terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Entre Macunaíma e Homer Simpson

Cada nação, um herói. E um herói diz muito sobre o povo que habita esta respectiva nação. O herói é a personificação de um apanhado de aspectos comuns à gente de dada comunidade e, uma vez reunidos, são depositados numa pessoa, e o heroísmo é uma delícia e um fardo, simultaneamente. Mas, em direção à terceira margem do rio, também é possível associar ao herói uma outra característica: a ironia, que particularmente acho bem mais atraente que as citadas. Ela é o principal ingrediente na construção do que chamam anti-herói. Mas o que é o anti-herói que um retrato do povo? Um povo inconstante, de sorriso e mazelas? Os heróis virtuosos são distantes demais; os trágicos são enfadonhos demais. Já os anti-heróis unem e temperam com maestria estas disparidades. Então, o que é melhor que um anti-herói na representação de seus conterrâneos? Sem querer, a contradição faz a lei: o anti-herói é o próprio herói!
Nosso melhor e mais preci(o)so é o famoso Macunaíma andradiano. Vê só se não é a imagem e semelhança do brasileiro: malandro, genioso, lascivo e preguiçoso. Talvez me apareça aqui uma meia-dúzia (ai, como seria bom!) pra me contradizer; mas aos meus olhos, o herói brasileiro não pode ser melhor representado que Macunaíma, filho legítimo do Brasil, aquele que carrega nas costas a identidade nacional; mosaico exato da nossa história.
Mas, pulando fronteiras internacionais, saio em busca dos heróis dos outros países. Da Argentina, meu emblemático e querido Ernesto. Da Itália, Vito Corleone. Dos Estados Unidos... não se atreva a dizer Abraham Lincoln, a explosão pop Obama ou o maldito Ronald Reagan: o maior herói americano de todos os tempos é contemporâneo, mais novo que eu mesma e nunca personificou tão bem a alma dos americanos como o amarelo Homer Simpson de Matt Groening. Este capta com uma precisão assombrosa a essência do comportamento sedentário, periférico, desvelado e sincero dos norte-americanos, por trás de todo o falso moralismo socio-histórico no qual os mesmos estão envoltos por uma fina cortina de hipocrisia. Homer bebe a lot, é sonolento e cansado, insatisfeito com seu ofício profissional e um devorador assíduo da mídia de seu país, o que o deposita num patamar imbecializado de ser; Bart teria possíveis problemas com drogas no futuro, Lisa é uma nerd delicada e introvertida. Isso é plano de fundo o suficiente pra um "Beleza Americana II". Reflete a realidade de um povo que está far away do american way of life; ideário que, a propósito, está morto. Porque as pessoas, então, tendem a rechaçar a realidade enquanto identidade nacional?
Acho uma grande besteira negar a matéria que nos compõe. Que imagem você quer passar? Que mentiras quer transmitir? Macunaíma está para o Brasil como Homer Simpson está para os Estados Unidos, os americanos e brasileiros gostando ou não. E os dois não buscam exatamente nada epifânico ou revelador: são só duas personagens que estão contentes da sua condição e não estão lá muito interessadas em mover suas bundas gordas em direção a uma mudança. Um herói não é um estereótipo. É um emaranhado de vestígios reincidentes e renitentes no âmago de uma sociedade friamente repartida e exposta, e no meio desse amálgama, lá estão, em algum lugar, Grande Othelo e Dan Castellaneta proseando em meio a café e cigarros.