sexta-feira, 5 de maio de 2017

adeus ao coração continental

toda a américa pôde ouvir o infinito som do seu coração trincando e se rachando, um duelo de justas esquizofrênico no seio do isolamento, sem testamento, sem pronunciamento, sem platéias. nunca precisara delas estando confortável, tendo o que comer, onde dormir e um lugar pra recostar as incertezas. foi um som infinito para um coração infinito.

do lado de fora da cabana, uma revoada de pássaros. os pássaros foram as últimas imagens dos seus olhos antes de se voltarem eternamente pra dentro, e deve ter achado bonitos os pássaros. talvez tivesse pensado em escrever uma carta para alguém que não via já há muito tempo, ou cozinhar um ovo quando dali se levantasse, jogar bola no gramado ainda fresco do sereno da noite anterior. tudo o que fica por acontecer é sempre pleno de hipóteses. e ainda assim, nenhuma delas vale mais do que o fato, assim crêem as madres dos colégios, os advogados de porta de cadeia, os homens com hepatite nos botequins. as donas-de-casa assistindo programas vespertinos ou ouvindo rádio, elas não. elas estão obstinadamente agarradas a tudo quanto for acontecível, e não espanta que elas sejam as criaturas mais fascinantes. fora uma dessas que o havia abrigado, bem quentinho, lá no ventre. antes de seu tempo humano começar a se contar.

ficou uma flor de água no chão da cabana onde seu coração se rachara. foi essa água que entranhou, macia, os confins da terra e invisivelmente sacudiu cada pedra de uma américa bem gasta, mas pisciana de sonho e desrazão.

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