domingo, 9 de agosto de 2015

Sempre

Gosto da assunção de determinadas palavras. Curioso em si: parece uma percepção contraditória já que as palavras são arbitrárias, mas de tanto transitar da boca pros ouvidos elas parecem se deitar eternamente dentro do sentido que propõem, como se sempre estivessem estado lá. Quando foi mesmo que começaram a florescer as cracas no peito dos navios afundados?

A palavra marca, primeiramente, o que existe. O conceituável. O nominável. Num esforço, muitas vezes se esmerilha entre combinações laboriosas de prefixos e sufixos para atender até o que parece mais imprecisável. Inexistente a palavra, desconsiderada a existência. Lovecraft já havia nos dado a dica em 27.

Mas gosto da assunção de determinadas palavras.

Do vasto universo de palavras que por si só pesam toneladas, me amedronta e fascina tudo o que gira em torno dessa invenção que se grafa "sempre".

"Sempre" é uma palavra universal.

Traduz a ideia de uma paz absoluta e imperturbável, de uma serenidade abstrata e corrosiva; de estado inalterável de qualquer coisa: gente, rochas, governos, matéria, forma. Inexorabilidade. Nem mesmo "nunca" é páreo para "sempre". "Sempre" é a palavra que vencerá todas as outras pelo cansaço. "Força" cede, todo "invencível" tem um ponto fraco, e mesmo Drácula prova que "imortal" tem seus limites. Mas "sempre" segue se imiscuindo pela vida de todas as coisas, incansável e oxidante, desde a primeira planária a todos os mistérios que se seguem depois do que for último. Não há antes ou depois diante de "sempre". "Sempre" ignora recortes, impetuoso.

"Sempre", portanto, não é apenas um mero advérbio de tempo.
"Sempre" é o próprio tempo em si.

2 comentários:

Gabriel Rocha Gaspar disse...

Quanta literatura boa você desfila por aqui, menina! É reconfortante o carinho com que você trata as palavras, tão agredidas pelas políticas apolíticas da nossa era. Até onde eu sei - e sinto que já soube mais - política é a arte de ocupar com palavras o espaço da guerra, né? Cada vez mais, tenho a sensação de que estamos ocupando com guerra o espaço das palavras. Obrigado por lembrar que esses tijolos literários foram feitos pra construir filosofia e não para atirar na cabeça dos outros.

Ana Líbia Fernandes disse...

Gabriel afroente! Mas é uma honra ter você por aqui. E você, parou de escrever? Sinto muita falta do seu blog, hein! Aprendi coisas valiosas por lá!
Super beijo!