sábado, 18 de abril de 2015

Correspondentes

Você se lembra daquelas beliches em que a gente dormia no navio? Aquelas, com cortininhas? Hoje vi uma daquelas naquele antiquário lá perto da casa que a gente morou na Tijuca. Sei lá, pensei em te dizer. Me lembro de você abrindo e fechando as cortininhas, fingindo que era um mágico, cê sempre foi tão cheio de truques. Tava me lembrando daquela viagem há um tempo atrás. Se lembra também daquelas flores na escrivaninha? É engraçado que apesar de adorá-las, eu não me lembro delas, só lembro de você reclamando que eram muito feias e que era muito brega ter flores numa escrivaninha. É curioso gostar tanto de uma coisa e depois de um tempo perder a memória, como se aquela coisa nunca tivesse existido. Tenho medo disso às vezes, você sabe que o meu avô morreu de Alzheimer.

Aqui tem chovido bastante. Já é a segunda vez na semana que dá anúncio de ciclone na televisão. Sua carta demorou quase dois meses pra chegar, eu não sei porque você ainda insiste nisso, tendo facebook, e-mail, tudo. Pior é quando chega, já estou acostumado a abrir os envelopes e ter só dois parágrafos, um desperdício de dinheiro e tempo. Às vezes penso que você é louca, porque não é possível. Sério, por que você não faz um facebook? As coisas seriam tão mais fáceis. Eu tô bem, emagreci quase sete quilos. Veganizei agora. Tá difícil, mas eu me lembro do seu sorriso quando dizia que iria cogitar a ideia. Às vezes eu até chegava a achar que o branco do seu sorriso era porque você não comia carne. Saudade do seu sorriso.

Hoje fui à feira e soube que o filho do Manuel - aquele feirante simpático, você lembra? - morreu num acidente. Soube porque perguntei por ele. Cheguei em casa e não consegui comer nada. A morte é uma coisa assustadora.
Enquanto eu escrevo tem um gongolo andando perto da janela. É como desafiar o meu passado olhar pra esse bicho, acho que é a única coisa que eu não consigo desconstruir na vida. Não é o primeiro que eu vejo por aqui. Morte e gongolos. Os dois últimos medos que eu tenho. Não ando dormindo direito.

Até que dessa vez só demorou um mês pra carta chegar. Fiquei triste pela perda do Manuel. É sempre complicado isso, de perder alguém num acidente. Aqui eu tenho visto cada coisa, você não faz idéia. As notícias que chegam pro Brasil não dão conta nem da metade. Na última chuva forte que teve um dos bairros ficou debaixo d'água, e eu soube que morreu gente lá. E nem mesmo com as enchentes os conflitos cessam. Vontade de ir embora às vezes. Perdi mais dois quilos. Tô me adaptando aos poucos. Minha barba tá quase igual à do Tom Hanks no "Náufrago". Eu tô todo quase igual ao Tom Hanks. Espero que você esteja bem.

Comecei as aulas de dança. Até que enfim! Tô feliz com isso, acho que vai adicionar leveza à minha vida. Que frase engraçada, "adicionar leveza". Também voltei a pensar no doutorado - você bem sabe que quando eu começo projetos, nunca começo um só. Outra coisa importante aconteceu. Voltei a falar com a minha irmã. Foi a maior caminhada da minha vida cruzar esses cinco quarteirões, é como se eu tivesse andando pela primeira vez em dez anos. Ela teve um bebê, e eu não sabia. Me senti culpada, chorei o dia todo, mas agora estamos bem. Ela inclusive deve chegar daqui a pouco porque combinamos que hoje o almoço seria aqui. Comprei umas cenouras de um laranja tão vivo que se eu espremê-las acho que consigo pintar uma tela da Yoko. Minha mãe colocou à venda a casa em Maricá. Ninguém vai mais lá depois que meu avô morreu mesmo.

Que maravilha você ter voltado a falar com a sua irmã. E a notícia do doutorado também. Queria saber mais sobre isso, mas já sei como você é, tá tudo no nosso acordo. Hoje fui fotografar a cidade. O tempo ajudou, e fiz umas fotos incríveis que tô te mandando aqui na carta. A da menina de tranças é pra você. Sua mesmo. Teve um show numa praça movimentada que fica perto do lugar onde eu tô morando ontem, conheci um pessoal bacana. Não sei bem como você vai encarar isso, sinceramente acho que não tem problema te falar, mas eu fiquei com uma mulher lá. Na verdade, eu e essa mulher temos saído há algum tempo. E eu tô gostando dela. Sabe, eu esperei você por muito tempo. Você sabe que o que me trouxe pra cá não foi só o trabalho. Tô gostando mesmo da Diana. É claro que eu ainda penso em você, senão eu não tava aqui escrevendo, mas também acho que o que a gente viveu só tem lugar na memória mesmo. Não quero que você pense que tô te responsabilizando por tudo, mas eu acho que a gente podia ter tido outro destino, se você assim quisesse. Um beijo.

