domingo, 10 de abril de 2011

A formiga no espelho

Não desvie. Não esbarre. Não deixe cair o que se porta. Mantenha-se na fila. Acima de tudo, respeite a esteira. Respeite a seqüência. Respeite a ordem. Respeite o programa. Respeite a cadeia. A cadeia é segura. A prudência protege. Não subverta. Não insurja.
Não pare. Trabalhe, trabalhe, trabalhe.
Diga obrigado. Diga por favor. Diga com licença. Seja cauteloso. Zele pelo bem comum. Não olhe nos olhos da outra formiga. Não olhe além da linha. Cumpra prazos. Comporte-se. Respeite o perímetro do seu passo. Obedeça. A colônia é cada pata que se movimenta. A colônia é a marcha lenta e silenciosa dos dias. Seja o funcionário do mês da colônia. Você é a colônia. Mas se você morrer, a colônia ressuscitará nas patas da sua prole. Porque a colônia não pára.
Você é substituível. Você é dispensável. E não. Você não é substituível. Você não é dispensável. Você, você. Mas não diga isso para outra formiga, e para outra, e para outra. A colônia é sua mãe. A colônia é seu pai. Você nasceu nela e vai morrer nela. Você nasceu por ela e vai morrer por ela. Respeite a colônia.
Lave a cara. Abra os olhos.
Trabalhe, trabalhe, trabalhe.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Bicicleta

Sinto saudades de andar de bicicleta. Eu lembro que passei boa parte da minha infância e pré-adolescência sobre algumas. Gosto do movimento continuamente circular. A bicicleta faz a gente calçar as sapatilhas de Hermes. Eu lembro, com muita clareza, de que quando dava por mim, me sentia levantando voô em cima da minha Caloizinha, como se as ruas que cercavam a minha casa de praia fossem só minhas.
    Ah, bicicleta! Como é gostoso revisitar o prazer de se desprender do guidom, abrindo os braços pra abraçar e ser abraçada longamente pelo vento que chicoteava os cabelos, docemente, fechar os olhos e ver um mundo caleidoscópico pelas retinas. Me pintar numa aquarela bucólica, sobre uma bicicleta que atravessa uma rua sem nome, cheia de terra e cascalho fresco que a chuva fina da noite molhou, que o sol rascante do dia quarou. Bicicleta. Como pode uma única palavra suscitar lembranças tão lívidas em alguém? As pernas saudáveis movendo as roldanas bem lubrificadas, as duas peças esféricas que continham as marchas, toda a sua bela e magra anatomia; toda a orquestra barulhenta da corrente que se movia por através delas, e a então bicicleta cavalgava a fortes trotes sobre o chão de barro, meio animal, com uma vida quase própria.
    Longe dos olhares que repreenderiam, longe dos chamados para o almoço proferidos pela esganiçada voz de minha avó, mais longe que qualquer lugar que alguém conheça - por existir, saudosamente, tanto na memória quanto no meu peito -  eu e a minha bicicleta éramos uma só. Nós duas corríamos, caíamos, nos machucávamos. E meu pai cuidava muito bem de nós. Já no dia seguinte estávamos prontas para novas trilhas. Quando nos cansávamos, parávamos e campos amplos de vegetação vulgar, mas eram tão macios aqueles matos selvagens que cresciam impunes que ali passávamos longas horas sem nos dar conta, brincando com as dormideiras e sentindo as formigas fazendo cosquinhas por nossos pés e braços. Ccostumava adornar minha bicicleta com muitas dessas flores corriqueiras que encontrávamos pelo caminho, e ela ficava com cara de Havaí, coroada. Toda metida.
    Hoje, algumas idades e estações depois, ouvi o nome dela. Bicicleta. Veio duma boca apaixonada que ia andar não só sobre ela, mas, sobretudo, com ela. Essa pessoa parecia sentir o que eu sentia.
    E eu morri de saudade.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O presente obsoleto

