domingo, 14 de maio de 2017

Fundura

todos os dias minha mãe 
lançava e içava o balde no poço
muitas vezes até haver
água

repetição cadenciada

encher o filtro
lavar as roupas
cuidar da casa

não confiava na qualidade
da água encanada

procedimento antigo, mãe
desde os artesianos
água saloba
de poço
esforço
costume

muitos anos depois e minha mãe em ossos
era eu quem furava poços
no coração branco da antártida
com a obscura função de vasculhar às cegas 
vestígios de outro tempo

minha mãe de lenço na cabeça nos fundos da minha memória
tinha mais braços do que me lembro
e me mantinha tão limpa
e tão indefesa
me punha em tantas águas
manuseando com cuidado meu corpo de criança

caço de mãos submersas
resposta na desertidão dos sais
onde a cor da vida não vai

não há sob a luz da vida
procedimento velho demais



sexta-feira, 5 de maio de 2017

adeus ao coração continental

toda a américa pôde ouvir o infinito som do seu coração trincando e se rachando, um duelo de justas esquizofrênico no seio do isolamento, sem testamento, sem pronunciamento, sem platéias. nunca precisara delas estando confortável, tendo o que comer, onde dormir e um lugar pra recostar as incertezas. foi um som infinito para um coração infinito.

do lado de fora da cabana, uma revoada de pássaros. os pássaros foram as últimas imagens dos seus olhos antes de se voltarem eternamente pra dentro, e deve ter achado bonitos os pássaros. talvez tivesse pensado em escrever uma carta para alguém que não via já há muito tempo, ou cozinhar um ovo quando dali se levantasse, jogar bola no gramado ainda fresco do sereno da noite anterior. tudo o que fica por acontecer é sempre pleno de hipóteses. e ainda assim, nenhuma delas vale mais do que o fato, assim crêem as madres dos colégios, os advogados de porta de cadeia, os homens com hepatite nos botequins. as donas-de-casa assistindo programas vespertinos ou ouvindo rádio, elas não. elas estão obstinadamente agarradas a tudo quanto for acontecível, e não espanta que elas sejam as criaturas mais fascinantes. fora uma dessas que o havia abrigado, bem quentinho, lá no ventre. antes de seu tempo humano começar a se contar.

ficou uma flor de água no chão da cabana onde seu coração se rachara. foi essa água que entranhou, macia, os confins da terra e invisivelmente sacudiu cada pedra de uma américa bem gasta, mas pisciana de sonho e desrazão.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Trinca

os ossos estalam contra o sol
a carne não é tão dura assim
se os letreiros de neon dos ônibus
pudessem
fazer desenhos íngremes na linha
das vistas
tapeando o azar, o excesso
de lucidez
se os sinais de trânsito fossem todos
verdes
tivessem todos infinitos tons
de verde
se no meio da vida
um escândalo
ah
mas obrigações de plástico prendem
a circulação
e verdes quase e só
as green machines os dedos da mão
o cinto filantropicamente estrangulando
os estômagos
e um estrondo despencando
dentro dos bueiros para alimentar
a loucura copulativa das baratas

não fomos nós quem dissemos
inspire e respire devagar
sessenta vezes
enquanto usinas explodem em ilhas
longe daqui
inspire e respire devagar
o que são duas horas de espera
diante do suor das correntes

em casa, automática
a xícara de café quente
uma linha horizontal férrea na boca de alguém
onde um dia houve um sorriso
abaixo do solo
os mortos
as baratas
a beleza
em putrefação
descondicionada do visível aos olhos
independente
como jamais seremos

o cinto cai no chão do banheiro
deixa marcas lá e aqui como
pequenos dentes e a urina
explode com cheiro de dia seguinte

não desperdice o café quente.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

conselho de pai II

quando eu tinha 28 anos
e um eclipse lunar me tirou o sono
fui ter com meu pai nas alturas
da cabana que construiu para si

lá encontrei uma rede
meu pai me convidou a deitar nela e me ensinou
detalhadamente
como havia lhe fabricado -
algo sobre cavaletes, idas, vindas
precisão e paciência

