sábado, 17 de março de 2018

Todas as ruas da cidade se chamam

Todas as ruas da cidade se chamam
A cor da guerra cheirando aerosol
O leite amargo da carne mais barata
em procissão gritada
Cada abraço um paiol

Todas as ruas da cidade se chamam
agora, a microcidade da origem
que no nome bagunça as águas
e no avesso de atlântida
EMERGE
Todas as ruas da cidade
seu endereço fixo

Todas as ruas da cidade enxame
Todas as ruas da cidade cardume
Fosse possível um mar dentro
De outro mar
Em cores graves e diferentes

Todas as ruas da cidade em chamas -
delírio, sonho
já que são tão distintos os ossos
humanos dos ossos
das catedrais

Todas as ruas da cidade
registram tua presença
se para uns a luta é vã
e pra outros questão de vida
a quem carrega o mundo no colo

é condição de nascença.








Marielle Franco VIVE.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Que mundo maravilhoso! / Carta ao pai

Vejo árvores verdes, rosas vermelhas também

Uma tempestade desliza pelo céu como quem adentra uma igreja, sufocando a luz com as mãos. Ele insiste comigo, você está preparada para a grande viagem?, mas meu braço é teso do outro lado: já não estamos em curso, meu pai? No seu rosto, um sorriso em falso. Ele toma a minha mão livre -- na outra, está a metade de uma maçã. Vamos ter que vender o carro.

Eu as vejo florescer, pra mim e pra você

Há suor onde seus músculos dobram; não é difícil encontrá-lo suado, sempre na confecção incansável e quase viciosa de pequenas banquetas de madeira que, nos últimos anos, dedicava-se a talhar. Como, há algumas décadas atrás, também o fazia seu pai. Rodopiamos em franca descoordenação pelo chão branco, dança esquisita e sincera, tentando acompanhar a música que tenta nos ajeitar. Ele tem os pés imundos.

E eu penso comigo

Como assim vender o carro? Mas ainda não estamos pagando? Isso é fácil, só preciso ver quanto falta, fazer uns cálculos. O silêncio não é possível; não com aquela voz negra misturando sua graveza com a gravidez das nuvens. Nas nossas cabeças é que chove. Tá difícil, sabe? Não tenho mais de onde tirar. Não sei o que dizer, e prefiro me privar de dizer o óbvio. Tem outras coisas que estou pensando -- num movimento brusco, ele enverga minha coluna. Ah, é? E o que seriam? Uma trovoada seca substitui sua voz.

Que mundo maravilhoso!

Pelo menos ela chega amanhã, né? Ah, com certeza! Tô doida pra ver a barriguinha dela. Será que é menino ou menina? Eu sonhei que é menina.

Vejo céus azuis e nuvens brancas

Um dos meus chinelos se arrebenta por completo com o peso de uma das passadas, fazendo com que eu me livre de ambos, chutando-os em qualquer direção. No chute, perco o equilíbrio sobre a maçã que cai, newtoniana. Pai, nós somos péssimos dançarinos. Ele não responde. Continuamos dançando, fazemos troça, agradecemos à invisível platéia pela atenção dispensada, também envergo sua coluna. Trocamos de lugar várias vezes. É engraçado como ele me chama de mãe. O céu se tinge de um repentino e instável mormaço dourado.

O dia claro abençoado, a noite escura sagrada

Imprimimos discretas linhas de nossos volteios no chão. Aqui jaz a marca mística da dança: se o chão se convertesse numa grande cartolina, o braço forte encontraria no garrancho uma rima interessante. Acho que assim vai ser melhor pra sua mãe, também; ele salienta, se justificando. Cada um vai poder viver da maneira que achar melhor, sem ter mais que se magoar, sem precisar se deslocar pra encontrar quem quiser. Em suma, vou sair do caminho dela. E com isso, sai do meu também? Minha filha, você já tem quase 30 anos. Não precisa mais se preocupar com isso.

E eu penso comigo

Envolvo seu pescoço com meus pulsos e diminuímos o ritmo da galhofa: a música parece nos encontrar. Fecho os olhos e olho para baixo, meus pés pequeninos sobre os dele, a unha do dedão do pé esquerdo sempre encravada e feia demandando cuidados; meus joelhos não dobram, ele é a dança, ele é a música. Me falta o dente da frente que há 30 minutos ele arrancou amarrando-o a uma linha em conexão à porta da sala. Eu já parei de chorar, mas ainda está doendo.