         Foi lançado, nos últimos dias, o último álbum da banda britânica Radiohead, "The King of Limbs". Particularmente, nada tenho contra o trabalho do dançarino Tom Yorke e companhia, tampouco admiro o som. Mas acontece que, ao saber de tal lançamento, pensei no meu namorado, ardoroso radioheadico, e cogitei comprar o álbum para presenteá-lo. Daí, parei por um instante, e voltei atrás: quem dá CD de presente nos dias de hoje?
         Eu ainda me lembro da época em que CD era presente. Presente muito bom, aliás. Era, inclusive, a época em que os móveis de sala-de-estar eram vendidos com aquelas colunas medonhas que pareciam o esqueleto de alguma criatura paleozóica, destinados a comportar os CD's. Mas, conforme passaram os anos, a década de 2000 engoliu este esférico artefato.
          Tive muitos CD's. E a sessão shame-on-my-past é extensa. Xuxa, É o tchan, Fat Family, Spice Girls, Ricky Martin, todos figuravam, felizes, entre os meus it-pertences. Outros tempos. Tempos em que o Google não me dava bom dia e nem me punha para dormir. Para ouvir as músicas novas das bandas que eu gostava, era preciso ouvir rádio. Quando não, dispor de fita cassete - metros, muitos metros de fita magnética para contar história. Não vou entrar no mérito, mas a internet facilitou bastante a vida das pessoas. Para o bem e para o mal. Me lembro que ouvia uma música incrível na rádio, e, por não ter como procurá-la para ouvir novamente, ficava muito tempo com seu refrãozinho tocando na minha cabeça. Hoje, com uma rápida pesquisa em tags, é possível encontrar o ano de lançamento, intérpretes, história; tudo. Não sei se é só uma impressão isolada, mas as músicas me soam muito mais cansativas. Esse processo acelerou a oxidação da música. Acabou-se aquela gostosa inquietação de esperar. Acabou a espera.
           Mas a estrela - ou seria, hoje, só uma anã-branca? - da postagem é o CD. Aquele elemento espelhado, com um furinho central, que já fez tanta gente sacudir o esqueleto dançar nos 90's, e hoje adorna, suspenso no ar por fios de nylon, a decoração de algumas festas prosaicas. E hoje, assim, sem mais nem porquê, me dei conta da silenciosa extinção do compact disc.
           Coincidente e ironicamente, me lembro da última vez que dei, de presente, um CD a alguém. Tem pouco tempo. Foi para um namorado old school que tive que, à época, ainda tinha em seu quarto um daqueles rádios com leitor para CD's. Tenho minhas dúvidas se ainda fabricam rádios assim. E você, leitor? Será que é capaz de se lembrar qual foi o último CD que deu para alguém, ou mesmo que tenha "se dado"? Na era D.G - leia-se Depois do Google -, isto é impensável.
            E fiz bem ao conter minha boa-intenção em agraciar meu namorado com tal peça. Ao interrogá-lo sobre o lançamento do novo álbum da banda em questão, ele me respondeu, prontamente, que já havia baixado. Lembrei, nesse instante, que foi justamente essa banda a pioneira na extinção da era-CD, disponibilizando o conteúdo de sua obra via download por um valor modesto.
            Fiquei quietinha. E economizei trinta reais.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A história de jackson e a Moça do Outdoor

