terça-feira, 6 de maio de 2008

À André Sant´Anna

Hoje eu acordei com muito sono, apesar de ter dormido até onze horas, porque mesmo quando se acorda tarde se sente muito sono, e é por isso que eu sinto sono o tempo inteiro. Depois de escovar os dentes, fui beber água, porque minha mãe fala que é bom beber água assim que se acorda, porque água hidrata o corpo, porque minha mãe sabe muito sobre saúde, porque ela tem um corpo bonito aos 44 anos e de saúde eu não sei de nada. Sentei na mesa e comi um pão de forma, porque era o único que tinha em casa, porque o meu pai acordou muito mais cedo que eu para resolver um problema no Centro do Rio, porque esse problema precisava ser solucionado, e como ele acordou muito cedo para resolver esse problema não deu tempo dele comprar o pão quentinho da padaria da esquina, e eu tive que comer o pão de forma, porque o pão de forma já estava pronto, e o pão de forma a gente pode comer frio.
Depois do meu breve café eu fiquei lendo algumas coisas da faculdade, porque a minha matéria da faculdade é muito difícil, e eu tenho medo de ficar sem entender nada na hora da aula, porque a minha professora da faculdade corre com o conteúdo, porque ela pressupõe que as pessoas estejam entendendo a matéria que ela está passando, e como eu não estou entendendo essa matéria direito, eu tenho que ficar lendo essa matéria toda manhã pra ver se aprendo, porque se eu não aprender essa matéria que já é difícil no primeiro período, eu provavelmente não vou aprender as matérias que virão no segundo período, e se eu não aprender bem direitinho as matérias que virão, eu vou ficar sempre reprovada, e se eu ficar sempre reprovada, eu nunca vou me formar, e se eu nunca me formar, eu não vou conseguir arrumar um emprego, e se eu não conseguir arrumar um emprego, vou ter que ficar o resto da vida morando com a minha mãe, e se eu morar o resto da minha vida com a minha mãe, vou ser obrigada a ouvi-la me chamar de inútil todo dia, e eu não quero isso.
O tempo passa muito rápido, e logo o relógio marca duas horas da tarde. O tempo passa rápido pra mim porque eu acordo muito tarde, e quando se acorda muito tarde tem-se a impressão de que o tempo fica menor, e é muito ruim sentir o tempo se encurtar porque parece que não vai dar tempo de fazer as coisas que eu tenho que fazer ainda, coisas que eu estou fazendo e coisas que nem comecei a fazer. É chato pensar em começar a fazer uma coisa longa, porque já dá cansaço só de pensar em começar a fazer essa coisa, porque ela é longa, porque ela vai demorar, porque vai ser trabalhosa, etc.
Então eu fui tomar um banho. Rio de Janeiro, 22 graus, mas parecia que eram 14, porque os cariocas quase não veêm dias nublados, porque os cariocas sentem muito calor, porque os cariocas são naturalmente calorentos, porque os cariocas gostam de roupas sumárias. Pus o chuveiro na posição "inverno", porque eu sou carioca, mas eu sinto frio fácil, porque eu sou eu, porque é de mim sentir frio, porque eu sinto muito frio desde criancinha, e eu sou muito azarenta, porque o chuveiro queimou, porque o chuveiro é da Lorenzzeti, e a Lorenzzeti não é uma marca de confiança, porque o meu chuveiro é velho, porque eu sou pobre, o meu pai é pobre e ele tá apertado com dívidas que esquece de comprar um chuveiro novo. O chuveiro queimou e eu tive que tomar um banho frio, mas bem frio mesmo e pulando, porque no calor eu já tomo banho quente, e quando está frio parece que a água fica mais gelada, e quando a água gelada bate num corpo que estava aquecido, ela parece que corta, porque é muito ruim tomar banho gelado quando se quer tomar banho quente. Sorte minha que já estava quase acabanho o banho, que ai foi só tirar o sabão bem rápido e sair do banheiro mais rápido ainda porque eu estava ficando atrasada, porque eu acordo muito tarde.
Eu vesti uma roupa nova, porque ela já estava no armário há algumas semanas e eu queria usar, porque eu comprei essa roupa pra poder usá-la, porque eu gostei dela, e gostei do seu tecido, e gostei da sua estampa. Vesti uma calça sem pensar e calcei um sapato cinza, porque eu gosto da cor cinza, porque é uma cor neutra, porque o dia estava nublado, porque acho que o cinza combina com o dia nublado.