Comprei umas flores bem vistosas pra pôr na minha escrivaninha. Tem feito bastante sol por aqui.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Roleta Russa

Às vezes
Quase sem querer
Me encontro
Pensando
Que necessariamente passo
Pelo dia da minha morte
Ano
Após
Ano.

Haicai da Tranquilidade

Recentemente concluí
Que meu salário
E minha menstruação
Caem
No mesmo dia
Só pra me lembrar
Que o mínimo do razoável
Ainda está
No lugar.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A beleza é perene

Tantos dizem da beleza passageira
Beleza que é presságio
Do que da superfície não adensa
E que fica sempre suspensa

Beleza, a grande rainha do mundo,
Desde Homero saudada por todos os povos
Dona das reverências mais sinceras e desesperadas
Tantos dizem da beleza, com a beleza, pela beleza

A beleza nunca acaba: se transforma
Como muda o gelo a própria forma
Em cristal líquido se converte, mas mantendo o seu sentido
As suas paredes, a sua estrutura, a sua composição

A beleza nunca se dissipa: se multiplica
Se metamorfoseada em novas belezas
Vai ocupar novos corpos e novos tempos
E deixar pelo caminho elegias mais inspiradas

A beleza nunca morre: ela fica
Ela se recusa, e se debate: beleza não há quem prenda
À beleza caprichosa bálsamo, flor, oferenda
E mesmo enquanto objeto
Dentro de dois olhos não se comporta, mas explode
De tão plena

Absoluta, vibra entre as imagens, e se reverbera
Produzindo ecos próprios no corredor do tempo
Alia-se ao poder - flerte tão antigo -
A beleza deita, inerte, o mais irascível inimigo

Cochichos e falas miúdas
À beleza não atingem
Não sabem é que ri, a beleza,
De toda maledicência:
Sabendo-se maior que a pequenez do descrédito
A beleza com tédio atira
Pequenos dardos à grande pira

Tantos dizem da beleza passageira
Danada em si, tão sorrateira
Beleza despudorada e faceira
Ao que a própria ignora, solene:
A ingenuidade e a maldade com os homens caem
florescendo em verde grama;

A beleza é perene
A beleza é perene
A beleza é perene.

segunda-feira, 2 de março de 2015

As quatro paredes do rosto

Vomitei quando te vi pela segunda vez. Abri caminho com os braços, navegando entre as pessoas, para que você não me visse. Então vomitei. Fazia algumas semanas que não te via depois do seu sumiço - explicado - e o choque de ver você chegar misturou muitas coisas na minha cabeça.

Quando apaixonada, meu corpo experimenta sensações muito próxima às que sente alguém que está doente. São tonturas, pressão alta, ansiedade, intensificação da asma, arritmia; é todo um quadro de sintomas incrivelmente físicos. Se te vejo, eles eclodem vesuvianamente e em uníssono. Por mais que eu tenha tentado, ficou impossível disfarçar isso de você. E você acabou gostando de saber.

Olha, eu não sei amar direito, rapaz. O amor me deixa leve e me dá cansaço - até mais que isso, o amor me dá fadiga - e me faz dormir 8 horas por noite. Talvez o amor seja mesmo isso. Mas sei me apaixonar. Como ninguém. Vivo profunda e leoninamente grávida de paixões impossíveis, me rendo a todas elas quando na minha porta tocam campainha, presto continência e serviço, bato cabeça. É como se cada uma desnudasse um mundo novo e a minha eterna capacidade de ir ainda mais além dentro de mim. Me esqueço todas as lágrimas, e fórmulas, e precauções, e receitas, e ignoro todos os sinais de "pare" à minha frente. Controle nulo. Mas nunca fiz mal nenhum a ninguém por conta disso - a não ser, é claro, a mim. É que eu não resisto. É que eu simplesmente não resisto.

Você caminhou pela praça, com os olhos nas barraquinhas. Assinou uma petição, comprou uma camiseta vermelha, bebeu uma cerveja. E não me viu. Não deixei que me visse. Porque eu não sustento o peso dos teus olhos sobre mim. Porque eu não sustentaria seu bom humor galopante, seguida do seu abraço - minhas narinas ainda guardam o cheiro bom do seu abraço - e dos seus beijos no meu rosto. Nem por um minuto eu sustentaria. Ou, pelo menos, essa seria a versão contra-factual das coisas: quando você me viu, acenou e veio ao meu encontro, me abraçou e, meio sem jeito, me apresentou sua namorada nova, moça simpática.

Te sorri de volta e cumprimentei - sem contudo parar de sentir ondas de pequenas mortes percorrendo cada nervo meu.