domingo, 14 de junho de 2009

Carta de amor

Uma carta de amor não se faz, necessariamente, de puro desejo. De espasmo erótico, de asfixia existencial quando a outra metade está in absentia. A carta de amor de verdade abriga em suas linhas um bocado de cansaço. Uma decodificação, automática e meio sem graça sobre a mínima expressão gestual da metade.
A carta de amor, quando madura, é quase um relato, tão pouco envaidecida de metáforas e impregnada de cotidiano. É essa espécie de diário de bordo duma embarcação que navega-se parcialmente às cegas, onde reencontramos o fosco conceito de amor que só existe nas novelas e em contos infantis. Uma carta de amor que se preze conhece cada defeito, cada pinta, cada peculiaridade do caráter da metade, e não admite acobertá-los sob uma colcha de qualidades duvidosas.
Para conceber uma carta de amor, o primordial é ser sincero. É não omitir nem ronco nem dedo no nariz. É velar, com discrição e uma ponta de encantamento, um pedacinho de pele, de olhar. É, depois de todo esse tempo, ainda ser louco por alguma coisa que a metade faça.
Particularmente eu ainda não sei escrever tal carta, eu apenas a teorizo. Porque esse tipo de carta é tão absurdamente complexo e simples, pela facilidade de se tropeçar em centenas de clichês e de simplesmente descarregar sobre a inocente folha de papel tudo aquilo que se sente. Logo, é meio ridículo, tanto quanto improvável tentar amarrar-se (a) parâmetros na construção de tão difícil documento.
Bem verdade, a carta de amor reflete a dificuldade que existe na própria conceituação de amor. Essa praga barroca, impossível e necessária. Então, amantes de todo o globo, escrevam suas cartas, e ignorem os meus vãos preceitos, que uma boa carta amorosa está sempre embotada de loucura e é tão abstrata e subjetiva quanto o próprio sentimento que é dela objeto; mas ainda assim é uma boa tentativa de eternizar tal sentimento.
Passando-o a limpo.

Feliz dia dos namorados. (Post para 12 de junho de 2009, com um atraso justo porque viajei)

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