quarta-feira, 23 de maio de 2018

Alô, Clarice? ou 55 teses

1. Dá mais trabalho andar erguida.

2. A cozinha da minha casa é uma área militar de controle alimentar regida por cinco espelhos.

3. Me dá vontade de fumar aquele quando ouço as sirenes.

4. Ontem esqueci que estava de dieta e comi pequenos punhados de chocolate na ponta de uma faca.

5. Meço a experiência dos pombos pelo tanto de cacarecos que carregam agrilhoados às suas patinhas imundas.

6. Esquizofrenia ou espíritos indiscretos?

7. A hora não existe.

8. É difícil organizar a matéria diante do excesso de sintetizadores nos shows das bandas mais modernas.

9.Também acho de bom tom considerar alguma caduquice do cânone.

10. Tudo o que eu boto na boca tem um gosto infantil.

11. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as queimo.

12. Lavei até o prato no qual você não comeu.

13. É excelente à saúde da vista uma laranjeira bem carregada no quintal às quatro horas.

14. A extorsão acontece quando o poder dá cria.

15. A cabeça e o corpo padecem juntos.

16. Quero conhecer a constituição das coisas por isso as como.

17. O corpo tem muitas portas, mas mais numerosas são as chaves do lado de fora.

18. Tenho medo de ter razão demais e meus dentes passarem a revirar a terra.

19. Não se pisa no mar de sapatos, é falta de educação.

20. Não se pede licença às metáforas, é falta de educação.

21. Às vezes as pessoas mentem por prudência.

22. Não se pisa em ovos a menos que se seja Bataille.

23. Um dia tranquei a porta do meu quarto e fiquei batendo nela do lado de fora.

24. As chaves mesmo estão todas do lado de fora.

25. Domingo ela não vai, mas talvez vá segunda.

26. Andar erguida implica decivilizar placas inteiras de anos de timidez.

27. As avós não são as melhores pessoas do mundo, mas bem que tentam.

28. Fico alguns sorrisos mais rica quando chega carta tua.

29. No exercício da preguiça vai uma boa dose de prática.

30. As melhores poesias vão desvendar o metabolismo dos átomos.

31. O mofo no banheiro é uma gestação infinita.

32. A prudência é um sintoma de civilidade bem implantada.

33. A palavra é simples. Quem lhe complica é a tradução.

34. Mas para isso se usam saltos no tango, é mais que uma convenção, é realmente uma correção ortopédica.

35. Por hoje não escrevo mais nada. Nada.

36. Tudo permanentemente está. Nada também.

37. Os amantes compõem a espécie mais bélica do mundo.

38. Dia desses troquei todas as minhas chuvas pelas roupas secas no varal.

39. Todas as coisas geniais que eu pensei há dois minutos sem querer sumiram. A genialidade é isso: dura dois segundos, e passa.

40. Tudo que eu leio me emprenha um pouco.

41. É correto afirmar que também o tempo é sem pé nem cabeça.

42. Até para pedir silêncio é preciso da palavra.

43. Um dia todas as palavras fugiram de mim e passei quatro dias no CTI procurando-as desesperadamente calma.

44. Minha boca assa quando falo demais como deveriam todas.

45. Toda comissão parlamentar de inquérito é uma epopéia de mal gosto.

46. A palavra "olheiro" é muito interessante.

47. Ela está tomando banho do outro lado da calçada. Ou está tentando. Quando passa um homem ela tenta, sem sucesso, fingir que faz outra coisa. Ela não tem direito ao mistério. Nem direito ao vizinho que lhe espreita a nudez de longe, do outro lado do apartamento. Sem direito às coisas que se podem fazer no banheiro. Sua intimidade é desossada a cada deslize lento do sabonete que emplastra sua pele de bolhas secas e acinzentadas.

48. Desconfio da natureza escura de toda matéria que requer que eu lhe experimente pelo toque.

49. O cinto no entorno de um homem nu é disfuncional a menos que afivele-lhe o pescoço.

50. Já ouvi barulhos que fizeram espumas enormes.

51. Das maiores humildades que conheço consta aquela na qual a pessoa voluntariamente abandona o desejo de domínio da palavra. É geralmente assim que se lhe conquista.

