra comprar num sei o que pra mãe, eu tava lá e a gente se falou rápido, e foi nesse instante que ele passou e eu apontei. Tu lembra sim, como que não vai lembrar? A mãe? A mãe num tá muito bem não. Ela já não tava bem antes, depois que o pai foi embora. Doeu em todo mundo, você sabe. Todo mundo já sabia que ele ia, e que nem ia demorar, mas a gente vai se agarrando nesse fiozinho, tipo galho podre de árvore em encosta de valão, pouco antes de um temporal. É horrível, é fraco, mas a gente se agarra ali, reluta, não sai, e do nada é acertado por uma onda de merda e é apartado dele. Acho que a mãe foi a que sentiu mais. Tamara já tava morando com o Matheus, já tinha alguns meses que eles estavam morando juntos nessa época, não é que ela não tenha sentido, mas não foi ela quem ficou na casa esvaziada depois, vendo a mãe chorar todo dia. Eu queria proibir algumas pessoas de morrer.

Eu não penso, não. Ter filho? Tá maluco! Olha só as coisas que a gente já fez! A mãe ficando doida levando Tamara pra cima e pra baixo por causa daquela parada. Lembra de quando o pai foi buscar a gente na delegacia? Hahahahaha, eu cheio de medo da porrada que ia cantar lá em casa e você rindo de nervoso, a gente sempre foi muito diferente mesmo. Apesar de gêmeo. Univitelino né, sempre achei essa palavra engraçadona, lembra que eu ficava te chamando disso depois que aprendi que era o que a gente era? Depois eu parei, e aí você que deu pra me chamar assim. Até na escola os garoto começaram a chamar a gente assim, até porque era mais fácil, ninguém sabia diferenciar a gente. Às vezes nem o pai sabia. Já tomei umas boas porradas por tua causa. Quero ter filho não.

Venho pra cá porque era onde a gente gostava de ficar vendo a noite cair. Pô, o melhor pico da zona norte inteira, né. Era o que você achava. Foi do que você me convenceu. Mas agora tá mais difícil por causa do trabalho todo dia, aquela encheção de saco, literalmente, pega bolsa, bota uma bolsa dentro da outra, caralho, é um movimento infinito, às vezes eu fico pensando se essas bolsas todas não vem de um buraco negro e talvez lá, onde ninguém consegue pôr a mão, talvez lá exista um botão pra parar de fazer as bolsas brotarem. Às vezes eu sonho que tô caindo dentro de uma bolsa, e depois essa bolsa cai dentro da outra, e assim por diante. Às vezes eu sonho que preciso fugir delas, e nesses sonhos elas estão molhadas, mas é um molhado viscoso, tipo azeite, óleo de sardinha em conserva quando estoura. Eu escorrego nisso, caio. Não consigo fugir. Mas é só às vezes mesmo, quando eu tô muito estressado. Outras vezes eu sonho com você. Quando você tava aqui eu detestava sonhar com você, principalmente porque você sempre me acordava com essa sua cara boba e fazia um peido com a boca, eu ficava com a sensação de desperdício, tipo, com tanta gente pra sonhar eu tinha que sonhar logo contigo? Pra acordar com você fazendo aquelas vozes pequenininhas de robô, imitando beat vox? Era engraçado.

Olha, hoje eu fiz uma besteira. Eu não sei quanto tempo vou ficar aqui sem que alguém apareça, mas é porque eu não tenho forças pra lidar com isso. Não foi fácil te trazer aqui. Não tenho coragem de abrir o caixão porque eu tenho medo de olhar pra você e me ver depois de morto, entre outras coisas. Tenho medo de abrir e não te reconhecer. Tenho medo do cheiro que você possa ter. Mas eu precisava te trazer. Todo mundo passou o último ano me falando, ah, ele tá num lugar melhor, ah, foi melhor assim, você não ia querer que ele sofresse. Mas eu sou egoísta, irmão. Eu queria você aqui porque agora é como se eu não estivesse nem aqui nem aí, onde você tá. Eu fiquei em lugar nenhum. Como a gente faz pra saber o caminho, a saída, de lugar nenhum? E como eu conserto isso, de não saber mais as coisas que tô fazendo? Não sei o que me deu hoje. Eu simplesmente passei lá, fiquei olhando um tempão, não tinha ninguém e eu abri, abri a tumba sim, te ajeitei no banco da bicicleta e vim. Tem dias que fico melhor, mas tem dias que é insuportável e eu queria poder me esconder dentro de uma cor. Eu sei que você pode me ouvir, mas nós não somos mais dois moleques catarrentos que ficavam brincando de adivinhar o que o outro tá sentindo. Agora sim você sabe de tudo, mas eu não posso saber de volta. Isso sim  é mais egoísta que eu.

Ei, olha lá. Daqui tô vendo que tem viatura subindo a rua. Não sei se eles estão procurando por você, ou por mim. Por aqui é comum passar viatura, mas pelo jeito, acho que estão procurando alguém. Quem? Vou me preocupar com isso depois. Pelo menos daqui dá pra ver que tem sim algum desenho muito doido na lua.

domingo, 14 de maio de 2017

Fundura

todos os dias minha mãe 
lançava e içava o balde no poço
muitas vezes até haver
água

repetição cadenciada

encher o filtro
lavar as roupas
cuidar da casa

não confiava na qualidade
da água encanada

procedimento antigo, mãe
desde os artesianos
água saloba
de poço
esforço
costume

muitos anos depois e minha mãe em ossos
era eu quem furava poços
no coração branco da antártida
com a obscura função de vasculhar às cegas 
vestígios de outro tempo

minha mãe de lenço na cabeça nos fundos da minha memória
tinha mais braços do que me lembro
e me mantinha tão limpa
e tão indefesa
me punha em tantas águas
manuseando com cuidado meu corpo de criança

caço de mãos submersas
resposta na desertidão dos sais
onde a cor da vida não vai

não há sob a luz da vida
procedimento velho demais