sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Mulheres de Almodóvar


As mulheres de Almodóvar têm todas uma boca. Um cabelo, bem no alto da cabeça, irregular; elas têm uns peitos. Peitos não, elas têm um busto. É. É isso mesmo, um busto. Mulheres de Almodóvar não têm ressacas, mas maremotos inteiros morando nas retinas. E cada olhar duma mulher almodovariana sabe muito bem o que pretende.
As mulheres de Almodóvar vão à feira, catam as melhores hortaliças. Tagarelam com o vizinho sobre qualquer bobagem, são freiras aidéticas, toureiras que temem cobras. E cagam zepelins. Ah, elas cagam! As mulheres de Almodóvar são pequenos retalhos duma plebe de saias. De renda vermelha.
As mulheres de Almodóvar facilmente engolem os (reduzidos) homens de Pedro. Fazem sexo com eles, sem que para isso precisem sair do salto. As mulheres de Almodóvar têm um sangue essencialmente hispânico, cheiram a azeite e sândalo, e se você as colocar próximo ao ouvido poderá ouvir o quente estalar das castanholas madrilenas.
Almodóvar desenhou mulheres já existentes; tudo o que fez foi acrescentar uns tantos de pimenta, cardamomo e lascívia aos naturais encantos delas. Ah, as mulheres de Almodóvar são tão humanas e tão táteis! São embrutecidas de cotidiano, e amainadas por sonhos baratos... ah, Almodóvar! Tuas mulheres são gostosas, como nacos de fruta madura, bem caetaneadas na firmeza do corpo, cheias de problemas, cheias de vícios, cheias de canções! São Marias, Anas, Penelopes, Dulces; tuas mulheres são graciosas até quando não produzem estrogênio.
E o melhor é que elas são tão possíveis...
tão possíveis, Almodóvar, tão possíveis!