52. Ainda encontro de onde vem esse cheiro.

53. O esqueleto carbonizado de um sofá é uma demonstração violenta de destruição.

54. A palavra é uma arma de criação em massa e de destruição também.

55. A palavra é simples. Quem lhe complica é a cabeça.

domingo, 13 de maio de 2018

Pra desfilar na Mangueira

Não sei de onde veio esse delírio. Sequer passei pela Tijuca, faz tempo não volto os olhos para o pombal à esquerda da saída da estação do Maracanã onde você morava em condição tão solteira: o colchão de casal gasto no chão, alguns livros guardados em caixotes de madeira, outros espalhados por um quarto no qual, na ausência de um armário, você organizava suas peças de roupa em uma arara de metal simples herdada da exposição de um amigo. Meias seriam um problema se você usasse. Falando nisso, percebi que você até tentava manter alguma ordem na disposição linear discreta dos sapatos no canto esquerdo do quarto, mas porque precisava trabalhar e ir à praia e ir a outros lugares que nunca saberei, o jeito desconectado como se encontravam parecia dar continuidade inanimada à tortura dos seus passos. Na pequena sala, uma bagunça sem fim e becks por toda parte. Também havia um aparelho de som, herança de outro amigo, você contou que quem tinha amigo não morria pagão. Daquele dia nesse apartamento, herdei o zumbido da final do Flamengo contra o Fluminense e dos 3 álbuns do Pixies que ouvimos em sequência (enquanto produzíamos, nós dois, nossa própria orquestra sob a franja do som ao redor.) Nada digno de nota, só fui tentando remontar algumas das horas mais recentes que passei contigo para entender de onde veio o delírio. Entender o delírio, veja só. Nunca disseram que seria simples a emoção do ponto de vista de quem nasce sob a lua em exílio. Gosto de pensar (ainda) que o horóscopo e Shakespeare explicam nosso desarranjo. Melhor dizendo, meu desarranjo contigo. Melhor dar descarga. O horóscopo tá na moda, por isso todos os dias vemos resumos das nossas vidas em colunas nos jornais que parecem prateleiras. E Shakespeare é moderno, usava brinco na orelha, como você. Vocês dois, culpados.

Eu vi você desfilando ao meu lado na ala dos compositores da Mangueira num carnaval em suspensão: não aconteceu e não acontecerá. Apesar de nunca ter demonstrado, não tenho dúvidas que você sabe sambar. Há mais malevolência nos atos que julga nossa vã filosofia, e fosse na preparação de um drink, de um prato ou de uma sinfonia, lá, cravejado, estava o samba que você deixava escapar. Você, no delírio, gingava, botando pra gemer essa voz extrema abafada no calor da cozinha industrial dos dias comuns -- há algo fundamental escondido no silêncio dos seus sonhos fervidos -- e quanto a mim, fui beneficiada pelo sangue. Sambar na avenida não é tão misterioso assim. A imagem é bonita, acredite sem muito critério: sapato bicolor, chapeuzinho vagabundo, calça branca e camisa verde-e-rosa, os dois na avenida, pra desfilar na Mangueira em um delírio enrolado em cetim barato. Talvez pra não azedar a beleza da imagem com hipóteses mais dramáticas, essa foi a única cena que o delírio me deu. Sem discussões anteriores sobre desfilar no Salgueiro, conforme talvez eu quisesse; sem discussões entre a escalação do Flamengo após a saída do Muralha e uma possível diferença de desempenho e resultado na Libertadores no caso de uma melhor direção do Vasco, sem discussões sobre o mistério -- esse sim, o maior deles -- do que acontece contigo entre março e novembro. Nós dois, sapato bicolor, chapeuzinho vagabundo, calça branca e camisa verde-e-rosa, os dois na avenida, pra desfilar na Mangueira em um delírio enrolado em cetim barato. No recuo, Shakespeare, enfim, nos espera num púlpito. A gente aceita.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Sei lá, essa afirmação metafísica

A associação instintiva que fazemos entre as palavras velam filosofias secretas sob a desatenção, ou sob a urgência da comunicação, naturalmente. Aqui, valho-me de um desses pequenos brilhantes sob a poeira da funcionalidade da linguagem para demonstrar o que digo: a expressão 'sei lá'.

Sei lá, essa afirmação metafísica em si, e também metatemporal por supuesto. É uma das mais corriqueiras expressões em português, transitando tranquila entre todos os estratos sociais. Qualquer brasileiro ou brasileira conhece seu contexto e uso, mas rompo com o vício pragmático para dar vazão a uma despretensiosa divagação.