Que mundo maravilhoso!

Pai, não é justo você fazer isso. Eu entendo suas razões, mas isso não é justo, não é. Ué, minha filha, e que outra solução você vê? Você entende que não tem mais cheque especial? Que ou é isso ou podemos perder a casa? Eu falei com algumas pessoas. Não queria isso, na verdade é meu último tiro, mas talvez eu volte a trabalhar em ambulatório. Pai, escuta o que eu te digo. Eu posso não ter dinheiro agora, mas não vou ficar desempregada pra sempre. Quando eu voltar a ter dinheiro você não vai precisar sacrificar tanta coisa assim. Mas o que eu faço enquanto isso, filha? Olha, não é querer falar não, mas tá demorando, né? Você já vai pra quase dois anos desempregada. Eu não entendo muita coisa, mas com as coisas que você sabe, já poderia ter dado um jeitinho. Não pense que isso é uma cobrança, bom, não deixa de ser, também, mas não quero que você se sinta mal por isso. Eu só não posso ficar contando com você, não diante da nossa atual situação. Preciso agir agora. Eu sei que um dia você vai ganhar seu dinheirinho, e ele vai ser só pra você, filha. Eu não quero ele.

As cores do arco-íris, tão bonitas no céu

A questão não é essa, pai. É essa, mas também não é. Você sabe que esse é meu último ano na faculdade, que infelizmente tudo depende dos próximos seis meses; e esse é meu compromisso máximo. Eu não vejo a hora de trabalhar feito uma doida, mas eu tô presa nisso. Por enquanto. Desculpa, pai, mas eu não estudei tanto pra ficar atrás de um balcão e prejudicar a conclusão da graduação por conta disso. O retorno vai vir. Pelos nossos esforços, juntos. Eu sei que você também sabe disso, não sabe? E não tem essa de "meu dinheirinho é só pra mim", é claro que eu vou chegar junto e vou tapar todos os buracos que eu puder, assim que puder. Não sou ingrata. É claro que eu vou cuidar de você e da minha mãe, nenhum de vocês precisa ter a menor dúvida quanto a isso.

Também estão nos rostos das pessoas que passam

Você acha que você é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha? Olha, seu avô começou trabalhando atrás de um. Trabalhou atrás de um balcão por quase oito anos, até ele conseguir mudar de condição. Sua avó era merendeira. E não era só eu e uma irmã em casa não; era eu e mais dez. Já se imaginou morando com mais dez irmãos? Vendo dois deles morrer porque faltava tudo? Eu comecei a ajudar em casa com dez anos, filha. Dez anos. Eu ia e voltava pra lá e pra cá entregando as quentinhas que sua vó fazia. Muito me orgulha que você não tenha precisado passar por isso, muito me orgulha que com essa idade você tava na escola, bem alimentada, fazendo dever, viajando quando podia. Muito me orgulha que você vai se formar por uma grande universidade. Mas você acha que é melhor que alguém que trabalha atrás de balcão, minha filha?

Vejo amigos se cumprimentando, dizendo "como você vai"

Sacudimos as mãos no ar, trocando o ritmo por um sapateado displicente. Meu pai dá um salto, e de sapateado vamos ao foxtrote; mas nos demoramos pouco, voltamos à valsa tosca e performática de antes, ele me suspende pela cintura, e meus braços florescem no ar abrindo e fechando quase no mesmo instante, ele me devolve ao chão lentamente como se me pusesse pra dormir. Tomo seus braços num movimento drástico, um, dois, três rodopios, e antes que ele fuja da minha órbita é resgatado pela minha mão no limite da extensão, ele ri do que penso ser nossa falta de cadência, tem razão, filha, nós somos péssimos dançarinos.

Na verdade eles estão dizendo "eu te amo"

O peso da chuva finalmente rompe a membrana das nuvens; as gotas cadentes vão procurar o asfalto com as bocas bem abertas; o asfalto ferve a água morna e nos devolve o calor vaporoso que angustia o corpo, ressentido pelo desconforto da resposta: espécie anômala de frio vespertino no deserto. Entre mim e meu pai se interpoem delicados cavalos microscópicos que nos atiçam o suor. A água, déspota da fome, tem como único objetivo alimentar-se de mais água. Quer se parecer mais e mais consigo.

