sábado, 4 de julho de 2009

Cretinices e calhordagens

Sabiamente já dizia Lispector: o que obviamente não presta, sempre me interessou muito. O pior disso é que não tenho como discordar dela. Cigarros me interessam. Insônia me interessa. Maus hábitos me interessam. Pornografia me interessa. Mais de um homem também me interessa.
Eu já vinha pensando há algum tempo sobre esse tema, sem ter a mínima idéia de como articulá-lo, talvez até dada a sua complexidade de organização. E, voltando da rua numa tarde cinzenta de sexta-feira, duas palavras simplesmente não me saíam da cabeça: cretinices e calhordagens. Enquanto pensava nessas palavras, eu lembrava de um veeelho blues de Peggy Lee, chamado "Why don't you do right?" - que ficou ainda mais famoso na voz de Amy Irving, vivida pela lânguida Jessica Rabbit em "Uma cilada para Roger Rabbit" - que basicamente trata do poder que um homem bem estúpido pode ter sobre uma mulher que está dormente de amores. Cretinices.
Homens são danados pra aprontarem as tais cretinices e calhordagens. Mentir, trair, roubar, matar, iludir. Mas devo reconhecer aqui que não só eles. Mulheres também conseguem ser demasiado cruéis quando querem alguma coisa. Vagina e coração são os músculos mais traiçoeiros de uma mulher. Eles desempenham uma função dupla: podem, tanto catapultá-la para onde quer ela queira ascender, como podem lançá-la à pior desventura. Nós, mulheres, temos o dom de sermos laconicamente cretinas quando queremos. Basta classe. O batom e o decote certos.
Não é nada digno dizer isso, mas que verdade não dói? Em algum momento da vida, toda pessoa usa de certa calhordagem pra poder transpor algum obstáculo. Em algum momento, todo mundo mente. Omite. Usa de favores, faz favores; e estes podem ser razoáveis, ou bem imundos. Desde sempre, esse é o tipo de cadeia que rege não todas, mas muitas das relações humanas. E nós todos bem sabemos que estas existem, ainda que veladas. Tabulizadas. A problemática das cretinices/calhordagens é ampla, e está bem no seio de toda estrutura onde se projete qualquer sociedade. Existe isso, tanto na Daslu quanto na Rocinha, com diferenças apenas glamourizantes.
Leitor meu, não entenda a questão do ponto de vista apenas sexual - se é que o texto aqui o está inclinando para tal. As cretinices podem ser diárias, e muito mais comuns do que se imagina, e se distribuir em graus. Um beijo no escuro no namorado da colega é uma cretinice. Uma banda na promoção do parceiro da firma é uma calhordagem. Uma mentira bem engendrada, a fim de não magoar ninguém, é uma boa cretinice. O Sarney ter nascido, porra, é uma calhordagem. Da grossa. Como é possível observar, a calhordagem está num plano um pouco maior de filhadaputice que a cretinice. No entanto, o ideal - ideal - seria se afastar das duas. Aí que está o grande desafio.
Certas coisas na vida são demasiado sedutoras para se resistir. Não é apologia ao errado; é só uma simples exposição da mazela humana da fraqueza. A culpa é da carne. Se formos parar pra refletir, esse embate com requintes barrocos existe desde que mundo é mundo. O certo e o errado, razão e emoção. Por fim, andar na linha é sempre muito difícil e, parafraseando Bial, é só você contra você mesmo.
Fuja das cretinices e calhordagens da vida. Mas devagar, para que elas tenham tempo de te alcançar.

4 comentários:

Luís C. Martino Jr disse...

"A culpa é da carne", "andar na linha é sempre muito difícil".. oi?!

Chegou a hora de discordar: só eu acho que tudo relativo a esse assunto é 100% cultural?

Digo.. merdas acontecem, fato (e sem tom justificativo), mas o que vale é SEMPRE a intenção.

=]
Luís.

Lázaro Barbosa disse...

"Fuja das cretinices e calhordagens da vida. Mas devagar, para que elas tenham tempo de te alcançar."

É pra rir ou pra chorar?

Saudações verdes

Lázaro

Giovanna disse...

Eu acredito que de boas intenções o inferno tá cheio, mas essa é só a minha opinião. O que importa é o resultado da sua ação. Poucos assumem inclusive para si mesmos, o verdadeiro interesse de suas atitudes, enrustindo uma cretiníce/calhordagem. Muito bom o blog! Um brinde ;) Espero ler mais textos interessantes como esse.

Ruth Marinho disse...

Gostei pra caramba, texto perfeito, incrível. Tô bege.