Sua noção registra, no presente, uma espécie de consciência sobre uma razão ainda desconhecida por nós que, para isenção inconsciente da ignorância, lançamos mão. Assim, dizer "sei lá" não é o mesmo que dizer  "não sei": enquanto este afirma a negação do conhecimento, o outro de certo modo o adia, não dando o braço a torcer. Também é diferente o uso de "vou saber (lá)" em relação a "sei lá", a começar pelo fato de que a primeira se trata de uma expressão com posição e contexto claros, também reconhecíveis por todos os falantes de língua portuguesa. Desmerecidamente, o contexto no qual se aplica "sei lá" pode vir imbuído em algum desdém, o que pode (quem sabe?), refletir nosso incômodo com nosso presente estado de ignorância e inveja do tempo em que sabemos. Com relação ao advérbio locativo, o "lá", o palpite é de que sempre seja uma referência ao futuro, e não ao passado, como sua abertura semântica pode nos levar a considerar. Porque, se sabemos de alguma coisa, usaremos esse conhecimento na resolução de algum problema -- essa é uma das funções da experiência -- e o que contrapõe o uso entre "sabia lá" e "sei lá". Por este motivo quando, diante de um problema, respondemos "sei lá", estamos dizendo que a resposta está no futuro, e que nós já a conhecemos. Uma coisa meio A chegada, filme de Denis Villeneuve.  

"Sei lá" é saber em outro tempo, e o reconhecimento de que sabemos disto agora, o que me provoca e me convida a uma revisão na linearidade do tempo. A literatura científica é prolífica quanto a possibilidades de viagens transtemporais, mas não há notícia, até o momento, de sua factibilidade. Avanços científicos podem provocar grandes mudanças na língua, mas o balé semântico que existe nela -- e seu crescimento exponencial -- é suficiente para gerar constrangimento à mais avançada das ciências.

É algo injusto que as palavras sejam surdas para si mesmas ao mesmo tempo em que podem produzir tanta coisa de modo inerente. Me perco pensando num velho cantor de blues surdo-mudo a mendigar por centavos enquanto desencrava, do silêncio, as mais belas canções; ele mesmo não podendo ouvir os próprios acordes não que aprendera a tocar, mas que (como se fosse possível) sempre soubera.

sábado, 17 de março de 2018

Todas as ruas da cidade se chamam

Todas as ruas da cidade se chamam
A cor da guerra cheirando aerosol
O leite amargo da carne mais barata
em procissão gritada
Cada abraço um paiol

Todas as ruas da cidade se chamam
agora, a microcidade da origem
que no nome bagunça as águas
e no avesso de atlântida
EMERGE
Todas as ruas da cidade
seu endereço fixo

Todas as ruas da cidade enxame
Todas as ruas da cidade cardume
Fosse possível um mar dentro
De outro mar
Em cores graves e diferentes

Todas as ruas da cidade em chamas -
delírio, sonho
já que são tão distintos os ossos
humanos dos ossos
das catedrais

Todas as ruas da cidade
registram tua presença
se para uns a luta é vã
e pra outros questão de vida
a quem carrega o mundo no colo

é condição de nascença.








Marielle Franco VIVE.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Que mundo maravilhoso! / Carta ao pai

Vejo árvores verdes, rosas vermelhas também

Uma tempestade desliza pelo céu como quem adentra uma igreja, sufocando a luz com as mãos. Ele insiste comigo, você está preparada para a grande viagem?, mas meu braço é teso do outro lado: já não estamos em curso, meu pai? No seu rosto, um sorriso em falso. Ele toma a minha mão livre -- na outra, está a metade de uma maçã. Vamos ter que vender o carro.

Eu as vejo florescer, pra mim e pra você

Há suor onde seus músculos dobram; não é difícil encontrá-lo suado, sempre na confecção incansável e quase viciosa de pequenas banquetas de madeira que, nos últimos anos, dedicava-se a talhar. Como, há algumas décadas atrás, também o fazia seu pai. Rodopiamos em franca descoordenação pelo chão branco, dança esquisita e sincera, tentando acompanhar a música que tenta nos ajeitar. Ele tem os pés imundos.