... até que um dia jackson se deu conta de que ela o observava insistentemente do alto dos cabos por onde estava suspensa. Entre um carro e outro que manobrava para abastecer, entre um moleque e outro que enxotava do posto, entre os trocos que entregava, lá estava ela, semi-imóvel, rolando na areia prateada duma praia cor-de-laranja, metida num vestido de tecido fino que, molhado, revelava toda a generosidade das carnes morenas cujo sol, eternamente poente e até então a única testemunha daquela visão, dispunha a iluminar estrategicamente os contornos da sereia bípede e solitária presa dentro daquele outdoor imenso que era só dela, só dela. Jackson foi ao banheiro, lavou o rosto, aquilo não podia estar acontecendo. A Moça do Outdoor não poderia estar olhando pra ele, porque se o estivesse, estaria fazendo-o, também, com cada um que ali passasse.
    Voltou para o posto, perturbado com a idéia de estar sendo visado por uma fotografia. Olhou para os lados, desconfiado de que alguém pudesse notar sua apreensão pelo seu olhar acabrunhado. Carros iam, vinham; os moleques de rua jogavam bolinhas coloridas para o alto, a fim de impressionar os donos dos carros, na esperança de ganharem alguma moeda. Filas se formavam para obterem GNV. Um homem saiu do carro para fumar um cigarro. Outro, para recalibrar o pneu traseiro. Uma mulher se maquiava no retrovisor, enquanto esperava, dentro do carro, pela sua vez de abastecer na fila do GNV. Mas jackson estava cada vez mais alheio ao movimento no posto, uma vez que a idéia crescente de que a Moça do Outdoor o estivesse fitando ficava clara em sua cabeça.
    Acabava o dia, e jackson deixava o trabalho. Em casa, encontrava o filho nos braços de sua mãe, já falando a língua da fome. Nada alentava o menino. A mãe reclamava das despesas geradas pelo neto, que a renda era pouca, que era bom que ele procurasse um lugar. Entrou no quarto com a criança, deitou-a na cama e, em seguida, deitou-se também. Com os olhos fixos no teto branco, pensou na Moça. Fechava os olhos, e ainda via a moça, engatinhando naquela areia toda, sozinha, gostosa, com mamilos que evidenciavam o desejo fruto de eras de solidão, por dentro daquele vestido que se confundia com a pele. A Moça vinha beijá-lo, aqueles milhares de beijos doces, com gosto duma fruta que ele não sabia o nome, cheios de ternura, cheios de lascívia. Ela era o melhor exemplar feminino que ele já havia visto.
    Mal jackson descansava dum dia, começava o outro, empurrando seu sono abruptamente, cheio da luz cortante que faz os sonhos sangrarem. O menino chorava. "Papai te ama, eu juro que um dia vou te dar tudo que você merece." "Bom dia, mãe". "Café tá na mesa, comprei mortandela." Jackson comia com rapidez, não podia se atrasar. No trabalho, os olhos não conseguiam ficar abertos, e atestavam isso pelos longos e intermitentes bocejos que jackson dava. "Jackson!", ele ouviu. "Jackson, eu estou aqui." Ele ouvia, olhava para os lados, olhava para os carros, mas não encontrava a origem da voz. Então, seguiu-se o pior arrepio que ele já havia experimentado. Hesitante, ele forçou as pálpebras e as levantou na direção que não queria: a Moça do Outdoor realmente estava falando com ele.
    "Por que você não acredita em mim, Jackson? Eu sei que você sabe que eu estou aqui, e que olho pra você o tempo inteiro." Jackson apertou os olhos, virou o rosto, respirou fundo. Ele não podia enlouquecer agora. Tinha um filho pequeno para criar sozinho. Tinha a mãe, que dependia do seu magro salário para sustentar a casa. Tinha alguns amigos com quem contar. Por que haveria de enlouquecer agora? "Jackson, olhe pra mim. Olhe pra mim, Jackson. "
    Jackson foi ao banheiro, colocou a cabeça debaixo da torneira, transtornado. Carlos, um amigo do trabalho, que entrava no banheiro no mesmo instante, deparou-se com a cena, espantado. "Que isso, jackson! Tá passando mal, cara?" jackson se levantou, com a água fria escorrendo pelo pescoço, e saiu sem responder ao amigo. Voltando ao trabalho, recebeu uma chamada de seu supervisor por sua distração na hora de entregar o troco a uma senhora. Arregalava os olhos para acordar, porque aquilo com certeza haveria de ser um sonho. Mas não era. Cerca de alguns instantes depois, furiosa com a rejeição, a Moça do Outdoor quis provar a jackson de que não era uma alucinação.
    Apoiando-se nas estruturas de ferro, desceu o pé esquerdo no chão do posto. Com cuidado, desceu também o pé direito. Sacudiu os cabelos, salpicados de areia e sal, e veio na direção de jackson. Já não havia ninguém mais no mundo.
     "Somos só nós dois. Acredita em mim agora?" jackson não conseguia responder. "Vem comigo. Nós nos amamos. Vem comigo, Jackson."
    Nesse instante, acontecia algo estranho à sua volta. As pessoas pareciam correr em câmera lenta, acenavam com os braços por ajuda. Mas jackson estava dormente, não conseguia entender. Ouviu uma explosão abafada, e viu mais pessoas correndo. Uma das colunas que sustentavam o posto veio ao chão, e ele finalmente entendeu o que se passava. Do outro lado da rua, transeuntes perplexos paravam para observar, impotentes.
    A moça segurou a mão de jackson, que, pela primeira vez, se sentiu alguém realmente importante. O medo havia ficado para trás. Ele não estava louco, estava mais lúcido que nunca. Estava caminhando rumo a uma vida nova, nova em folha; estava nadando para fora do útero urbano que tinha cheiro de óleo diesel, para nunca mais voltar. Estava ganhando uma certidão de nascimento. A cada passo que dava de mão dada com a Moça do Outdoor, Jackson pisoteava as algemas das contas de luz-água-telefone. Jackson estava indo embora. Ninguém viu, mas ele, de alguma forma, conseguiu entrar, junto com a Moça do Outdoor, no mundo crepuscular cor-de-laranja em que ela vivia. E desapareceu.    
 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Jellyfish

Leve e fluida
Água d'água
sem memória
Livre e solta
Água adaga
A dança côncava de sua anágua
E seus cabelos d'água
Cortam e queimam
Sangram e morrem
Na beira da praia.