segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Carta ao avô

Se este fosse um janeiro como os anteriores, a essa altura eu estaria provavelmente submersa na dimensão azul e sem som das praias que banham a costa da região que me conhece desde que me arriscava em suas águas envolta nos braços de meu pai. Mas a entrada pouco triunfal da humanidade num novo período geológico revolucionou a face do mês, e o sol apático craquelando sua luz morna sobre minha cabeça e alimentando as plantas ainda selvagens do jardim me informa da violência discreta da finitude.

Foi pouco depois de lavar a louça do almoço. Eu tateava o colo seco das gavetas procurando por um pano de prato, de certo modo temerária da justa e silenciosa presença de alguma aranha ocupando o espaço -- uma questão de lógica, éramos nós os hóspedes. Nenhuma quelícera me deteve. O que a mão sem olhos encontrou foi coisa de outra espécie.

Trazer aquele óculos pra fora foi uma exumação. Mas no verso da luz anêmica desse dia experimentei o acalanto do sorriso psicológico na transparência de suas lentes. Testo esse óculos, estrangeira. Me pergunto se um dia meus olhos perfeitos vestirão sua antiga deficiência. Era assim o mundo bifocal e amarelado de meu avô. Era assim que ele me percebia, ligeiramente dupla e amarelada, e talvez no fim de sua vida eu não fosse diferente de uma estrela do cinema ou de uma das árvores do jardim. Aquele esqueleto logo se infla da matéria que o tempo leva mais tempo para roer. Os objetos da casa animam seu fantasma, revelando sua antiga anatomia: o banco de assento curvado e pernas arcadas, a falsa arcada de resina sem mandíbulas escondida no banheiro, o corpo de plástico de seu exclusivo garfo, arranhado por leves queimaduras. Meu avô na sala, meu avô na varanda, meu avô na porta da cozinha. Meu avô no espelho, comigo.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

[CRÍTICA] Os Últimos na Terra (Z for Zachariah) - o que de humanidade permanece

Trabalhamos com possíveis spoilers! Estou presumindo que você viu o filme!



Em seu quarto longa, Os Últimos na Terra (Z for Zachariah), o diretor Craig Zobel trabalha com as variadas tensões que envolvem a humanidade que resta (realmente, no sentido residual) em três sobreviventes que se encontram após um desastre nuclear que, ao que tudo indica, trouxe consigo o fim da espécie humana.

A premissa da fita é simples. A indolente Ann (Margot Robbie) é uma jovem de 16 anos que se vê sozinha (no mundo) após seu pai e irmão saírem em busca de sobreviventes algum tempo depois da grande hecatombe. Morando num pequeno condado, segue com sua vida de maneira aparentemente resignada, até que um estranho perturba a água parada de seu cotidiano: trata-se do engenheiro John Loomis (Chiwetel Ejiofor), que, sem saber, surpreende Ann numa estrada para, momentos depois, ser surpreendido por ela ao banhar-se numa cachoeira radioativa. O primeiro contato entre os dois promove uma boa ilustração sobre como o evento nuclear alterou radicalmente a dinâmica no reconhecimento do outro, servindo, pois bem, de prólogo para o desenrolar da narrativa, indicando que tudo é suspeito, até que se prove o contrário. Vencida a desconfiança, Ann recebe Loomis em sua casa, e, num primeiro momento, naturalmente os dois trocam seus registros sobre a tragédia, dos respectivos pontos em que suas vidas estavam. Transcorrido algum tempo, durante uma sondagem pelos campos que circundam sua propriedade, Ann cruza com outro sobrevivente, Caleb, (Chris Pine) também levando-o para casa e oferecendo-lhe abrigo até que decida que destino seguirá. 

Para além do cuidado do roteiro de Nissar Modi em não deixar muito claro em que momento se deu o desastre, a nebulosidade também recai sobre a psique dos personagens, em contraposição com a luminosidade por vezes ostensiva dos planos abertos do filme. Pouco se sabe sobre eles, e a informação a que temos acesso é contada na ausência: de certa maneira, cabe ao espectador um trabalho paleontológico. O mais flagrante destes exemplos se dá quando Ann encontra John Loomis bêbado, num velho posto de conveniência. O diálogo (bem, o monólogo) é uma pista sobre a importância de se aprender a refinar uma leitura sobre um Outro com tantos buracos na configuração pós-antropocênica que propõe Zobel.