E eu penso comigo

Como assim vender o carro? Mas ainda não estamos pagando? Isso é fácil, só preciso ver quanto falta, fazer uns cálculos. O silêncio não é possível; não com aquela voz negra misturando sua graveza com a gravidez das nuvens. Nas nossas cabeças é que chove. Tá difícil, sabe? Não tenho mais de onde tirar. Não sei o que dizer, e prefiro me privar de dizer o óbvio. Tem outras coisas que estou pensando -- num movimento brusco, ele enverga minha coluna. Ah, é? E o que seriam? Uma trovoada seca substitui sua voz.

Que mundo maravilhoso!

Pelo menos ela chega amanhã, né? Ah, com certeza! Tô doida pra ver a barriguinha dela. Será que é menino ou menina? Eu sonhei que é menina.

Vejo céus azuis e nuvens brancas

Um dos meus chinelos se arrebenta por completo com o peso de uma das passadas, fazendo com que eu me livre de ambos, chutando-os em qualquer direção. No chute, perco o equilíbrio sobre a maçã que cai, newtoniana. Pai, nós somos péssimos dançarinos. Ele não responde. Continuamos dançando, fazemos troça, agradecemos à invisível platéia pela atenção dispensada, também envergo sua coluna. Trocamos de lugar várias vezes. É engraçado como ele me chama de mãe. O céu se tinge de um repentino e instável mormaço dourado.

O dia claro abençoado, a noite escura sagrada

Imprimimos discretas linhas de nossos volteios no chão. Aqui jaz a marca mística da dança: se o chão se convertesse numa grande cartolina, o braço forte encontraria no garrancho uma rima interessante. Acho que assim vai ser melhor pra sua mãe, também; ele salienta, se justificando. Cada um vai poder viver da maneira que achar melhor, sem ter mais que se magoar, sem precisar se deslocar pra encontrar quem quiser. Em suma, vou sair do caminho dela. E com isso, sai do meu também? Minha filha, você já tem quase 30 anos. Não precisa mais se preocupar com isso.

E eu penso comigo

Envolvo seu pescoço com meus pulsos e diminuímos o ritmo da galhofa: a música parece nos encontrar. Fecho os olhos e olho para baixo, meus pés pequeninos sobre os dele, a unha do dedão do pé esquerdo sempre encravada e feia demandando cuidados; meus joelhos não dobram, ele é a dança, ele é a música. Me falta o dente da frente que há 30 minutos ele arrancou amarrando-o a uma linha em conexão à porta da sala. Eu já parei de chorar, mas ainda está doendo.

Que mundo maravilhoso!

Pai, não é justo você fazer isso. Eu entendo suas razões, mas isso não é justo, não é. Ué, minha filha, e que outra solução você vê? Você entende que não tem mais cheque especial? Que ou é isso ou podemos perder a casa? Eu falei com algumas pessoas. Não queria isso, na verdade é meu último tiro, mas talvez eu volte a trabalhar em ambulatório. Pai, escuta o que eu te digo. Eu posso não ter dinheiro agora, mas não vou ficar desempregada pra sempre. Quando eu voltar a ter dinheiro você não vai precisar sacrificar tanta coisa assim. Mas o que eu faço enquanto isso, filha? Olha, não é querer falar não, mas tá demorando, né? Você já vai pra quase dois anos desempregada. Eu não entendo muita coisa, mas com as coisas que você sabe, já poderia ter dado um jeitinho. Não pense que isso é uma cobrança, bom, não deixa de ser, também, mas não quero que você se sinta mal por isso. Eu só não posso ficar contando com você, não diante da nossa atual situação. Preciso agir agora. Eu sei que um dia você vai ganhar seu dinheirinho, e ele vai ser só pra você, filha. Eu não quero ele.

As cores do arco-íris, tão bonitas no céu

A questão não é essa, pai. É essa, mas também não é. Você sabe que esse é meu último ano na faculdade, que infelizmente tudo depende dos próximos seis meses; e esse é meu compromisso máximo. Eu não vejo a hora de trabalhar feito uma doida, mas eu tô presa nisso. Por enquanto. Desculpa, pai, mas eu não estudei tanto pra ficar atrás de um balcão e prejudicar a conclusão da graduação por conta disso. O retorno vai vir. Pelos nossos esforços, juntos. Eu sei que você também sabe disso, não sabe? E não tem essa de "meu dinheirinho é só pra mim", é claro que eu vou chegar junto e vou tapar todos os buracos que eu puder, assim que puder. Não sou ingrata. É claro que eu vou cuidar de você e da minha mãe, nenhum de vocês precisa ter a menor dúvida quanto a isso.