Meu pai me deu carona até o ponto do meu ônibus que, a pé da minha casa, leva uns 15 minutos. Eu aproveitei porque eu não gosto muito de andar até o ponto de ônibus, porque eu me canso, porque uns pedreiros feios - nada contra pedreiros - mexem comigo no meio da rua, porque eles falam um monte de bobagem pra mim, principalmente quando eu uso vestido, porque eles são uns safados, porque eles são uns adúlteros, porque pai pobre é destino, mas marido pobre é burrice. Então, eu cheguei no ponto e o ônibus já estava à minha espera, então eu subi rápido e o motorista perguntou se eu tinha 50 centavos, porque ele sempre pergunta se eu tenho 50 centavos, porque ele diz que é pra facilitar o troco, porque motoristas de ônibus odeiam receber notas de 10 reais quando a passagem é 5,50, porque eles têm que ficar contando o troco, e eu acho que eles não gostam muito de fazer contas. Mas eu só tinha 10 reais inteiro, porque o meu pai falou que não vai me dar mais do que o dinheiro da passagem, porque eu gasto muito na faculdade, porque isso anda saindo muito caro pro bolso dele, porque eu moro em Caxias e a faculdade é em Niterói, porque eu sou dependente.
Eu entrei no ônibus, e esperei até chegar ao meu destino. Saí do ônibus no terminal, e fui andando pelo bairro São Domingos observando tudo de sempre: o carro do pão, as bancas de jornal com aquele bando de bunda pro alto das mulheres da play-boy e similares, porque os jornaleiros são espertos, e eles sabem que bunda chama atenção, porque o homem brasileiro é bobo e acha que bunda é patrimônio nacional; os hippies que vendem artesanato hippie, porque hippies não têm casa e eles precisam vender aquele artesanato que eu acho até bonitinho pra sobreviver, porque os hippies têm filhos que já são hippies e são bonitinhos também, porque hippies gostam dessa vida, porque hippies pedem dinheiro, porque hippies gostam de fumar uma maconha de vez em quando; os skatistas que ficam em frente ao DCE da minha faculdade, porque em frente ao DCE da minha faculdade tem uma praça, e nessa praça ficam muitos skatistas porque a arquitetura dessa praça é boa para a prática do skate, mas eu não gosto de skate porque uma vez eu tentei andar de skate e caí de bunda no chão, por isso que eu não gosto de skate.
Cheguei à faculdade e não tinha ninguém da minha sala, então eu fui pro D.A pra ler mais um pouquinho da matéria que eu não entendo direito, porque essa matéria me dá medo, porque mesmo com medo, eu gosto de estudar essa matéria porque acho que quando a gente supera um medo, a gente transcende a nossa capacidade e minimiza um temor. Mas eu não fiquei muito tempo no D.A porque as veteranas estavam lá, e eu fico um pouco sem graça diante delas, porque no fundo eu sou um pouco tímida, porque eu não tenho intimidade com elas como tenho intimidade com as minhas outras amigas, e porque elas não me chamam pra conversar, mas eu também não ligo porque também não sou a pessoa mais legal do mundo para me quererem por perto.
Dali a pouco a aula começou, a aula da dificuldade, a aula da matéria difícil que eu tenho que aprender senão eu fico sem me formar e se eu não me formo eu não tenho emprego e se eu não tenho emprego eu tenho que morar com a minha mãe e eu não quero isso pra mim. Então, apesar que querer ficar conversando com as minhas amigas sobre as fofocas do fim de semana, eu prestei bastante atenção nessa aula, porque a professora passou um trabalho difícil, porque ela quer ser camarada com quem se ferrou no teste dela, porque esse trabalho vale três pontos e eu preciso garantir esses três pontos pra mim senão me ferro de vez.
Depois que acabou a aula eu fui andar pelo campus para me distrair, porque eu estava preocupada com essa matéria difícil, porque eu fiquei e estou com medo não só dessa matéria, mas como de uma outra matéria cuja professora está exigindo um trabalho muito complicado pra fazer até junho, e eu ainda nem sei como começar, e aí é chato começar uma coisa longa, porque você sabe que ela vai demorar, porque sabe que ela vai consumir o seu tempo, porque o tempo é precioso, mas o tempo oxida a gente. Depois, começou a aula mais fácil, e eu fiquei mais tranquila, porque eu entendo melhor essa matéria, porque o professor é mais claro nas explicações, porque esse professor tem cabeça branca e acho que pessoas de cabeça branca tendem a ser um pouco mais pacientes na hora de explicar as coisas.
Saí um pouco mais cedo, porque matéria era mais fácil, e peguei o ônibus mais cedo, e fiquei feliz, porque eu gosto muito de chegar em casa mais cedo, porque chegar tarde me faz sentir como se eu já chegasse em casa de madrugada, porque eu passo boa parte da minha vida noturna debruçada neste teclado onde escrevo pra você como foi o meu tedioso, longo, mas único e inimitável dia, porque todos os dias são dádivas, e todos os dias, apesar de chatos, têm sua graça, sua diferença, e deixam sua marca na nossa memória.

Um comentário:

Mariana disse...

F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O, Ana! Sou sua fã, cara! Demais! Você tinha que mostrar isso pro Franklin. auhauh

Beijobeijo

www.chadesaquinho.wordpress.com