aquele que havia lhe ensinado
homem de pele mais morena e dedos mais finos
meu pai me disse
esta rede ele faz em 3 horas,
mas eu levei 5 dias

me deitei sobre a rede
- e meu pai continuava me explicando -
esta rede começa com uma matriz
invisível a você
em sua primeira fase dá origem a 28 cruzamentos
pronta, totaliza 56, e você pode ver como
eu puxo, repuxo
e ela não se altera

de fato, meu pai acariciava a rede
como se fosse uma harpa

é preciso atenção, filha,
onde a gente entrelaça os fios
cruzamento em lugar errado desanda a trama
todos precisam estar na mesma direção

meu pai não sabe que do alto
dos meus problemas com números
me pus a fazer contas
mentais
com 56 anos
as minhas pernas
outrora musculosas aos 28
tendo como herança lógica a artrose
de minha mãe
suspensas e doloridas n'alguma rede outra
que não passara pelas mãos de meu pai
28 cruzamentos

pai, às vezes as tramas
são tão confusas.

cerimônia

a noite era de lua cheia mas no quarto não havia janelas. farida se movia pelo pequeno espaço, chamando a meditação que não vinha: fingindo a penumbra para si para abafar os próprios monstros, todos ali, todos com ela. era cheia a lua, e ela sabia nas marés do corpo, na suscetibilidade da pele em contato com as próprias unhas, todos os pequenos pêlos de seu nariz farejando a memória da carne no barro abafado do quarto. engole a saliva quente como se se aconselhasse. aqui não. inspira com vontade, educando o caos.

dahaya está lá fora, o tacho cheio de olhos e sementes começaria a ferver em poucos minutos. a chama ainda não crepitava e os insetos não davam sossego à pequena samira, que estourava as bolhas que o sol havia acumulado em sua pele. samira, traz pra mãe a cuia preta. com uma tinta vermelha dahaya tingia os antebraços, as gravuras escorregando por eles como veias antigas e maculadas. tomando para si uma outra cuia, próxima a seu corpo, contendo uma tinta preta, com a ajuda de um pincel criava linhas arredondadas no rosto, que ia espalhando pescoço e colo abaixo. onde as linhas formavam redondos labirintos pingava pequenos pontos pretos, circundando estes de pontos pretos ainda menores.

farida parecia ter reconciliado o corpo, a mente e a calma até sentir nas narinas o cheiro bruto da mistura que vinha do tacho. sentia a boca encher duma água quente e rugosa, como se debaixo de sua língua houvesse um sapo. um tremelique correu por seus olhos, derrubando lágrimas nervosas pelo seu semblante. havia 3 dias ela estava encarcerada lá dentro, sem receber visita alguma que não fosse para deixar-lhe uma jarra de água que lhe descia pelo corpo com gosto de terra. era sua condição, auto-imposta, sua resposta pra si. precisava se limpar. mas nada lhe afastava o cheiro perturbador da mistura, podia se ver contando os passos, e até mesmo os dos joelhos, fosse o caso de ir até o lugar onde dahaya estava, engatinhando. podia sentir o cheiro da própria dahaya, o manuseio de alguma pasta, e sentia os olhos virando para dentro do corpo enquanto começava a sentir a nuca quebrando sobre os ombros e as funções lhe deixarem.

com um óleo feito de ervas, dahaya untou os pés e as mãos, e pediu à samira que se retirasse. a menina se levantou do chão sacudindo os joelhos, como se houvesse sido perdoada. a mulher encouraçou o tronco com uma grossa cinta, onde guardou uma adaga de prata, confeccionada com marfim e pedrarias que brilhavam à luz daquela lua tão cheia e pavoneada, além de um bastão de madeira em cuja ponta pendia um guizo, também de prata. cobriu a cabeça com uma rede feita da mais escura das jutas. entoando cânticos numa voz rouca e distorcida, mas enérgica, e sacudindo com força uma argola cascateando em chocalhos de conchas e dentes, percorreu alguns metros até chegar ao quarto onde farida se desencontrava da própria matéria, num trânsito intenso de botar medo. num grito que provocou uma revoada dos pássaros que perto dali dormiam, dahaya bateu com o guizo no ferrolho enferrujado, e abriu a porta.