O filme não oferece um protagonista, mas a julgar que, na ordem de surgimento dos personagens, a primeira é Ann, e sobretudo porque ela é a única (a última?) mulher entre dois homens, há um orbitamento concentrado em sua figura. Como dito, Ann é uma adolescente (fato não-explicitado no texto do filme, mas em sua sinopse e nas espinhas em seu rosto) cristã, o que a coloca diametralmente oposta a Loomis, um homem da ciência. No entanto, provavelmente por conta do contexto de destruição colocado, os dois assumem uma convivência pacífica e complementar, apesar de povoada de embates sutis e muito bem construídos nesse sentido, que não caem nas armadilhas do lugar-comum. A cena da discussão sobre a capela, além de provocadora, é brilhante no comedimento do pingue-pongue ideológico dos personagens. Essa cena, aliás, é o único momento do filme em que temos um crepúsculo, como se o próprio embate entre fé e razão estivesse experimentando, em si, um definitivo anoitecimento: não há mais a certeza opulenta de antes em nenhum dos lados.

No segundo terço da projeção, Zobel faz um jogo engenhoso, preservando - e ressaltando - resíduos que misturam o comportamento humano e animal, quando entra em cena o terceiro personagem, Caleb. Em uma única, e quase imperceptível fala, é explorado o fantasma do racismo experimentado por Loomis, que mesmo diante do fim da civilização, permanece rochoso enquanto herança histórica, e sensível ao afeto do homem negro ante à possibilidade de ser preterido a um homem branco (por uma mulher, que fique claro, também branca), como se todo o mal da doutrina racista fosse, de fato, o mal que Drummond chama o produto quintessente de um laboratório falido. De novo, resíduo: o que está por baixo, o que fica por último. Ainda, acontece aqui uma tensão de gênero que percorre a disputa testosterônica velada entre Loomis e Caleb, e Ann está no centro dela. Loomis, que chega antes de Caleb, assume uma postura machista em relação à Ann exclusivamente quando sente seu território ameaçado: antes disso, seu personagem havia estabelecido com a moça uma coexistência afetiva que, apesar das investidas de Ann, segundo seu julgamento ainda tinha o que amadurar. Aqui está a imbricação homem X animal: se por um lado é possível apontar o machismo de Loomis, (e o machismo está na humanidade, não na natureza) por outro, diante das condições extremas dadas, ele parece entrar num modo de defesa característico dos leões diante de um possível macho beta.

É sobre Caleb, inclusive, que pairam as maiores interrogações do filme. Ele é o personagem que menos tempo dura em exibição, o que nos fornece menos informação, e que acaba funcionando como o gatilho desestabilizador do trio, até o momento em que o filme se encerra com um final ambíguo. Seu personagem é mesmo calcado na ambiguidade: apesar da escassez de informações sobre Ann e John Loomis, o roteiro lhes reserva alguma confiabilidade (talvez por contar com o instinto de preservação da espécie do espectador, que irresistivelmente cogitará a união amorosa desse par), enquanto a Caleb destina uma luz densamente cinzenta. Em algumas críticas sobre o filme, a propriedade na qual Ann vive é associada a um Éden, quer pelo isolamento, quer pela quietude, quer pela beleza da natureza que estranhamente não parece ter sido afetada pela radiação - e, obviamente, pela presença de uma única mulher, que passa a dividir seu espaço com um homem. Isto posto, poderia a presença de Caleb ser a representação da serpente? É tentador que uma investigação sobre o filme ganhe a via do religioso. Todos os personagens têm nomes bíblicos. Ann, por exemplo, é uma variação de Anna, que na bíblia é uma profetiza que antevê o nascimento de, entre outros personagens, Jesus, Zacarias e... de João. (Qual é mesmo o primeiro nome de Loomis?) Ela ganha uma representação antiga na figura de uma mulher idosa, visionária, íntegra. Para além disso, é um nome que começa com a letra A, numa contraposição radical ao título original do próprio filme, Z for Zachariah (Z de Zacarias, que obviamente seria um fiasco em termos de recepção com uma tradução dessas). Zacarias, personagem também bíblico afinal. Aliás, há uma cena discreta que faz uma referência com o nome original do filme por meio de um paralelo. 