Ouço bebês chorando, eu os vejo crescer

Tombo a cabeça no peito quente de meu pai e ouço um ruído de raízes serpenteando lá dentro sem agonia. Estudo sem pressa o rigor saudável de seu amor retumbante e incorruptível forjado na tradição dos costumes, na força educativa das perdas humanas e capitais, no compreensível bem-estar físico de seus méritos por seus esforços, na lentidão cálida de infinitas horas rezadas aos santos de sua confiança, e lá, nesse alto que presumo, está a beleza opulenta e incontestável da fé, que por afastá-lo diariamente de uma pérola de cianeto de potássio, tem de mim uma gratidão diagonal muito superior a que ele jamais será capaz de imaginar, na contraintuição de quem nunca aprendeu direito a rezar.

Eles saberão muito mais do que eu jamais soube

Como foi no sonho, ele me pergunta. Sonhei que era uma menina! Estávamos na casa de praia, ela me chamava pra ir ver alguma coisa nos fundos da casa, onde a gente comia pão-com-ovo que minha avó fazia pra gente escondido. Lá ela tirava o neném da barriga, como se desfizesse uma dobradura. E era uma menina. Ah, uma menina linda! Ele sorri, ponderando. Eu queria menino. Imagina só se vier um menino -- seu rosto se avermelha intensamente e os olhos explodem. Eu vou endoidar. Mas se vier uma menina você vai poder fazer as mesmas coisas, já pensou? Ensinar a soltar pipa, jogar futebol, é tudo criança, é tudo curiosidade, é tudo desbunde. Mas ele não concorda, eu sei que não; então prolonga o sorriso que vai se perdendo em alguma outra expressão indefinível. Eu vou amar independente de qualquer coisa, é só isso que eu sei. Eu vou ser avô! Você não sabe o que é isso. Não vai saber tão cedo. Confirmo com um sorriso. A gente tem sorte, pai. A dança vai se convertendo num abraço que termina sem aplausos. E eu penso comigo, que mundo maravilhoso.



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Carta ao avô

Se este fosse um janeiro como os anteriores, a essa altura eu estaria provavelmente submersa na dimensão azul e sem som das praias que banham a costa da região que me conhece desde que me arriscava em suas águas envolta nos braços de meu pai. Mas a entrada pouco triunfal da humanidade num novo período geológico revolucionou a face do mês, e o sol apático craquelando sua luz morna sobre minha cabeça e alimentando as plantas ainda selvagens do jardim me informa da violência discreta da finitude.

Foi pouco depois de lavar a louça do almoço. Eu tateava o colo seco das gavetas procurando por um pano de prato, de certo modo temerária da justa e silenciosa presença de alguma aranha ocupando o espaço -- uma questão de lógica, éramos nós os hóspedes. Nenhuma quelícera me deteve. O que a mão sem olhos encontrou foi coisa de outra espécie.

Trazer aquele óculos pra fora foi uma exumação. Mas no verso da luz anêmica desse dia experimentei o acalanto do sorriso psicológico na transparência de suas lentes. Testo esse óculos, estrangeira. Me pergunto se um dia meus olhos perfeitos vestirão sua antiga deficiência. Era assim o mundo bifocal e amarelado de meu avô. Era assim que ele me percebia, ligeiramente dupla e amarelada, e talvez no fim de sua vida eu não fosse diferente de uma estrela do cinema ou de uma das árvores do jardim. Aquele esqueleto logo se infla da matéria que o tempo leva mais tempo para roer. Os objetos da casa animam seu fantasma, revelando sua antiga anatomia: o banco de assento curvado e pernas arcadas, a falsa arcada de resina sem mandíbulas escondida no banheiro, o corpo de plástico de seu exclusivo garfo, arranhado por leves queimaduras. Meu avô na sala, meu avô na varanda, meu avô na porta da cozinha. Meu avô no espelho, comigo.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

[CRÍTICA] Os Últimos na Terra (Z for Zachariah) - o que de humanidade permanece

Trabalhamos com possíveis spoilers! Estou presumindo que você viu o filme!



