segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Às vezes, quando me deito com meu homem
Penso em alguns outros homens
Que um dia já foram meus.

De uns, saudade - tornaram-se amigos, irmãos;
De outros, ponta de faca e de mágoa - saudade não trago não.
De uns fui rainha;
Outros me tiveram na mão.

Às vezes, quando me deito com meu homem
Penso em alguns outros homens
Que um dia já foram meus.

Dois de nós têm passados
E antes de nos toparmos, de outros fomos
embora, agora, um do outro somos.
Não é cruz ou estandarte
negar o capítulo à parte.

Às vezes, quando me deito com meu homem
Penso em alguns outros homens
Que um dia já foram meus.

Brancos, negros, morenos,
Toureiros espanhóis, enxadristas;
Soldados de Napoleão, escafandristas;
De Mercúrio a Marte, de sacros a putos
Que me tiveram ou por um beijo na mão
Ou por argumentos mais astutos.

Não é desejo ou falta
que me aproxima o pensamento dos outros homens.
É tudo produto de ócio e imaginação:
Imaginação para reinventar os dias que foram,
Lustrar a fronte de tais homens, feito troféus
velhos e empoeirados que estão
E de volta depositá-los na estante
Para não esquecer que os ganhei.

Às vezes, quando me deito com meu homem
Penso em alguns outros homens
Que um dia já foram meus.

Pensar em outro homem
É coisa de toda mulher insone
Depois de muito amar o homem a seu lado
E cansar de velá-lo a dormir.
Daí então os desenhos distorcidos
Feitos na escuridão
Daqueles que se viu chegar e partir
Que escreveram no leito
Linhas de história
E que nada hoje os liga a essas mulheres
Senão memória.
Homens que já não despertam paixão,
homens que já não as podem ferir.

Às vezes, quando me deito com meu homem
Penso em homens que já foram meus.
Daí me aninho no peito seguro e macio do homem com quem durmo
E para todos os outros homens
Boa noite e adeus.

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