domingo, 19 de abril de 2009

Mazel tov

Um brinde ao nosso amor doente. Nosso manco amor, que se arrasta vicioso. Uma ode à loucura conjunta, à obsessão recíproca. Nosso débil amor.
Uma canção ao nosso amor. Um amor cheio de buracos, cheio de cacos, cheio de espinhos. Nosso amor sangrado, suado, violento, intempestivo. Uma salva de palmas à ironia cruel deste laço que nos ainda nos une, traiçoeiro. Um olhar profundo por dentro de cada poro desse amor vicissitudinal, inconstante, fragiforte.
Uma elegia à cegueira de nós dois, ratos cegos se buscando pelo cheiro de mijo, de coito, da impossibilidade de se ver só; do medo letal de se entregar ao mundo outra vez. Nosso amor problemático. Bruto. Insustentável.
Mazel tov à essa insanidade inarrancável, que se uniu às nossas vísceras por fios de câncer e desgraça que, conforme nos alimenta, nos destrói. Um chopp a todo esse nojo bem aceito pelas nossas famílias. Um sorriso à nossa hipocrisia em aceitar esta condição!
Um grito em solene homenagem ao nosso indissolúvel amor. Nosso amor de merda, nosso amor sem sentido, eu te amo; nosso amor vital.
Uma missa ao nosso sexo, com altar, cálice, vela. Ao nosso sexo grosso, seu esperma espesso, sua genitália suja, minha boca na sua, essa imundície procriativa.
Uma salva de tiros a tudo isso. Com sorte, eles nos acertarão.