Em seu quarto longa, Os Últimos na Terra (Z for Zachariah), o diretor Craig Zobel trabalha com as variadas tensões que envolvem a humanidade que resta (realmente, no sentido residual) em três sobreviventes que se encontram após um desastre nuclear que, ao que tudo indica, trouxe consigo o fim da espécie humana.

A premissa da fita é simples. A indolente Ann (Margot Robbie) é uma jovem de 16 anos que se vê sozinha (no mundo) após seu pai e irmão saírem em busca de sobreviventes algum tempo depois da grande hecatombe. Morando num pequeno condado, segue com sua vida de maneira aparentemente resignada, até que um estranho perturba a água parada de seu cotidiano: trata-se do engenheiro John Loomis (Chiwetel Ejiofor), que, sem saber, surpreende Ann numa estrada para, momentos depois, ser surpreendido por ela ao banhar-se numa cachoeira radioativa. O primeiro contato entre os dois promove uma boa ilustração sobre como o evento nuclear alterou radicalmente a dinâmica no reconhecimento do outro, servindo, pois bem, de prólogo para o desenrolar da narrativa, indicando que tudo é suspeito, até que se prove o contrário. Vencida a desconfiança, Ann recebe Loomis em sua casa, e, num primeiro momento, naturalmente os dois trocam seus registros sobre a tragédia, dos respectivos pontos em que suas vidas estavam. Transcorrido algum tempo, durante uma sondagem pelos campos que circundam sua propriedade, Ann cruza com outro sobrevivente, Caleb, (Chris Pine) também levando-o para casa e oferecendo-lhe abrigo até que decida que destino seguirá. 

Para além do cuidado do roteiro de Nissar Modi em não deixar muito claro em que momento se deu o desastre, a nebulosidade também recai sobre a psique dos personagens, em contraposição com a luminosidade por vezes ostensiva dos planos abertos do filme. Pouco se sabe sobre eles, e a informação a que temos acesso é contada na ausência: de certa maneira, cabe ao espectador um trabalho paleontológico. O mais flagrante destes exemplos se dá quando Ann encontra John Loomis bêbado, num velho posto de conveniência. O diálogo (bem, o monólogo) é uma pista sobre a importância de se aprender a refinar uma leitura sobre um Outro com tantos buracos na configuração pós-antropocênica que propõe Zobel.

O filme não oferece um protagonista, mas a julgar que, na ordem de surgimento dos personagens, a primeira é Ann, e sobretudo porque ela é a única (a última?) mulher entre dois homens, há um orbitamento concentrado em sua figura. Como dito, Ann é uma adolescente (fato não-explicitado no texto do filme, mas em sua sinopse e nas espinhas em seu rosto) cristã, o que a coloca diametralmente oposta a Loomis, um homem da ciência. No entanto, provavelmente por conta do contexto de destruição colocado, os dois assumem uma convivência pacífica e complementar, apesar de povoada de embates sutis e muito bem construídos nesse sentido, que não caem nas armadilhas do lugar-comum. A cena da discussão sobre a capela, além de provocadora, é brilhante no comedimento do pingue-pongue ideológico dos personagens. Essa cena, aliás, é o único momento do filme em que temos um crepúsculo, como se o próprio embate entre fé e razão estivesse experimentando, em si, um definitivo anoitecimento: não há mais a certeza opulenta de antes em nenhum dos lados.

No segundo terço da projeção, Zobel faz um jogo engenhoso, preservando - e ressaltando - resíduos que misturam o comportamento humano e animal, quando entra em cena o terceiro personagem, Caleb. Em uma única, e quase imperceptível fala, é explorado o fantasma do racismo experimentado por Loomis, que mesmo diante do fim da civilização, permanece rochoso enquanto herança histórica, e sensível ao afeto do homem negro ante à possibilidade de ser preterido a um homem branco (por uma mulher, que fique claro, também branca), como se todo o mal da doutrina racista fosse, de fato, o mal que Drummond chama o produto quintessente de um laboratório falido. De novo, resíduo: o que está por baixo, o que fica por último. Ainda, acontece aqui uma tensão de gênero que percorre a disputa testosterônica velada entre Loomis e Caleb, e Ann está no centro dela. Loomis, que chega antes de Caleb, assume uma postura machista em relação à Ann exclusivamente quando sente seu território ameaçado: antes disso, seu personagem havia estabelecido com a moça uma coexistência afetiva que, apesar das investidas de Ann, segundo seu julgamento ainda tinha o que amadurar. Aqui está a imbricação homem X animal: se por um lado é possível apontar o machismo de Loomis, (e o machismo está na humanidade, não na natureza) por outro, diante das condições extremas dadas, ele parece entrar num modo de defesa característico dos leões diante de um possível macho beta.

