domingo, 9 de novembro de 2008

Corrigir, não corrigir

Eu não sei quanto a você, caro leitor, mas quando um erro gramatical oralizado entra pelos meus tímpanos, ele pertuba a minha paz interior. Os mais entendidos podem até alegar a gramática internalizada do falante, seu léxico particular, seu meio. Mas eu fico com aquele desejo comedido de corrigir quem foi o responsável pelo feito; mas preciso me policiar. Só que, enquanto não o faço, o erro fica lá, ecoando pelas paredes espelhadas dos meus ouvidos; entre a epiglote e a faringe. A última foi com a minha mãe. Certa feita, ela me disse: "No acidente, quebrou a cravícula.". Instantaneamente, saiu da minha língua nervosa o "cla". "É clavícula, mãe!". Ela me entendeu, mas deu aquela satirizada antes, como eu já esperava. Minha mãe não é do tipo que fala "framengo", mas a explicação pra "cravícula" é que foi uma notícia reproduzida pela minha avó, e, por não ser uma palavra no uso comum das duas, a versão da minha avó prevaleceu. E essa sim fala "framengo".
A questão que quero atingir não é o falar da minha mãe ou a minha avó, mas o ato da correção em si. Se de um lado, o meu interesse é unicamente ajudar as pessoas que pronunciam algum vocábulo erroneamente, por outro, posso ser (e sou!) mal interpretada e vista como alguém que se acha intelectualmente superior. Do ponto de vista lingüístico eu seria condenada, mas o que eu posso fazer se nos últimos 20 anos a prescrição gramatical influiu na minha vida de modo dogmático? Por mais que de uns meses pra cá eu venha sendo intruída a extinguir a idéia de "erro" da minha cabeça, não tem jeito: ele está lá.
Por isso que acho que o terreno da correção é movediço. Não sei se me calo por receio de magoar alguém (e deixar a pessoa continuar a reproduzir a transgressão), ou se falo e corro o risco de ouvir um quem-é-você-para-me-corrigir. De qualquer maneira, minha intenção não deixa de ser boa, apesar das conseqüentes interpretações. Acho simplesmente de um espírito de porco quem usa conhecimento como status. Que é o conhecimento senão uma ferramenta de reprodução, e pública, e plural? Quanto mais o transmitimos, mas o adquirimos!
É. Não me importa de ser mal vista por um instinto que vem de dentro de mim. Por isso, vou continuar, polidamente, a ajudar os mais incautos. Até porque, é só através da educação que a gente muda as pessoas de dentro pra fora.
Boa noite!