domingo, 12 de julho de 2009

A tal da espera


Há gente que não goste de esperar. Particularmente, conheço muita gente assim. A espera sempre pressupõe uma inquietação, independente do que o que vier depois dela for bom ou ruim. Ela, muitas vezes, representa um estado congelado, suspenso no tempo, que a gente torce desesperadamente pra que se adiante o mais depressa possível, posto que nos separa do objeto-valor. Mas há algo indiscutível e difícil de se perceber no meio disso tudo, que vai além de revistas num consultório, além das televisões que visam adormecer o sentido retardatário, além da fricção dos dedos úmidos de suor: a espera prepara. A espera tempera.
A espera desenha pro futuro um monte de coisas. Se é uma espera trágica, ainda assim, projeta um resquício de esperança de que tudo não corra tão mal. Mas se é uma espera para algo bom... as hipóteses são fantásticas. Inapalpáveis, tamanho é o deleite. Tudo aquilo que só aumenta o desejo pelo extermínio desse meio-tempo. No caso de uma super festa, ou um super encontro, uma super viagem ao desconhecido, por exemplo, é a espera que salpica de encanto o caminho. E até lá ninguém dorme. E ninguém come. Todo mundo quer saber como vai ser, quer antever sempre o melhor possível, sem imprevistos; fantasiar como serão as pessoas, como serão as cores, as sensações. De certa forma, esse tipo de espera engrandece tanto o acontecimento que torcemos cegamente que tudo saia exatamente como o planejado; faz parte da lógica. Esperar é ir comendo pelas beiradas, saboreando os vislumbres de diversão e delírio que antecedem os reais diversão e delírio. E quando chega... temos a ligeira sensação de que ficamos quase uma vida inteira esperando por aquilo. E aquilo está se materializando, se consumando, e é tão intenso e efêmero que a gente não têm consciência disso até que se acaba; todo mundo levantando âncora, guardando barraca, catando do chão e do ar cristais de sorriso e vozes felizes que ficaram no percurso.
A projeção dum evento assim acaba, por fim, sendo muito maior que o próprio evento. Afinal, tudo o que nós temos, no fundo, são as memórias da emoções que vivemos e que remontamos, conforme praticamos essa memória. Enquanto isso, a espera contorna, com fios de ouro e luz, tudo aquilo que será.
Ou não.