É sobre Caleb, inclusive, que pairam as maiores interrogações do filme. Ele é o personagem que menos tempo dura em exibição, o que nos fornece menos informação, e que acaba funcionando como o gatilho desestabilizador do trio, até o momento em que o filme se encerra com um final ambíguo. Seu personagem é mesmo calcado na ambiguidade: apesar da escassez de informações sobre Ann e John Loomis, o roteiro lhes reserva alguma confiabilidade (talvez por contar com o instinto de preservação da espécie do espectador, que irresistivelmente cogitará a união amorosa desse par), enquanto a Caleb destina uma luz densamente cinzenta. Em algumas críticas sobre o filme, a propriedade na qual Ann vive é associada a um Éden, quer pelo isolamento, quer pela quietude, quer pela beleza da natureza que estranhamente não parece ter sido afetada pela radiação - e, obviamente, pela presença de uma única mulher, que passa a dividir seu espaço com um homem. Isto posto, poderia a presença de Caleb ser a representação da serpente? É tentador que uma investigação sobre o filme ganhe a via do religioso. Todos os personagens têm nomes bíblicos. Ann, por exemplo, é uma variação de Anna, que na bíblia é uma profetiza que antevê o nascimento de, entre outros personagens, Jesus, Zacarias e... de João. (Qual é mesmo o primeiro nome de Loomis?) Ela ganha uma representação antiga na figura de uma mulher idosa, visionária, íntegra. Para além disso, é um nome que começa com a letra A, numa contraposição radical ao título original do próprio filme, Z for Zachariah (Z de Zacarias, que obviamente seria um fiasco em termos de recepção com uma tradução dessas). Zacarias, personagem também bíblico afinal. Aliás, há uma cena discreta que faz uma referência com o nome original do filme por meio de um paralelo. 

Com uma bela curadoria musical, Heather McIntosh traz em seu órgão o tom preciso do luto, solidão, incerteza, e acima de tudo a sensação de esfacelamento que atravessam os personagens de Os Últimos na Terra, equilibrado com o som fanhoso e familiar de uma velha vitrola que tempera a desesperança com lampejos de uma serenidade menos pessimista. O longa guarda, ainda, uma surpresinha apetitosa para os fãs de Tarkovsky. Se em seu filme o russo adiciona uma cor sobrenatural à inocência, - ou à corrupção dela - Zobel tende a um pragmatismo desencantador em sua referência. Sua mensagem, então, parece mais clara, e porque não dizer, mais direta: o fim de tudo é apenas mais um inevitável dia como qualquer outro.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Deixa o meu silêncio dizer nada

meu silêncio quer andar chutando
latas pela cidade
assobiando baixinho
uma composição instantânea
ele quer
cheirar sacolas de lixo
sem se importar com os diamantes

meu silêncio não tem
disciplina pra iluminação

meu silêncio vai fumar um cigarro
e encher os pulmões despreocupados
porque não tem amor algum
meu silêncio quer fugir dos paparazzi
descendo o alto da boa-vista
equilibrado numa bicicleta sem freio
sem as mãos
em franca disparada

meu silêncio é isso: ele não se preocupa
com nada

ele não é como o
silêncio de vocês um silêncio
úmido e tão robusto
e tão inchado
de tantas coisas que pode ser
coisas graves, tamanhas
a súplica das entranhas
os temores do mundo
as lágrimas invisíveis
explicação da explicação da explicação
meu silêncio
não pediu interpretação

meu silêncio está cansado dos
seus abraços das suas perguntas
seus olhos pintados de vermelho-vivo
ele não é nenhum ponto turístico
para te receber

deixa o meu silêncio dizer nada
isso é tudo o que ele quer dizer.