Também estão nos rostos das pessoas que passam

Você acha que você é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha? Olha, seu avô começou trabalhando atrás de um. Trabalhou atrás de um balcão por quase oito anos, até ele conseguir mudar de condição. Sua avó era merendeira. E não era só eu e uma irmã em casa não; era eu e mais dez. Já se imaginou morando com mais dez irmãos? Vendo dois deles morrer porque faltava tudo? Eu comecei a ajudar em casa com dez anos, filha. Dez anos. Eu ia e voltava pra lá e pra cá entregando as quentinhas que sua vó fazia. Muito me orgulha que você não tenha precisado passar por isso, muito me orgulha que com essa idade você tava na escola, bem alimentada, fazendo dever, viajando quando podia. Muito me orgulha que você vai se formar por uma grande universidade. Mas você acha que é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha?

Vejo amigos se cumprimentando, dizendo "como você vai"

Sacudimos as mãos no ar, trocando o ritmo por um sapateado displicente. Meu pai dá um salto, e de sapateado vamos ao foxtrote; mas nos demoramos pouco, voltamos à valsa tosca e performática de antes, ele me suspende pela cintura, e meus braços florescem no ar abrindo e fechando quase no mesmo instante, ele me devolve ao chão lentamente como se me pusesse pra dormir. Tomo seus braços num movimento drástico, um, dois, três rodopios, e antes que ele fuja da minha órbita é resgatado pela minha mão no limite da extensão, ele ri do que penso ser nossa falta de cadência, tem razão, filha, nós somos péssimos dançarinos.

Na verdade eles estão dizendo "eu te amo"

O peso da chuva finalmente rompe a membrana das nuvens; as gotas cadentes vão procurar o asfalto com as bocas bem abertas; o asfalto ferve a água morna e nos devolve o calor vaporoso que angustia o corpo, ressentido pelo desconforto da resposta: espécie anômala de frio vespertino no deserto. Entre mim e meu pai se interpoem delicados cavalos microscópicos que nos atiçam o suor. A água, déspota da fome, tem como único objetivo alimentar-se de mais água. Quer se parecer mais e mais consigo.

Ouço bebês chorando, eu os vejo crescer

Tombo a cabeça no peito quente de meu pai e ouço um ruído de raízes serpenteando lá dentro sem agonia. Estudo sem pressa o rigor saudável de seu amor retumbante e incorruptível forjado na tradição dos costumes, na força educativa das perdas humanas e capitais, no compreensível bem-estar físico de seus méritos por seus esforços, na lentidão cálida de infinitas horas rezadas aos santos de sua confiança, e lá, nesse alto que presumo, está a beleza opulenta e incontestável da fé, que por afastá-lo diariamente de uma pérola de cianeto de potássio, tem de mim uma gratidão diagonal muito superior a que ele jamais será capaz de imaginar, na contraintuição de quem nunca aprendeu direito a rezar.

Eles saberão muito mais do que eu jamais soube

Como foi no sonho, ele me pergunta. Sonhei que era uma menina! Estávamos na casa de praia, ela me chamava pra ir ver alguma coisa nos fundos da casa, onde a gente comia pão-com-ovo que minha avó fazia pra gente escondido. Lá ela tirava o neném da barriga, como se desfizesse uma dobradura. E era uma menina. Ah, uma menina linda! Ele sorri, ponderando. Eu queria menino. Imagina só se vier um menino -- seu rosto se avermelha intensamente e os olhos explodem. Eu vou endoidar. Mas se vier uma menina você vai poder fazer as mesmas coisas, já pensou? Ensinar a soltar pipa, jogar futebol, é tudo criança, é tudo curiosidade, é tudo desbunde. Mas ele não concorda, eu sei que não; então prolonga o sorriso que vai se perdendo em alguma outra expressão indefinível. Eu vou amar independente de qualquer coisa, é só isso que eu sei. Eu vou ser avô! Você não sabe o que é isso. Não vai saber tão cedo. Confirmo com um sorriso. A gente tem sorte, pai. A dança vai se convertendo num abraço que termina sem aplausos. E eu penso comigo, que mundo maravilhoso.