Com uma bela curadoria musical, Heather McIntosh traz em seu órgão o tom preciso do luto, solidão, incerteza, e acima de tudo a sensação de esfacelamento que atravessam os personagens de Os Últimos na Terra, equilibrado com o som fanhoso e familiar de uma velha vitrola que tempera a desesperança com lampejos de uma serenidade menos pessimista. O longa guarda, ainda, uma surpresinha apetitosa para os fãs de Tarkovsky. Se em seu filme o russo adiciona uma cor sobrenatural à inocência, - ou à corrupção dela - Zobel tende a um pragmatismo desencantador em sua referência. Sua mensagem, então, parece mais clara, e porque não dizer, mais direta: o fim de tudo é apenas mais um inevitável dia como qualquer outro.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Deixa o meu silêncio dizer nada

meu silêncio quer andar chutando
latas pela cidade
assobiando baixinho
uma composição instantânea
ele quer
cheirar sacolas de lixo
sem se importar com os diamantes

meu silêncio não tem
disciplina pra iluminação

meu silêncio vai fumar um cigarro
e encher os pulmões despreocupados
porque não tem amor algum
meu silêncio quer fugir dos paparazzi
descendo o alto da boa-vista
equilibrado numa bicicleta sem freio
sem as mãos
em franca disparada

meu silêncio é isso: ele não se preocupa
com nada

ele não é como o
silêncio de vocês um silêncio
úmido e tão robusto
e tão inchado
de tantas coisas que pode ser
coisas graves, tamanhas
a súplica das entranhas
os temores do mundo
as lágrimas invisíveis
explicação da explicação da explicação
meu silêncio
não pediu interpretação

meu silêncio está cansado dos
seus abraços das suas perguntas
seus olhos pintados de vermelho-vivo
ele não é nenhum ponto turístico
para te receber

deixa o meu silêncio dizer nada
isso é tudo o que ele quer dizer.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

[TRADUÇÃO] Partida - Cecil Day Lewis



Dezoito anos no tempo, quase o dia -
Um dia ensolarado, as folhas mudando,
As linhas laterais no chão recentes - desde que te vi jogando
Seu primeiro jogo de futebol, e então, como um satélite
Arrebatado de sua órbita, se afastando

Atrás de um grupinho de meninos. Posso ver
Você se apartando de mim em direção à escola
Com a experiência de criatura quase crescida solta
Na natureza, a marcha daquele
Que não acha o caminho onde caminho deveria haver.

Aquela figura hesitante, partindo em espirais
Feito pequena semente alada, de seu caule perdida,
Tem uma coisa que nunca consegui expressar
Isso da natureza dar e tomar - o pequeno, abrasivo
Expiar em fogo de um irresoluto barro.

Já tive as piores despedidas, mas nenhuma que tenha
Mastigado minha mente tanto assim. Talvez seja muito grosseiro
Dizer o que Deus por si poderia perfeitamente exibir -
Como a individualidade começa com uma partida,
E o amor se prova quando deixamos ir.

WALKING AWAY - Cecil Day Lewis
Tradução: Ana Líbia Fernandes, 04/12/2017

original disponível em: http://www.storiesspace.com/forum/yaf_postst748_Poem-of-the-day--WALKING-AWAY--Cecil-Day-Lewis.aspx

Do sol

do sol
não posso dizer porque
não posso ver porque
ele não me deixa
besta fera estúpida
mas
sei dele

que esteve aqui e
quanto tempo ficou
no reflexo no estrago no consumo
da cor que havia
nas bolhas da pele e nas dobras onde
mil criaturas abomináveis estão
pacificamente assentadas
há meses
tomando a gordura quente da matéria
por estômagos impossíveis

o sol foi passando na vida

trouxe a luz a velhice o escurecimento
queimou
minhas fotografias e hipnotizou
as plantas da varanda
nem todas as luas são cheias
mas o sol
como um rio
- ele disse assim -
seu curso é fixo

o sol é branco é laranja é vermelho é
amarelo
o sol é amarelo no jardim da infância
manga fresca e descarnada
fossem possíveis dois verões
na mesma sala