sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

conselho de pai

quando tinha 9 anos
e reprovei a quarta série
foram as dificuldades em matemática
que não me abandonaram com o tempo
e as muitas moscas e mosquitos no horizonte
da vista
os culpados
eu escondi meus boletins no vão da cama
e joguei mario bros até
os polegares
incharem
e até meus olhos encherem de pixels
no café da manhã seguinte meu pai
a voz cândida de manhã me disse
ana você não mentiria pro seu pai
porque seu pai não mente pra você
mentiria?
e meu pai sabia
que eu mentiria
sim
meu pai estudou menos que noam chomsky
e não fala tantas línguas
quanto olga kempinska
e ainda assim
foi meu pai quem pela primeira vez me disse
"ponderação, minha filha"
e fico ainda sem certeza
se meu pai é capaz de mensurar
o quanto essa é a palavra
que eu mais penso na vida.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Poema retirado de uma elucidação sobre a expansão do universo no Instagram

From our perspective it looks like
we're at the centre of
the universe

Yet
it doesn't make us
special

In fact
every location in the universe
gets to feel special

because in an expanding universe
everywhere looks the centre

If everywhere is
the centre
of the universe
then universe would in fact has
no edge

A universe with no edge
is a universe that
although expanding
is the one that doesn't need to expand
into anything.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 2016

os crucifixos brilhando sobre as encruzilhadas da cidade
o trem descarrilou ao norte
sob um sol de quase quarenta graus

uma pipa agarrada na fiação do dia 01
as crianças na rua discutindo o que de longe
vira outra língua
(não é o pasteurizado de vozes, de fato,
a língua dos anjos
que língua é essa?)

religiosidade, se os santos do dia anterior
ainda voam nas ruas
estranhamente normais, e vazias
dizem do epicentro
que é nele sentido a maior descarga
de dor

uma mancha de homens coloridos abarrota as centrais
seus uniformes e olhares
espirais
e um aspirar preso nas bocas por sob
o suor dos buços
passa um outro homem e rompe a marcha e na mão dele
amendoim dois é um real e pra quem gosta de doce,
kitkat
no sorriso obrigado dos dias,
troco.

a paleta variada das rodelas já gastas
à infinita pressão do tempo tão logo se despedaçam
nas pilastras, nos postes, nas bancas de jornal
nas camisas não-lavadas, no teatro municipal

uma mulher recosta os cabelos crespos
no vidro do ônibus
com os pés equilibra
uma bolsa puída
guardando as cores de mil esmaltes
na cabeça equilibra
mil problemas

a viúva negra
no dia das bruxas
foi levada a inquérito
enquanto há calor nas areias das praias
matebiscoitogloboaplausosarpoadorttburguerfacebookgarotasdeipanema

já se fazem especulações
das próximas fantasias de carnaval
religiosidade, se os santos do dia anterior
ainda voam nas ruas
se os crucifixos machucam
as encruzilhadas
com toda a sua luz
cristo vive
o homem reina
amém?

indiferentes e plácidas
as flores vadias nas árvores mal cultivadas
dos canteiros urbanos
arrebentam no fim da primavera
aos olhos de ninguém.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

quantas poesias não são
diariamente perdidas
diariamente não nascem
porque os matemáticos,
desde ramanujan até
os calouros
do instituto de massachussets
não quiseram
não souberam
entrar nas palavras?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Questionamento

na praça tiradentes
e na rua do ouvidor
pelos depósitos da cidade
esquinas que pleiboi não pisa

ilha do governador
samba do trabalhador
cadê você, ô meu amor

te percebo na ausência
por saber onde você está
na espera do ônibus
que custa uma manhã
pra chegar

não tem mais teu nome
na boca da roda
não tem mais piada tua
zombando da nova moda

por saber onde você está
te percebo na ausência
não é mais sobre amar
é sobre bem-querência

bar da cachaça, bar no nanam,
bdp
vazia a rua não está
mas falta um quê
na praça mauá
ou na da harmonia

meu amor, cadê você